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Acompanhamento médico não elimina riscos de anabolizantes – 09/06/2026 – Bruno Gualano

A comoção diante da morte do jovem influencer Gabriel Ganley traz nova oportunidade para esclarecer algumas falácias que cercam o tema.

Dias antes do óbito, o também influencer Rodrigo Goés comentou a respeito de Gabriel: “Esses jovens estão utilizando doses altas de anabolizantes. O que eles não podem negligenciar é o acompanhamento médico”. A crença num uso seguro com supervisão é compartilhada pelo astro Ramon Dino, que orienta iniciantes a procurar “um médico, um profissional para indicar a dosagem certa e o que usar”.

James Magnussen, medalhista olímpico e hoje competidor dos Enhanced Games –evento promotor do doping–, é outro a confiar no monitoramento: “Se houvesse implicações de longo prazo para minha saúde, certamente haveria alguns indicadores de curto a médio prazo que apontariam: ‘ei, isso não vai bem, você está tendo efeitos colaterais’. Até o momento, não vimos nada disso.”

A ideia subjacente de que anabolizantes só fazem mal na ausência de acompanhamento médico merece ser questionada.

Em quantidades fisiológicas, anabolizantes pouco afetam o desempenho e os músculos em pessoas saudáveis. Para produzir os ganhos almejados por fisiculturistas, são necessárias doses elevadas. Nesse caso, porém, os eventos adversos vêm a reboque. É bem conhecida a longa lista desses efeitos. Morte súbita, da qual Gabriel foi vítima, é um deles.

Dados do nosso grupo apontam que 65% dos homens e 80% das mulheres relatam eventos adversos com o uso de anabolizantes. A alegação de que a prescrição médica é capaz de prevenir esses desfechos pressupõe a existência de um protocolo reconhecido pela ciência como seguro e eficaz.

Tal método simplesmente não existe. Logo, equivocam-se médicos, coaches, influencers e hormonólogos que afirmam trabalhar com prescrições seguras. São, no máximo, alquimias formuladas na base da tentativa e erro. E o dilema de brincar de roleta-russa com o cilindro quase cheio é que o “erro” pode custar a vida de um terceiro.

Também se superestima o valor do monitoramento médico. Exames clínicos e laboratoriais podem até apontar riscos aumentados, mas não antecipam um futuro seguro. Muitas complicações associadas aos anabolizantes podem desenvolver-se silenciosamente, agravar-se irreversivelmente ao longo dos anos e escapar à capacidade preditiva dos exames disponíveis. Não há check-up capaz de afastar por completo o risco de eventos tão heterogêneos quanto rupturas tendíneas, doenças renais, infertilidade, arritmias, infarto, AVC, câncer, alterações psiquiátricas graves etc.

A inexistência de prescrições seguras de anabolizantes não torna menos importante o acolhimento de seus usuários. Evidências sugerem que profissionais da saúde podem desempenhar papel relevante ao esclarecer riscos, desencorajar o uso de doses extremas e facilitar o acesso a atendimento médico livre de estigmatização.

É o que alega fazer todo prescritor de anabolizantes, mas essa é uma falácia. Enquanto o profissional diligente é movido pela pergunta “como posso diminuir os prejuízos de uma prática nociva que esta pessoa provavelmente continuará realizando?”, o hormonólogo orienta sua conduta por outra finalidade: “como posso maximizar seus resultados a qualquer custo?”.

Diante de um aficionado por motos velozes, o cuidador zeloso aconselha capacete, direção prudente e uma máquina menos potente. O hormonólogo lança o motociclista no globo da morte e recomenda que acelere. O primeiro busca reduzir danos; o segundo os induz.

Em tempos nos quais o número de seguidores faz as vezes do currículo, é fundamental que os conselhos de medicina ajudem a população a distinguir uma prática da outra. Do contrário, casos como o de Gabriel continuarão a se repetir.


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Autor: Folha

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