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Caps de São Paulo usa cultura africana contra o racismo – 30/06/2026 – Equilíbrio

Aos 7 anos, a estudante Luísa (nome fictício), hoje com 14, começou a ser questionada pelos colegas sobre o tamanho dos seus lábios. O incômodo persiste até hoje, relata à Folha. A jovem chama a atenção pela beleza, mas os episódios de racismo a impedem de se ver dessa forma.

“‘Por que sua boca é deste tamanho?'”, ‘Por que seu cabelo é estranho?’. Comentam muito sobre a minha aparência”, diz a adolescente.

O preconceito racial é rotineiro. “Outro dia, na escola, esbarrei num garoto ao passar pela porta. Ele falou: ‘tinha que ser preto para fazer isso’, como se eu fosse uma coisa e não uma pessoa”, diz Luísa.

O estudante Luiz Leonardo da Silva Pereira, 18, transforma as situações que vivencia no dia a dia em música e poesia. O racismo é um dos temas principais da sua arte.

“Sofro racismo na maioria dos lugares. Na rua, pensam que sou um ladrão e desviam. Já jogaram lixo e pedra em mim, por diversão. Fui chamado de ‘macaco’ algumas vezes. Aos dez anos, estava indo ao Parque Ecológico com a minha mãe e paramos num mercadinho. O dono perguntou aonde íamos. Quando minha mãe respondeu, ele soltou um: ‘tá indo ver os parentes?’ Na hora eu não entendi”, conta Pereira.

“Eu me sinto mal e constrangido, mas não levo com tanta seriedade como antes. Agora, estou mais focado em mim, na minha vida, e o que os outros falam não faz diferença”, completa o estudante.

Ambos participam do Projeto Kilombinho, desenvolvido pelo Caps (Centro de Atenção Psicossocial) Infantojuvenil 2 Ermelino Matarazzo, serviço da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo sob gestão da Superintendência de Atenção à Saúde (Seconci-SP) para abordar os impactos do racismo em crianças e adolescentes. O tema ainda é desafiador no cuidado em saúde mental.

Na iniciativa, funcionários do Caps utilizam de forma lúdica brinquedos, instrumentos musicais, tecidos africanos, literatura, cantigas e danças para ajudar os jovens a compreender sentimentos que muitas vezes não conseguem nomear.

A cada encontro, eles participam de oficinas de letramento racial, contação de histórias e músicas afrocentradas —elementos que ressaltam o protagonismo negro, a beleza e a ancestralidade.

Uma “mala de viagem lúdica” carrega livros, bonecas pretas, tecidos e acessórios da cultura africana. A depender da atividade do dia, jogos de mesa e a culinária podem integrar a ação, sempre com um olhar afrorreferenciado.

As reuniões —conduzidas pela psicóloga Fabiana da Silva Galdino, 47, idealizadora do Kilombinho, e por profissionais de saúde do Caps— duram cerca de uma hora e meia. Não há uma periodicidade exata, uma vez que o grupo leva o Kilombinho às escolas públicas (exceto as municipais de Educação Infantil e creches), UBSs (Unidades Básicas de Saúde), aos CCAs (Centros para Crianças e Adolescentes), espaços comunitários e abrigos da região.

Conversas individuais, familiares e em grupo fazem parte do projeto de forma complementar.

“Falar de racismo dói, é difícil. É complicado se assumir negro na sociedade em que vivemos. O Kilombinho vem para enfrentarmos isso na forma da brincadeira. Agrega autoestima, pertencimento, reconhecimento, identidade e autonomia. Eles falam da própria história e da família, do seu povo, de onde vieram”, diz a psicóloga.

Segundo Fabiana, muitas crianças que chegam ao Caps são de famílias inter-raciais, e se assumem pardas sem saber o que significa o conceito. “Já é o nosso primeiro trabalho, quando a pessoa passa pelo acolhimento na recepção”, diz. De acordo com ela, crianças de pele retinta chegam pensando que são pardas ou brancas, por exemplo, e precisam aprender sobre negritude no projeto.

O projeto nasceu em julho de 2024, em razão do aumento das demandas de atendimento devido a casos de racismo e bullying no Caps, situações que geram confusão nas famílias. Ambos são formas de violência. O racismo, especificamente, se dá quando há discriminação baseada na etnia ou raça.

“As famílias pensam que tudo é bullying. Conforme analisamos cada situação, vemos que são questões de racismo. As crianças chegam aqui com baixa autoestima, não se gostam e nem se aceitam. Sofrem na pele e no corpo”, explica Fabiana.

O racismo afeta a saúde mental, segundo a psicóloga, e no ranking das consequências estão os casos de ansiedade, depressão e automutilação, que aparecem em grande quantidade no Caps Infantojuvenil 2 Ermelino Matarazzo.

Luísa, por exemplo, busca no Kilombinho a aceitação, processo que está em curso, segundo a jovem. “Vim aqui para saber mais sobre minha ascendência, entender que sou negra e bonita, e não importa o que as pessoas falam. Tenho que me aceitar.”

Segundo Fabiana, as crianças e os adolescentes chegam ao projeto sem ideias de respeito e valorização, afeto, ou autonomia. Alguns apresentam crises intensas de nervosismo e se machucam. Há aqueles que se ferem na intenção de trocar a cor da pele, diz.

“Há o caso de uma menina que todos os dias, ao acordar, se assustava com o cabelo black power da mãe. No trabalho com as bonecas, ela queria a branca, com cabelo amarelo e olhos claros. Fizemos uma parda, de olhos escuros, com os cabelos que ela queria, misturando os tons. A criança jogava essa boneca longe.”

“Trabalhamos muito para que ela aceitasse a boneca, os colegas. Em um dos momentos, a mãe arrumou o cabelo da filha com trancinha. Você vê que a criança passa a se aceitar e a se valorizar. E se reconhece em outras pessoas”, comenta a psicóloga.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

Autor: Folha

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