O “Dia D econômico” anunciado pelos EUA nesta semana tem o potencial de atingir empresas e instituições de países que mantêm relações econômicas com o Irã. Apesar de o Brasil não ter sido apontado como um dos alvos das ameaças de sanções secundárias, o comércio com o país persa pode deixar empresas brasileiras expostas aos efeitos das novas medidas.
O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, deixou claro que um dos focos das novas ações seria pressionar países e entidades que mantêm relações econômicas com o regime de Teerã. Até o momento, o chefe da pasta econômica da Casa Branca manteve o tom de ameaça contra esses possíveis alvos, sem detalhar quais medidas seriam adotadas no curto prazo. Bessent informou que os Departamentos de Estado e de Defesa estão se reunindo com representantes dos países que podem ser afetados para transmitir que os EUA esperam “ações concretas” nesse sentido.
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Bessent chegou a ser questionado se os bancos chineses seriam alvos dessa punição financeira, mas evitou dar uma resposta objetiva, argumentando que a melhor abordagem seria por meio de uma “diplomacia discreta”. Cinco setores críticos são visados na guerra econômica: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.
Entre as punições possíveis estão a restrição ou proibição de acesso ao sistema financeiro americano, que impediria os sancionados de operarem com o dólar no mercado, e a proibição de manter negócios nos EUA ou com empresas americanas. Apesar de o Brasil não ter sido apontado como um dos alvos centrais da nova ofensiva do governo de Donald Trump, empresas brasileiras que mantêm negócios com o Irã podem ficar expostas aos efeitos das medidas.
“Esse é justamente um dos efeitos mais poderosos das sanções secundárias. Elas transformam negócios comercialmente possíveis em operações financeiramente difíceis”, afirma o professor de Negócios Internacionais e Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) João Alfredo Lopes Nyegray.
Comércio agrícola com o Irã pode ser afetado indiretamente
Apesar de os produtos agrícolas brasileiros não estarem entre os setores diretamente visados pelas novas medidas, as exportações para o Irã podem ser afetadas por dificuldades nos pagamentos, no transporte e no seguro das cargas. O transporte marítimo, um dos setores citados pelos EUA, é uma das etapas envolvidas nesse comércio.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) mostram que o Brasil ampliou o comércio com Teerã no primeiro semestre deste ano. Neste ano, até julho, as exportações para o Irã somaram US$ 1,6 bilhão, 26% a mais que o mesmo período do ano passado.
Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, projeta que a guerra econômica anunciada pelos EUA atinge o Brasil indiretamente ao elevar o risco regulatório para empresas que negociam com o Irã.
“Como o Irã é um comprador relevante de commodities agrícolas brasileiras — como milho, carne bovina e soja —, a aplicação rigorosa de sanções secundárias dificulta a liquidação de pagamentos e o uso de canais bancários tradicionais, levando instituições financeiras e exportadores nacionais ao ‘autossancionamento’ por receio de perderem acesso ao mercado e ao sistema financeiro em dólares”, afirma à Gazeta do Povo.
Sobre o agronegócio brasileiro, Nyegray cita especialmente a relevância do mercado do milho brasileiro. “Em 2025, o Irã foi o maior comprador de milho brasileiro, adquirindo aproximadamente 9,1 milhões de toneladas, equivalentes a 22,2% de tudo o que o Brasil exportou do produto naquele ano. Isso significa que uma interrupção abrupta do comércio entre Brasil e Irã teria impactos que não se limitariam à diplomacia. Poderia afetar preços, tradings, produtores, portos e regiões fortemente ligadas à exportação do cereal”.
O analista destaca uma separação importante em relação ao comércio internacional. “O Dia D Econômico não significa que exportadores brasileiros estejam automaticamente proibidos de vender para o Irã. Além disso, alimentos e produtos agrícolas frequentemente recebem tratamento particular dentro dos regimes de sanções. O problema maior pode aparecer na operação financeira e logística do comércio”.
Nyegray cita como exemplo uma empresa autorizada a vender milho ao Irã, mas que não encontra nenhum grande banco disposto a processar o pagamento. Nesse caso, uma operação comercialmente permitida poderia se tornar inviável.
Para Daniele Siqueira, analista de mercado da assessoria AgRural, focada em comercialização de soja, milho e algodão, a ameaça de sanções dos EUA é mais um capítulo da guerra que está em curso no Oriente Médio.
O impacto potencial sobre o agro brasileiro poderia ocorrer caso as medidas estrangulem ainda mais a economia do Irã e dificultem os sistemas de pagamento utilizados pelo país, mas ainda não é possível mensurar esses efeitos de forma concreta, frisa a especialista.
“Com a economia mais fraca e dificuldade para operacionalizar pagamentos, o Irã pode comprar menos produtos agrícolas”, destaca. “Precisamos ficar atentos ao fluxo dos nossos produtos agrícolas para o Irã, especialmente o milho que, até o momento, temos redução dos embarques [para o país persa]”.
Siqueira destaca que, como as exportações de milho do Brasil só engrenam no segundo semestre, será necessário acompanhar como esses embarques vão se comportar nos próximos meses. “No momento, estamos exportando, há navios nomeados para o Irã, mas em menor número que no ano passado”.
Em contrapartida, as exportações de farelo de soja (cujos embarques são mais concentrados no primeiro semestre) com destino ao Irã cresceram 13% em relação ao mesmo período do ano passado. Nos seis primeiros meses do ano, o Brasil exportou 12,7 milhões de toneladas de farelo de soja, das quais 9% tiveram o Irã como destino.
Pressão sobre o Brasil pode criar dilema diplomático
A ofensiva econômica do governo de Donald Trump contra o Irã coloca o Brasil em um dilema diplomático cada vez mais complexo dentro dos Brics, bloco do qual o Irã passou a fazer parte em 2024 e que tem sido visto pelos EUA como um grupo anti-americano.
Do ponto de vista diplomático, Brasília pode sustentar a posição de rejeitar sanções unilaterais que não tenham respaldo do Conselho de Segurança das Nações Unidas, como tem feito historicamente.
Do ponto de vista empresarial, porém, a realidade é mais pragmática. “Uma empresa brasileira pode concordar com o governo brasileiro e ainda assim cumprir as exigências americanas porque deseja manter contas em dólares, negociar com bancos americanos ou operar nos EUA”, diz Nyegray.
Para o professor, se a administração Trump começar a pressionar diretamente países para reduzir relações econômicas com o Irã, o Brasil poderá ser colocado diante de uma escolha desconfortável entre resistir publicamente a qualquer tentativa americana de pressionar sua política comercial e lidar com empresas privadas que podem optar por reduzir voluntariamente sua exposição ao mercado iraniano.
Nesse caso, o país poderia viver uma situação curiosa em que o governo brasileiro mantém politicamente sua relação com Teerã enquanto bancos, tradings, seguradoras e transportadores brasileiros progressivamente se afastam das operações iranianas.
Coimbra avalia que, nesse contexto, resta ao governo Lula exercer um equilibrismo pragmático para preservar sua postura histórica de neutralidade e não intervenção sem comprometer as relações comerciais com Washington ou expor empresas do país a punições das autoridades regulatórias americanas.
O Itamaraty foi acionado para informar se há alguma medida preventiva em avaliação por parte do governo brasileiro. Até o momento da publicação, não houve retorno e o espaço permanece aberto para futuros posicionamentos.
Autor: Gazeta do Povo








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