The New York Times
Em um trecho de antigas terras agrícolas transformado em um reluzente parque tecnológico, o líder chinês, Xi Jinping, observou duas mãos robóticas passarem lentamente uma linha por uma agulha.
O que ele estava vendo, declarou, ajudaria a China a conquistar seu futuro.
É um futuro em que a IA (inteligência artificial) estará presente nas fábricas, hospitais e salas de aula chineses, revitalizando a economia por meio da robótica avançada e da indústria de alta tecnologia. É também um futuro em que a China, e não os Estados Unidos, dominará o desenvolvimento da IA, transformando a tecnologia no que Xi chamou de “ganso líder” para conduzir o país a sua próxima revolução econômica.

Telão de um Shopping Center exibe o líder da China, Xi Jinping, discursando na cerimônia de abertura da Conferência Mundial de Inteligência Artificial
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Greg Baker – 17.jul.26/AFP
Para concretizar essa visão, o governo chinês está mobilizando todo o peso do Estado.
No parque visitado por Xi, nos arredores de Pequim, em fevereiro, centenas de empresas instalaram escritórios para desenvolver chips de ponta e modelos de IA. O governo municipal oferece a elas dezenas de milhões de dólares em capacidade computacional gratuita. Um pavilhão de exposições apresenta suas criações, incluindo chips projetados para equipar mísseis nucleares e implantes cerebrais que podem ajudar pacientes paralisados a falar.
Durante a visita, Xi afirmou que a força da China está em sua capacidade de se concentrar em uma direção e seguir adiante.
“Devemos aproveitar plenamente a vantagem de nossa nação de concentrar recursos para realizar grandes tarefas”, disse ele a um grupo de empresários, pesquisadores e autoridades.
A campanha chinesa de IA é sustentada por enormes volumes de dinheiro público. Economistas estimam que fundos liderados pelo Estado destinaram mais de US$ 184 bilhões (R$ 956,4 bilhões) a empresas de IA entre 2000 e 2023, e que, no ano passado, o governo e bancos estatais prometeram centenas de bilhões de dólares adicionais. O investimento privado em IA na China é muito menor que nos Estados Unidos, onde fontes privadas destinaram US$ 285 bilhões (R$ 1,47 trilhão) à tecnologia somente em 2025.
A abordagem de Pequim para a IA também se diferencia da predominante nos Estados Unidos em outros aspectos.
Em Washington e no Vale do Silício, muitos veem o desenvolvimento da IA como uma corrida em direção à AGI (Inteligência Artificial Geral), uma forma ainda teórica de IA capaz de pensar e aprender tanto quanto —ou melhor que— os seres humanos.
Autoridades chinesas quase não mencionam a AGI e concentram-se em objetivos mais imediatos.
A população da China está encolhendo e envelhecendo rapidamente, criando uma necessidade urgente de robôs inteligentes para substituir trabalhadores que se aposentam. Moradores pobres de áreas rurais poderiam buscar atendimento médico com avatares digitais de médicos renomados das grandes cidades.
O governo afirmou que ferramentas e agentes alimentados por IA deverão estar presentes em 90% da sociedade chinesa até 2030, embora não tenha explicado como essa proporção será medida.
Xi também apoiou o uso de modelos de código aberto por empresas chinesas, o que ajudou essas companhias a conquistar usuários em todo o mundo enquanto as principais empresas americanas lançaram sistemas fechados.
A China adotou a IA apesar dos riscos potenciais que a tecnologia representa para a legitimidade do Partido Comunista e para seu rígido controle sobre a sociedade.
Chatbots podem ameaçar o controle do partido sobre a informação, enquanto modelos estrangeiros avançados, como o Claude Mythos, podem facilitar que adversários da China lancem ataques cibernéticos complexos contra sua infraestrutura crítica —uma ameaça reconhecida recentemente pelo principal chefe de espionagem do país.
Xi aposta que a China conseguirá controlar esses riscos.
Reguladores impuseram regras rígidas sobre o que os chatbots podem dizer e proibiram bots de companhia de IA destinados a crianças. Tribunais chineses alertaram empresas para que não substituam trabalhadores cegamente por tecnologia. Autoridades também impediram alguns dos principais empresários do setor de IA de deixar a China.
Mas a confiança de Pequim em seus mecanismos de controle, assim como sua determinação de alcançar os Estados Unidos, também faz com que o país desconfie dos apelos internacionais para desacelerar o desenvolvimento da IA.
No Grande Salão do Povo, em Pequim, os principais cientistas da China se reuniram para ouvir um discurso de Xi. Era junho de 2014, a primeira vez que ele se dirigia às Academias Chinesas de Engenharia e de Ciências como líder do país.
