Após uma pausa de pouco mais de um mês, as primárias do Partido Democrata serão retomadas nesta terça-feira (4), com a ala mais à esquerda da legenda buscando expandir seu ciclo de vitórias para tentar emplacar sua agenda radical.
A ascensão dos Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) causa preocupação entre democratas moderados, republicanos e independentes devido às suas propostas, compiladas em um plano chamado “Os trabalhadores merecem mais”, elaborado entre abril e junho por um comitê de membros do DSA e divulgado recentemente.
“Se vivêssemos em uma sociedade sem classes e governássemos a nós mesmos, poderíamos construir livremente um mundo sem guerra ou pobreza. Poderíamos construir um mundo onde ninguém sofresse por causa de sua raça, gênero ou religião, e onde todos fossem livres, iguais e bem cuidados. Construir esse mundo é a estrela-guia do nosso movimento”, afirma o grupo no programa, que lista uma série de medidas radicais.
O DSA afirma, no plano, ter como metas “redigir uma nova Constituição” para os Estados Unidos e “criar uma república socialista democrática”.
Nos três Poderes federais, o grupo defende “expandir a Câmara dos Representantes”, “abolir o Senado” e “substituir o presidente e a Suprema Corte por um Executivo e um Judiciário escolhidos pelo Congresso e a ele subordinados”.
Na área econômica e trabalhista, o DSA quer impor uma jornada de trabalho de 32 horas semanais, “estabelecer a propriedade pública das maiores corporações e indústrias essenciais para garantir o controle democrático e a prestação de contas ao povo” e “instituir impostos agressivos sobre a riqueza dos indivíduos e corporações mais ricos para financiar bens públicos e infraestrutura”.
Em segurança, o programa dos socialistas do Partido Democrata prevê “desmilitarizar os departamentos de polícia” e “encerrar as detenções e deportações do ICE [agência migratória dos Estados Unidos] e punir a brutalidade de agentes federais”.
Outras metas são “legalizar a migração, conceder anistia a todos os imigrantes independentemente do seu status, oferecer um caminho para a cidadania a todos os residentes permanentes e acabar com os limites e cotas de vistos”.
Na área de família, o DSA prega “encerrar políticas que oprimem a autonomia corporal e a vida íntima, incluindo restrições patriarcais ao aborto, ao parto e à criação de filhos”.
Na política externa, os socialistas querem “cortar o financiamento do Departamento da Guerra” e “encerrar todas as guerras no exterior e fechar bases militares em outros países”.
Também defendem o reconhecimento da Palestina, medida que seria acompanhada pelo encerramento de “toda a ajuda militar e econômica a Israel” e por processos judiciais contra “líderes dos EUA e de Israel” responsáveis pelo que o DSA chama de “genocídio em Gaza”.
O programa do DSA também afirma a intenção de “encerrar a guerra econômica [sanções] contra países cujos governos agem de forma independente dos Estados Unidos, como Cuba, Venezuela e Irã”.
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Em julho, o Departamento de Estado americano listou o DSA como um dos grupos de extrema esquerda inspirados e/ou que possuem ligação com o regime cubano.
“Hoje, o grupo mantém um compromisso fervoroso, quase religioso, com a causa do regime cubano — não porque seja propriamente controlado por agentes cubanos, mas porque tal compromisso é, agora, simplesmente a ortodoxia política de fato da extrema esquerda americana”, afirmou o relatório da pasta chefiada pelo republicano Marco Rubio.
A esquerda mais moderada também vem manifestando preocupação com a ascensão do DSA. Em artigo recente publicado no jornal The Washington Post, o think tank de centro-esquerda Third Way afirmou que os democratas precisam “combater o DSA” e que as experiências de “gestões da extrema esquerda” nos Estados Unidos têm sido um fracasso.
Em editorial publicado em julho, o conservador The Wall Street Journal afirmou que “o papel dos republicanos e dos democratas que tiverem coragem é esclarecer o país” sobre a agenda do DSA.
“Não fazendo o que o presidente [Donald] Trump faz, que é chamá-los de ‘comunistas’. Esse ataque genérico não terá ressonância entre os jovens, que não sabem o que é o comunismo”, argumentou o WSJ.
“A tarefa política consiste em associar o DSA às suas propostas específicas e radicais, e questionar os democratas que concorrem ao Congresso se eles concordam com a abolição do Senado ou com a neutralização do Poder Judiciário. Os democratas que não rejeitarem essas ideias do DSA se tornam alvos legítimos para serem associados a elas nas eleições deste ano”, afirmou o editorial.
Nesta terça-feira, haverá votações do Partido Democrata nos estados do Kansas, Michigan, Missouri, Washington e Virgínia para definir quem serão os candidatos da legenda a cargos nos níveis municipal, de condado, estadual e federal nas midterms, as eleições de meio de mandato presidencial nos Estados Unidos, marcadas para novembro.
Nesses estados, 20 pré-candidatos do DSA estarão na disputa, dos quais o mais conhecido é Rashida Tlaib, uma das duas deputadas do grupo na Câmara americana – a outra é Alexandria Ocasio-Cortez, que em junho já venceu a primária democrata para tentar a reeleição em novembro.
Na lista dos pré-candidatos nas primárias democratas de terça-feira, o DSA não cita Abdul El-Sayed, que busca ser senador federal pelo Michigan. Ele diz não ser socialista, mas participou de eventos organizados pelo grupo e é apoiado por Ocasio-Cortez e Tlaib.
Nas primárias democratas já realizadas, pré-candidatos do DSA venceram 38 das 76 votações internas que disputaram, inclusive desbancando democratas que ocupam atualmente cadeiras no Congresso americano. Contando as disputas desta terça-feira, outros 87 socialistas ainda estão na disputa.
Autor: Gazeta do Povo








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