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Setor gastronômico curitibano amadurece e cria identidade própria

Já há algum tempo o curitibano cultiva a fama de ser crítico e exigente, tornando a cidade propícia para testes de novos produtos e serviços para o mercado nacional, o que inclui, claro, o setor gastronômico. Hoje a cidade conta com cerca de 13 mil negócios de alimentação fora do lar, sendo aproximadamente oito a dez mil bares e restaurantes, com um crescimento médio em torno de 3% ao ano, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes do Paraná (Abrasel-PR).

“Durante a pandemia houve uma retração importante no setor, mas ao analisarmos os últimos dez a 15 anos, observamos um aumento consistente impulsionado principalmente pela valorização da gastronomia como opção de lazer e experiência”, explica Luciano Bartolomeu, diretor executivo da entidade.

Essa valorização da gastronomia pelo curitibano tem sua raiz na década de 1990, tendo o chef Celso Freire como precursor e, nas palavras dele mesmo, desbravador da alta gastronomia. Fundador do restaurante Boulevard, ele conta que a operação nasceu em uma época em que Curitiba precisava de um espaço que entregasse variedade nos produtos utilizados, que tivesse o cuidado extremo na montagem e apresentação de pratos e cardápio, que soubesse apresentar o vinho corretamente.

E o desenvolvimento do setor ao longo dos anos, segundo Freire, não foi um esforço isolado, mas partiu de um movimento entre clientes e restaurantes com equipes exigentes em sua entrega. “O curitibano amadureceu muito em viagens, na própria gastronomia, e eles foram nos educando e ensinando”, diz ele ao apontar que a capital paranaense tem sim sua identidade, além da fama de exigente, que é ser fruto de vários povos, o que torna a cidade uma referência em qualidade. “Somos a terra do pinhão, apreciamos o produto regional e o pequeno produtor. Isso é muito forte em nós. Como clientes e moradores, temos orgulho de mostrar que nossa gastronomia tem ‘DDD’ e raiz”.

Com mais de um século acompanhando as diferentes gerações de curitibanos, os proprietários do bar Stuart reforçam que o consumidor atual quer “experiência, ambiente, identidade e conexão, com sua história e do lugar em que estão”. Segundo eles, o consumidor curitibano atual valoriza tanto a qualidade do que é servido quanto a narrativa por trás do que consome. “Muitos jovens estão interessados em ‘viver’ espaços tradicionais, com história e autenticidade”, explicam.

O Stuart, que fechou em 2023 e será reaberto em breve, busca justamente isso para essa reinauguração: traduzir a centenária tradição a essa parcela do público curitibano. “Isso passa por ajustes no cardápio, na experiência e na forma de se comunicar, sempre ouvindo o cliente e entendendo seus novos hábitos. Mas sem abrir mão do que é inegociável: ser parte da memória afetiva da cidade, mas com capacidade de ser lugar de encontro para quem sempre esteve ali e uma descoberta para as novas gerações”.

De laboratório de testes a solo fértil para expansão

A tradição e a excelência em gastronomia e no atendimento, aliado ao público criterioso de Curitiba, tornou o solo fértil para que a cidade passasse de “piloto de testes”, para um ambiente onde também nascem e se instalam negócios escaláveis neste setor.

Um exemplo é o Janela Bar, que nasceu na cidade e hoje já conta com mais de 40 franquias no país. “Quando criamos o Janela miramos em ter excelência em todas as pontas: no produto, alinhado a um branding forte e com a parte operacional eficiente. Essa ‘receita’ replicamos para todas as franquias”, exemplifica Gustavo de Paiva, diretor de marketing do Janela Bar.

“Para uma franqueadora é ótimo ter nascido em Curitiba. Temos grandes marcas que começaram do zero e tomaram o Brasil e o mundo, como The Coffee, Mais1 Café, Go Coffee e Market4u. Por aqui, não adianta só ‘abrir uma porta’, a marca tem que ter conceito definido e entregar uma experiência diferenciada”.

Essa inteligência de campo foi inclusive um ponto favorável para que o pub sertanejo Folks, franquia de Londrina, se instalasse na capital paranaense. “Curitiba é hoje uma das cidades mais relevantes do Brasil e tem uma tradição importante no cenário sertanejo, impulsionada por empreendimentos anteriores ao nosso”, diz Pedro Elero, co-fundador e diretor do Folks Pub, Agrobar e Estica, pertencentes ao Fancore Group.

Ele salienta que a cidade é uma praça muito atrativa para o modelo de negócio da marca. “Hoje, ela é uma das principais praças da operação do Folks Pub que tem unidades faturando R$ 1 milhão”.

Polos gastronômicos e valorização dos bairros

A gastronomia curitibana também tem passado há alguns anos por um processo de descentralização. Se antes os bares e restaurantes estavam mais localizados em regiões específicas como o Centro, Batel, Santa Felicidade, hoje existem polos em diversos bairros também.

“Hoje observamos o fortalecimento da gastronomia em diferentes bairros, inclusive em regiões mais residenciais. Esse movimento aproxima o lazer do cotidiano das pessoas, reduz deslocamentos e contribui para uma cidade mais viva e economicamente distribuída”, afirma Luciano Bartolomeu, da Abrasel-PR. Para ele, isso também permite o surgimento de novos conceitos gastronômicos, muitas vezes mais autorais e conectados com a comunidade local.

Esse estímulo à ocupação dos espaços com a formação de polos contribui para o desenvolvimento das regiões. O Janela Bar nasceu, por exemplo, na rua Prudente de Moraes, local que hoje está se transformando em um eixo de desenvolvimento, ligado ao setor gastronômico, repaginado para atrair cada vez mais a população.

“A gente nasceu com o objetivo de dar ainda mais vida ao espaço urbano, explorando não só a parte interna do bar, mas também a rua. Ver que a gastronomia está sendo fator propulsor dessa revitalização, com cada vez mais ruas se tornando polos é muito especial. Acreditamos que esses movimentos fortalecem a cultura local, dando mais acesso e movimentando a cena da cidade”, diz Gustavo de Paiva.

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Autor: Gazeta do Povo

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