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Cientista USP relata machismo e apoia mulheres – 30/04/2026 – Equilíbrio e Saúde

Ester Sabino, 66, é pesquisadora e professora titular da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo). Na mesma instituição, dirigiu, de 2015 a 2019, o Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. Em 2020, foi uma das responsáveis pelo sequenciamento do genoma do novo coronavírus no Brasil. Apesar de suas credenciais, um colega já perguntou a outra pessoa se, de fato, era ela quem conduzia as pesquisas que dizia liderar.

“Toda vez que conversamos, não importava o que eu tivesse feito, ele achava que eu não era capaz”, diz Ester. Ela deu a declaração ao participar da pesquisa “Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras”, elaborada pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação focada em investigar e fomentar o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais.

Ester faz parte dos 23% de mulheres que se sentem poderosas no trabalho, apesar de alguns homens, como seu colega, não enxerguem seu poder. “[O machismo] É uma barreira invisível, difícil de ser detectada”, afirma a cientista, que acredita na mudança a partir do momento em que mais mulheres estiverem em posições de poder.

Mas a cientista sabe que, assim como não foi fácil para ela chegar onde está, não é para outras mulheres. Em sua trajetória, houve diversos casos de machismo. “É aquela figura clássica do homem e a mulher andando, mas ela cheia de obstáculos no caminho.”

Colegas que não a escutavam e “nãos” engolidos sem entender o motivo são alguns dos exemplos. Um dos mais marcantes talvez tenha sido quando ela teve que deixar um grupo de pesquisa por discordar de outros da equipe —todos homens.

Ester só foi se dar conta do tamanho desses episódios após se tornar, como ela diz, uma “cientista conhecida”, o que ocorreu a partir de março de 2020, quando passou a dar entrevistas sobre o sequenciamento do genoma do Sars-CoV-2 no Brasil.

“Eu, que nem percebia as dificuldades pelas quais passava por ser mulher, comecei a ser chamada para mesas com feministas. E fui percebendo que havia uma névoa na minha frente, me impedindo de ver esse problema”, lembra.

Quando a névoa se dissipou, Ester passou a incentivar outras mulheres a ocuparem lugares de influência. “Você tem que treinar uma nova geração a não achar determinadas situações normais”, diz.

São situações que ela mesma achava normais —e, às vezes, ainda acha. Na pandemia, Ester participou do grupo Mulheres do Brasil, liderado pela empresária Luiza Trajano. Quando ouviu a proposta de abrir um laboratório de sequenciamento em cada capital do país, sua primeira reação foi achar aquilo uma ideia maluca.

“Mas o fato de a Luiza acreditar e dizer ‘vamos fazer’ empodera. Isso muda as coisas. E foi feito”, lembra Ester, que, desde 2021, é homenageada com o prêmio Ester Sabino para Mulheres Cientistas. Instituída pelo Governo de São Paulo, a premiação, anual, valoriza pesquisadoras de destaque no estado.

Embora se sinta empoderada hoje e veja mudanças acontecendo, como mais mulheres trabalhando com ciência, Ester sabe que o machismo ainda está aí. “Precisamos ficar atentas às mulheres ao nosso redor e apoiá-las. Vou a um lugar e peço para falar antes com as gerentes mulheres. Eu vou empoderá-las.”

Autor: Folha

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