O que começou como uma série de protestos de estudantes contra a falta de professores e as condições precárias das escolas francesas se transformou, em menos de um mês, numa onda de violência que atingiu algumas das principais cidades da França.
As manifestações estudantis, iniciadas em setembro na região de Paris, passaram a registrar neste mês incêndios em escolas, ataques a policiais, depredações e saques contra estabelecimentos comerciais. Só neste final de semana, os distúrbios deixaram cerca de 2,4 mil detidos e levaram o governo do presidente Emmanuel Macron a impor algumas restrições à circulação de pessoas em determinadas regiões.
O sábado (17) registrou os momentos mais tensos dos protestos. Manifestantes invadiram prédios públicos, incendiaram veículos e saquearam lojas nas cidades de Paris, Marselha, Lyon. Diversos outros municípios também foram afetados pela onda de violência. Na cidade de Limoges, no sudoeste da França, um incêndio provocado durante os protestos destruiu parte da prefeitura, um edifício histórico do século XIX. O governo francês responsabilizou grupos da esquerda radical e criminosos que aproveitaram as manifestações para cometer os ataques.
Em Paris, o comerciante Hassan Robiul, proprietário de uma loja de celulares na movimentada avenida Boulevard Magenta, contou ao jornal Le Monde que teve mais de 200 mil euros em mercadorias roubadas durante os atos violentos deste final de semana. Ele comprou o estabelecimento há quatro meses. “Minha vida acabou”, disse Robiul ao jornal francês, enquanto observava sua loja destruída.
A poucos metros da loja de Robiul, Jahirul Azam, dono de outra loja de celulares, relatou ao jornal francês ter sido atacado por aproximadamente 20 homens encapuzados em sua loja. Segundo ele, os criminosos arrancaram as câmeras de segurança do estabelecimento e levaram vários aparelhos, computadores e dinheiro. O prejuízo calculado por Azam devido ao saque chegou a 140 mil euros.
Protestos estudantis começaram em setembro, em apoio a professores
A origem dessa onda de protestos remonta ao dia 17 de setembro, quando professores do colégio Saint-Exupéry, em Créteil, nos arredores de Paris, iniciaram uma greve contra a falta de funcionários e de recursos para a escola. No dia seguinte, os estudantes também se mobilizaram e começaram a bloquear o acesso ao colégio, exigindo a contratação de mais profissionais. Os atos ganharam força a partir do dia 21 daquele mês, quando vídeos dos bloqueios passaram a circular nas redes sociais, especialmente TikTok, Instagram e Snapchat, incentivando manifestações em outras escolas francesas.
Naquela ocasião, as reivindicações incluíam problemas estruturais que escolas francesas enfrentam, como salas superlotadas, prédios deteriorados, ausência de professores substitutos e críticas à Parcoursup, plataforma utilizada para o ingresso de estudantes nas universidades, acusada pelos alunos de adotar critérios de seleção “pouco transparentes”.
O sindicato estudantil Union Syndicale Lycéenne (USL) então passou a convocar mais bloqueios em outras escolas. No dia 29 de setembro, cerca de 400 escolas francesas já haviam sido afetadas por manifestações ou interrupções nas aulas.
A situação se agravou nos dias seguintes, ficando cada vez mais violenta. No dia 1º deste mês, o movimento já atingia mais de mil escolas. Em diferentes cidades francesas, jovens passaram a montar barricadas com lixeiras, incendiar objetos nas ruas e lançar fogos de artifício e pedras contra policiais. Na cidade de Marselha, centenas de jovens obrigaram bombeiros a abandonar um caminhão e depois incendiaram o veículo. Em Nantes, no oeste da França, um incêndio criminoso atingiu o colégio Nelson-Mandela no dia 1º, durante uma tentativa de bloqueio da escola por estudantes. As chamas destruíram o saguão de entrada da escola, atingiram a fachada e danificaram salas de aula. O prédio, que atende cerca de 1,7 mil alunos, precisou ser evacuado e teve as aulas presenciais suspensas. O prejuízo foi estimado inicialmente em pelo menos 2 milhões de euros.
Na cidade de Le Havre, também no dia 1º, manifestantes incendiaram lixeiras e ergueram barricadas em diversas escolas. O liceu Françoise-de-Grâce esteve entre os estabelecimentos danificados pelo fogo.
Na cidade de Clermont-Ferrand, o diretor de uma escola foi ferido na cabeça por um disparo de fogos de artifício. Segundo as autoridades locais, o ataque partiu de um grupo de pessoas encapuzadas que não pertenciam à escola.
No dia 7 de outubro, o ministro da Educação da França, Édouard Geffray, informou que 24 escolas já tinham sido incendiadas ou depredadas com tamanha gravidade que não poderiam reabrir por várias semanas. Aproximadamente 30 mil alunos estavam sem aulas presenciais, enquanto o custo inicial dos estragos já era estimado em dezenas de milhões de euros.
Até o último dia 8, 6,8 mil pessoas tinham sido detidas durante os protestos violentos. Desse total, 86% eram menores de idade. O Ministério da Justiça da França informou ainda que mais de 2,3 mil pessoas se tornaram alvo de processos judiciais por causa da violência.
Governo Macron acusa esquerda radical da França de incentivar os protestos
Após uma reunião de emergência realizada pelo governo no dia 1º, uma fonte próxima ao primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, informou à agência Reuters que os serviços de inteligência do país atribuíam a origem da mobilização a uma operação organizada pelo partido França Insubmissa (LFI), da esquerda radical, e outros grupos aliados à legenda. A avaliação do governo se apoiava, entre outros documentos, em um relatório da inteligência policial de Paris, datado de 28 de setembro e obtido pelo jornal francês Le Monde. Os agentes apontaram a atuação de militantes ligados à extrema esquerda na organização dos bloqueios escolares e citaram a presença de políticos do LFI nas manifestações.
