
Poucos filmes recentes tiveram um desempenho comercial tão expressivo quanto “Michael”, cinebiografia que retrata a ascensão de Michael Jackson desde os tempos dos Jackson 5 até a consolidação de sua carreira solo no fim da década de 1980. Dirigido por Antoine Fuqua e escrito por John Logan, o longa é estrelado por Jaafar Jackson, sobrinho do cantor, e reúne nomes como Colman Domingo, Nia Long, Miles Teller e Laura Harrier no elenco.
O sucesso do filme extrapolou as expectativas da própria Lionsgate. Após 12 semanas em cartaz, a produção ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão em bilheteria mundial, tornando-se a primeira cinebiografia da história a atingir esse patamar. Desse total, US$ 371,8 milhões vieram do mercado norte-americano e US$ 629,8 milhões do restante do mundo, impulsionados principalmente pelo lançamento no Japão, último grande mercado a receber o filme, e pela permanência da produção em cartaz em diversos países.
A marca representa o ápice de uma sequência de recordes. Antes de alcançar o bilhão, Michael já havia se tornado o filme de maior arrecadação da história da Lionsgate, superando todas as produções anteriores do estúdio. Também ultrapassou os US$ 911 milhões arrecadados por Bohemian Rhapsody, assumindo o posto de maior cinebiografia musical da história, e posteriormente deixou para trás Oppenheimer para se consolidar como a cinebiografia de maior bilheteria de todos os tempos. No Brasil, segundo a Universal Pictures, o longa também registrou o maior lançamento da distribuidora no país.
O desempenho foi especialmente relevante para a Lionsgate. Segundo o New York Times, o estúdio vinha de uma sequência de resultados decepcionantes e enfrentava especulações sobre uma eventual venda da empresa. A aposta em um projeto considerado arriscado por outros grandes estúdios acabou mudando esse cenário. Com Michael e o thriller A Criada, a Lionsgate conquistou dois dos maiores sucessos comerciais do ano, fortalecendo sua posição no mercado e impulsionando o valor de suas ações.
Divisão entre público e crítica
Embora o público tenha transformado o filme em um fenômeno de bilheteria, a recepção da crítica especializada foi bem diferente. No Rotten Tomatoes (site que agregada avaliações da indústria cultural), a aprovação dos críticos ficou em 38%, enquanto o público atribuiu 97% de aprovação. No Metacritic, o contraste também aparece: o longa registra 39 pontos entre os críticos, contra uma nota média de 7,9 dada pelos usuários.
As avaliações ajudam a explicar essa diferença de percepção. Parte da crítica considerou que a produção evita aprofundar os aspectos mais controversos da vida de Michael Jackson, resultando em uma narrativa excessivamente cuidadosa e pouco complexa. Em sua resenha para o site espanhol Aceprensa, Claudio Sánchez afirma que o filme não alcança a profundidade dramática de outras cinebiografias recentes, como Rocketman e Bohemian Rhapsody, embora reconheça a qualidade da produção, das coreografias e da atuação de Jaafar Jackson nas sequências musicais.
Já críticos como Armond White, da National Review, interpretaram a obra como uma recuperação da imagem pública do artista, elogiando o foco na trajetória musical e defendendo que o filme resgata a dimensão artística de Michael Jackson diante das controvérsias que marcaram sua vida. Independentemente das avaliações, o contraste entre a recepção crítica e a resposta do público tornou-se um dos aspectos mais marcantes da trajetória do longa.
Os números sugerem que o sucesso comercial pode ser explicado por uma combinação de fatores. O alcance global da obra de Michael Jackson continua mobilizando diferentes gerações de espectadores, enquanto o forte desempenho internacional — especialmente no Japão — ampliou significativamente a arrecadação. Além disso, a permanência do filme em cartaz por várias semanas permitiu que a bilheteria continuasse crescendo mesmo após o período inicial de lançamento, algo cada vez menos comum na indústria.
O desempenho extraordinário já influencia os próximos passos da Lionsgate. O CEO da divisão de filmes do estúdio, Adam Fogelson, afirmou ao New York Times que espera anunciar novidades sobre uma continuação em breve. Embora ainda não existam detalhes sobre o projeto, a intenção demonstra que o estúdio pretende transformar Michael em uma franquia, aproveitando aquele que se tornou seu maior sucesso comercial até hoje.
Michael representa mais um caso em que o desempenho comercial superou amplamente a recepção da crítica especializada.
Autor: Gazeta do Povo








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