Não é preciso andar muito por Curitiba para perceber que a cidade conta com uma parcela significativa de moradores vindos de outros estados e de países vizinhos. Entre o nosso característico sotaque com o “E” bem pronunciado, temos ouvido com muito mais frequência o espanhol, em meio ao idioma asiático e à língua árabe já comuns por aqui, além das variações regionais brasileiras.
Especialmente para aqueles que deixam seu país de origem, Curitiba tem se tornado um destino viável pela qualidade de vida, estrutura física e rede de acolhimento. O esforço conjunto entre terceiro setor, administração pública e empresariado local permite que o recomeço buscado por eles aconteça com dignidade.
Nesse movimento, instituições como a ONG ABC Vida são a porta de entrada para que muitos estrangeiros se instalem por aqui. Jaqueline Morking Komono, assistente social na ONG há 14 anos, conta que desde 2015 vem acompanhando de perto a chegada de migrantes e refugiados. “Ao longo desse período atendi pessoas vindas do Haiti e, posteriormente, da Venezuela, Marrocos, Afeganistão e, mais recentemente, de Cuba. São grupos que trazem consigo histórias marcadas por deslocamentos, desafios e recomeços”, diz.
E Jaqueline enfatiza que esse acolhimento vai muito além da entrega de donativos: “O primeiro contato com essas famílias ocorre por meio de uma acolhida qualificada e escuta ativa, etapas fundamentais para a identificação das principais demandas. A partir disso elaboramos um plano individual de atendimento, com encaminhamentos tanto para os nossos programas quanto para a rede socioassistencial do município”.
O impacto desse trabalho se reflete nas cerca de 30 famílias atendidas mensalmente de forma direta e indireta, tendo apoio desde a educação até os trâmites junto à Polícia Federal, passando pelo direcionamento profissional com programas de aprendizagem, qualificação e emprego, até o cuidado com os idosos.
Já do lado da administração pública, o trabalho feito por meio da Secretaria Municipal de Direitos Humanos (SMDH), como um órgão de articulação, tem sido essencial, ao costurar políticas públicas que envolvam os diversos setores, diante dos números que são apresentados pelas secretarias.
De acordo com a Secretaria Municipal da Saúde (SMS), são cerca de 52 mil cadastros de migrantes no sistema de atenção primária. Já a Secretaria Municipal de Educação (SME) tem registrado 5 mil matrículas de estudantes migrantes.
Para garantir direitos importantes a essa parcela da população, estratégias como mutirões de emprego exclusivos com mediação cultural, o fortalecimento da Comissão de Política Migratória, a adesão à Rede Nacional de Cidades Acolhedoras têm sido colocadas em prática.
No campo do emprego, o suporte pode chegar a detalhes cruciais para quem recém se instala em um novo país: se o candidato precisa de roupas adequadas para uma entrevista ou acesso livre ao transporte coletivo, a rede pública auxilia. O resultado se vê no número de admissões formais de migrantes estrangeiros agora em 2026: 6.178.
O trabalho como um importante pilar para o recomeço
Guillermo Díaz, de 26 anos, veio sozinho da Venezuela para o Brasil, em busca de melhores oportunidades. Morando aqui há um ano, ele já trabalhou em um shopping e hoje é auxiliar de serviços gerais em uma igreja evangélica. “Curitiba é uma ótima cidade e muitos venezuelanos que já moram aqui contam para os outros sobre os benefícios de vir para cá”, conta ele, que foi recebido por um amigo da família ao chegar na capital paranaense. Segundo Díaz, encontrar moradia e trabalho foi tranquilo, e agora melhor instalado, há 20 dias conseguiu que a mãe também viesse para o Brasil.
Como ele, Javier Rodríguez Medina, de 22 anos, também buscou o Brasil em busca de estabilidade e desenvolvimento. Cubano, ele chegou em Curitiba junto da mulher e dos sogros, há dez meses, e diz que no início o mais complexo foi se acostumar à cultura e ao idioma, já que ele não falava português.
Apesar disso, o desejo de recomeçar e dar uma melhor qualidade de vida à família, sobrepôs esse desafio e o motivou a buscar, inclusive, trabalho na sua profissão.
“Tinha aqui a possibilidade de trabalhar em mercados, que é para onde muitos vão. Mas eu sou barbeiro desde os 14 anos, porque lá em Cuba a gente começa muito cedo a trabalhar. Mesmo com minha mulher grávida, escolhi esperar um pouco e encontrar trabalho na minha área”, relata.
O esforço foi válido, e com cerca de um mês ele começou a trabalhar em uma barbearia no bairro Água Verde. “Minha filha já nasceu, minha mulher está se adaptando bem, vamos à igreja; trabalhamos. Curitiba é muito planejada e segura, diferente de Cuba. O SUS também é muito bom e nos impressionou, porque em Cuba temos algo semelhante, mas não se compara. Nós achamos até que era privado e que teríamos que pagar depois”, finaliza ele ao dizer que já se autointitula curitibano.
Duller San, de 27 anos, é o proprietário da barbearia Business Club, local em que Javier trabalha. Vindo do Espírito Santo há oito anos, a convite do pai que já estava em Curitiba, ele fundou o próprio negócio em 2023, e diz que sabe muito bem o que é sair da terra natal em busca de crescimento. E esse é um dos motivos pelos quais hoje ele tem em sua equipe dois barbeiros estrangeiros, cinco que são de outros estados brasileiros e apenas dois curitibanos.
“Nós reunimos profissionais de diferentes partes do mundo, como Cuba e Venezuela, que trazem técnicas refinadas e uma bagagem cultural única para o atendimento. Temos também profissionais do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará e Maranhão, o que nos permite oferecer uma combinação de estilos, precisão e excelência”, avalia.
Para Duller, além da dedicação, disciplina e nível técnico, o migrante costuma valorizar muito as oportunidades e por isso demonstram um comprometimento acima da média. Além disso, ele diz perceber que cada vez mais empresários estão entendendo o valor desses profissionais e abrindo espaço, o que é positivo tanto para o mercado quanto para a sociedade como um todo, na opinião dele.
“Existe uma força diferente em quem decide recomeçar. Hoje, como empresário, faço questão de abrir espaço para quem tem essa mentalidade. No fim, não é sobre de onde a pessoa vem, mas sobre o nível de entrega e o quanto ela está disposta a evoluir”, afirma.
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Autor: Gazeta do Povo








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