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Brasileiro lidera projeto para prevenir depressão infantil – 13/05/2026 – Equilíbrio e Saúde

Em meio ao crescimento dos problemas de saúde mental entre crianças e adolescentes, um projeto inédito liderado pelo Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre, pretende criar uma estratégia para prevenir fatores de risco e investir em ações protetivas antes que a depressão se instale.

A iniciativa, chamada Idea-Impact (Identifying Depression Early in Adolescence for Maximising Prevention and Clinical Translation), recebeu mais de 5 milhões de libras esterlinas —cerca de R$ 34 milhões— do Wellcome Trust, uma das principais instituições de financiamento científico do mundo.

O estudo tem duração de cinco anos e reunirá pesquisadores do Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Paquistão e África do Sul. À frente do projeto está o psiquiatra da infância e adolescência Christian Kieling, professor da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e diretor da Unidade de Pesquisa em Saúde Mental do hospital.

“O que nos move é transformar a identificação de risco em oportunidades reais de prevenção”, afirma Kieling. “Predição sem prevenção não basta.”

A adolescência é hoje considerada o principal período de surgimento de novos casos de depressão. E os indicadores recentes mostram uma piora consistente do sofrimento psíquico entre jovens brasileiros.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2024 apontam que três em cada dez estudantes de 13 a 17 anos afirmam sentir tristeza sempre ou na maior parte do tempo. Outros 42,9% relatam irritação ou nervosismo frequentes, enquanto 18,5% dizem pensar repetidamente que “a vida não vale a pena ser vivida”.

Especialistas apontam uma combinação de fatores para explicar o aumento de quadros de ansiedade, depressão e automutilação nessa faixa etária: impactos da pandemia, hiperconectividade, exposição contínua às redes sociais, cyberbullying, insegurança econômica e fragilidade das redes de apoio.

Apesar do aumento da demanda, o acesso ao cuidado em saúde mental continua limitado, especialmente em países de renda média e baixa, onde vivem quase 90% dos adolescentes do planeta. É justamente nesse vazio que o projeto pretende atuar.

O ponto de partida é uma ferramenta criada por pesquisadores brasileiros há quase dez anos: o Idea-RS (Identifying Depression Early in Adolescence Risk Score), um escore de risco desenvolvido a partir da análise de adolescentes da coorte de Pelotas (RS), um dos maiores estudos longitudinais de saúde do mundo.

Os pesquisadores utilizaram 11 variáveis sociodemográficas e psicossociais coletadas aos 15 anos para prever quais jovens desenvolveriam depressão até os 18. Entre os fatores analisados estão relações familiares, experiências de violência, aspectos emocionais e condições sociais.

“Na época, a nossa pergunta era simples: seria possível identificar precocemente quem tem maior risco de desenvolver depressão?”, afirma Kieling.

Depois disso, a ferramenta passou por testes em populações do Reino Unido, Nova Zelândia, Nigéria, Nepal, Estados Unidos e em outros grupos brasileiros.

O modelo apresentou capacidade discriminativa de 0,78 numa escala de 0 a 1—índice considerado elevado para esse tipo de ferramenta. Kieling compara o desempenho ao do escore de Framingham, usado para prever risco cardiovascular.

Ao longo do processo, os pesquisadores perceberam que prever o risco de depressão levantava questões éticas importantes. “Você não pode simplesmente dizer para um adolescente que ele tem alto risco de desenvolver depressão e não oferecer nenhum tipo de suporte”, afirma.

A pesquisa será organizada em quatro frentes. A primeira pretende adaptar o escore de risco para diferentes contextos culturais. A segunda busca ampliar as variáveis analisadas, incorporando fatores que não existiam quando o estudo original começou, como redes sociais, cyberbullying e uso problemático de tecnologia.

Os pesquisadores também vão analisar padrões de sono, marcadores inflamatórios, hormônios e características da fala dos adolescentes. Outra frente pretende investigar fatores de proteção, como relações familiares, amizades, apoio comunitário e habilidades emocionais.

Mas é a quarta etapa do projeto que concentra as maiores expectativas: desenvolver uma intervenção preventiva de baixa intensidade voltada especificamente para adolescentes com maior risco de depressão.

Diferentemente dos modelos tradicionais, a proposta não será criada apenas por especialistas. Os próprios jovens participarão da construção da intervenção.

Adolescentes com experiência em sofrimento psíquico atuarão como consultores permanentes do projeto e alguns serão treinados como pesquisadores-pares, participando inclusive da revisão de literatura científica e da interpretação dos dados.

“Existe um conhecimento que vem da experiência vivida e que complementa o conhecimento técnico”, afirma Kieling.

O grupo pretende realizar oficinas e grupos focais para entender como os adolescentes gostariam de receber apoio e quais estratégias fazem sentido na prática. Os pesquisadores também querem descobrir em que ambiente a intervenção teria maior chance de funcionar: escolas, unidades básicas de saúde, plataformas digitais ou modelos híbridos.

Parte desse trabalho será feita simultaneamente no Brasil e no Paquistão, dois países escolhidos por apresentarem realidades culturais e sociais bastante distintas.

Os dados preliminares do grupo sugerem que um dos pontos centrais da prevenção pode estar ligado à conexão social. Solidão, retraimento e isolamento aparecem de forma consistente entre os fatores associados ao risco de depressão.

“O adolescente começa a não aceitar convites, se afasta dos amigos, vai perdendo vínculos, e isso acaba alimentando os próprios sintomas depressivos”, afirma o psiquiatra.

Ao mesmo tempo, os pesquisadores dizem que a tecnologia não será tratada apenas como ameaça. Embora o uso problemático das redes sociais esteja associado à piora da saúde mental, o ambiente digital também pode funcionar como espaço de pertencimento e apoio.

“Um adolescente LGBTQIA+ que vive numa cidade pequena pode encontrar na internet conexões que não consegue estabelecer presencialmente”, diz Kieling.

A expectativa do grupo é que o projeto ajude também a reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde mental, atuando antes que os quadros se agravem.

Participam do projeto o King’s College London, a Brown University, a George Washington University, o Global Institute of Human Development e a Global Mental Health Peer Network.

Para Kieling, o financiamento do Wellcome Trust representa também um reconhecimento da ciência produzida no Brasil. “Isso mostra que é possível produzir ciência de qualidade no país e conectada aos problemas reais da nossa população”, afirma.

Autor: Folha

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