Os participantes haviam enviado relatórios previamente, e Xi afirmou que os havia lido atentamente. Disse ter ficado especialmente interessado em um relatório que previa que robôs movidos por IA em breve transformariam a economia global. Essas máquinas, ao contrário dos robôs tradicionais, que repetem tarefas específicas previamente programadas, podem usar IA para aprender e se adaptar ao ambiente. A China seria o maior mercado, dizia o relatório.
Isso não era suficiente, afirmou Xi. A China deveria ser não apenas a maior compradora, mas também a principal fabricante.
“Ao ler isso, pensei”, acrescentou, “nossa tecnologia e nossas capacidades de fabricação conseguem acompanhar a concorrência?”
O discurso desencadeou uma corrida que ainda hoje molda a política chinesa para a IA.
Desde o início, Pequim enxergou a IA como uma força, assim como a internet, capaz de fortalecer o poder do partido. A tecnologia poderia ajudar a manter a satisfação da população ao impulsionar o crescimento econômico. Também poderia evitar possíveis manifestações de descontentamento ao ajudar o partido a monitorar a população chinesa.
Fabricantes levaram a IA para fábricas e armazéns. Empresas de vigilância se tornaram líderes globais em reconhecimento facial e de voz. Em 2018, a SenseTime, empresa sediada em Pequim que ajudou o governo a vigiar a minoria uigur da China, chegou a ser a startup de IA mais valiosa do mundo.
Mas os pesquisadores chineses, em geral, não estavam concentrados em grandes modelos de linguagem, como seus colegas americanos. Quando o ChatGPT surgiu, em 2022, a China foi pega de surpresa.
Então, no ano passado, veio a DeepSeek. A startup chinesa até então desconhecida surpreendeu o mundo ao mostrar que empresas do país também poderiam competir com o Vale do Silício em grandes modelos de linguagem. Em fevereiro de 2025, poucas semanas depois do lançamento do modelo da DeepSeek, Xi convocou um grupo de executivos chineses de tecnologia —incluindo o fundador da DeepSeek— para uma reunião.
“É o momento certo para que empresas privadas e empresários demonstrem plenamente suas capacidades”, afirmou. Os presentes deveriam “unificar seu pensamento” e “servir ao país”.
Em muitos aspectos, a estratégia da China para a IA reproduz aquela usada para dominar os mercados de veículos elétricos e painéis solares: subsídios, incentivos fiscais e recursos para pesquisa.
Mas pode ser mais difícil para Pequim conquistar liderança em IA do que em veículos elétricos ou painéis solares.
Nesses setores, a tecnologia já estava relativamente desenvolvida, e o papel do Estado era oferecer apoio financeiro para que as empresas superassem concorrentes estrangeiros, afirmou Cole McFaul, pesquisador do Centro de Segurança e Tecnologias Emergentes da Universidade Georgetown.
Na IA, a liderança dependerá de avanços tecnológicos. Subsídios podem fazer apenas parte do trabalho.
Um dos obstáculos é a escassez de profissionais especializados. Outro é a falta de acesso aos chips mais poderosos. O próprio fundador da DeepSeek, Liang Wenfeng, afirmou que a empresa precisa de chips de ponta, não de mais dinheiro.
O governo tenta preencher essas lacunas. Investiu mais de US$ 150 bilhões (R$ 778 bilhões) em um esforço de uma década para desenvolver chips nacionais de ponta, embora isso ainda não tenha produzido grandes resultados. Também trabalha para formar mais profissionais na área científica.
Por enquanto, a estratégia parece estar funcionando. No fim de 2025, a China tinha mais de 6.000 empresas de IA, e sua indústria central de IA valia US$ 171 bilhões (R$ 887 bilhões), segundo estatísticas oficiais. Os modelos chineses agora aparecem de forma consistente em maior número que os americanos em uma lista dos sistemas de IA mais populares do mundo, segundo a OpenRouter, plataforma amplamente acompanhada de classificação de modelos de IA. Até empresas de tecnologia ocidentais, como a Airbnb, passaram a adotá-los.
Os robôs —setor que Xi destacou pela primeira vez em seu discurso de 2014— tiveram sucesso particularmente expressivo. A China tem mais de 2 milhões de robôs em suas fábricas, mais do que o restante do mundo somado. Alguns pesquisadores chineses argumentam que os robôs podem ser mais promissores para alcançar uma inteligência de uso geral do que os grandes modelos de linguagem — o método escolhido pelo Vale do Silício — porque podem aprender por meio da interação com o mundo físico.
Esses avanços rápidos alimentaram a preocupação em Washington, onde o temor de ser ultrapassado pela China se tornou o principal argumento contra a contenção do desenvolvimento da IA. Um grupo consultivo do Congresso americano alertou que a rápida adoção de IA pela China em robôs e outras aplicações práticas geraria grandes volumes de novos dados, que poderiam então ser usados para aprimorar ainda mais seus modelos. Em julho, o governo dos Estados Unidos propôs restringir as importações de robôs humanoides, medida que Pequim classificou como discriminatória.
Autor: Folha








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