O partido, que é liderado por Jean-Luc Mélenchon, rejeitou a acusação. O deputado Louis Boyard, da LFI, afirmou que a legenda sempre havia defendido manifestações sem violência e acusou o governo Macron de aumentar as tensões com o que chamou de “repressão policial”.
No começo deste mês, integrantes da La Cocarde Étudiante, organização universitária nacionalista de direita, desmontaram barricadas erguidas com lixeiras e materiais de construção na entrada de uma unidade da Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, na capital francesa. Nos dias seguintes, o grupo também realizou outra ação semelhante em uma universidade no bairro de Malesherbes, também em Paris. Em Limoges, membros da conservadora União Nacional Interuniversitária (UNI) tentaram retirar barreiras que impediam o acesso às aulas.
Ao jornal Le Journal du Dimanche, em reportagem publicada no dia 8, Clément, presidente da La Cocarde Étudiante, criticou os bloqueios por impedirem estudantes de frequentar as universidades. Rubens Strachan, dirigente nacional da UNI, também defendeu, em entrevista à Franceinfo, o direito dos demais alunos que não concordavam com os bloqueios de continuar estudando e afirmou que impedir as aulas não ajudaria a resolver as reivindicações dos manifestantes.
Como os protestos chegaram aos saques e à violência intensa
Os protestos começaram a ficar ainda mais violentos e contar com saques a partir deste final de semana, quando os protestos estudantis se juntaram a uma onda mais ampla de manifestações contra o aumento do custo de vida na França e a deterioração dos serviços públicos. Sindicatos, organizações de esquerda e integrantes dos chamados “coletes amarelos”, movimento que ganhou força na França em 2018, também aderiram aos atos.
Segundo o Ministério do Interior, aproximadamente 550 mil pessoas participaram de 110 mobilizações pelo país. Os organizadores calcularam a presença de 800 mil manifestantes. Parte dos atos terminou em confrontos com a polícia e ataques a estabelecimentos comerciais.
Em Paris, a Praça da República foi um dos principais pontos de violência. Grupos encapuzados lançaram pedras, fogos de artifício e coquetéis molotov contra policiais, que reagiram com gás lacrimogêneo e jatos de água.

Enquanto a polícia tentava conter os confrontos, lojas eram arrombadas e saqueadas em diferentes pontos da capital. Os criminosos levaram produtos de supermercados, farmácias, lojas de eletrônicos e até de estabelecimentos de luxo. Houve comerciantes que tentaram impedir a invasão dos próprios negócios. A violência chegou a cerca de 300 metros do Palácio do Eliseu, onde fica a sede da Presidência francesa.
Fora de Paris, Bordeaux também registrou ataques violentos. A residência oficial da representante do governo francês na região foi atacada e danificada durante os protestos. A polícia precisou enviar uma unidade especializada para controlar a situação.
O governo francês destacou cerca de 60 mil policiais e outros agentes de segurança para acompanhar os protestos. Mesmo assim, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, admitiu que as forças de segurança perderam o controle em algumas cidades.
O balanço deste fim de semana chegou a aproximadamente 2,4 mil pessoas detidas e quase mil agentes de segurança feridos. Nesta segunda-feira (19), o ministro do Comércio da França, Serge Papin informou que pelo menos 3 mil estabelecimentos comerciais haviam sido atingidos pela violência do final de semana.
A Federação de Comércio e Distribuição, entidade que representa as principais redes de supermercados e grandes lojas da França, disse que o prejuízo aos lojistas pode chegar a “centenas de milhões de euros”. A rede Carrefour registrou danos em 50 de suas unidades, incluindo 19 mercados saqueados, e estimou prejuízos superiores a 10 milhões de euros.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu acusou novamente grupos da extrema esquerda de tentar provocar uma crise no país às vésperas da eleição presidencial de 2027. Mélenchon contestou as acusações e cobrou provas do governo Macron.
Na direita, Jordan Bardella, presidente do partido da direita nacionalista Reunião Nacional, de Marine Le Pen, candidata à Presidência que lidera as pesquisas eleitorais, responsabilizou Macron pela incapacidade das autoridades de proteger a população francesa da violência dos atos.
“O governo falhou, o chefe de Estado falhou em seu dever essencial de proteger os franceses”, afirmou Bardella à imprensa nesta segunda-feira.
Le Pen também criticou a participação da esquerda radical nos protestos. Em publicação no X, no sábado, a líder conservadora afirmou que “as reivindicações sociais legítimas foram mais uma vez tomadas como reféns pela extrema esquerda e pelos discursos dos deputados de Jean-Luc Mélenchon”, que, segundo ela, “buscam lançar o país no caos” ao justificar a violência e tratar a desordem como um direito.
Os protestos atingiram a cúpula do governo Macron. Após os atos de violência deste fim de semana, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, chegou a apresentar seu pedido de demissão do cargo, mas Macron recusou a renúncia. O presidente determinou que fosse feita uma revisão das falhas de planejamento e inteligência que impediram as autoridades de antecipar a dimensão dos distúrbios.
Nesta segunda-feira, o governo anunciou medidas para tentar impedir novos episódios de violência. A polícia estabeleceu um toque de recolher noturno na Praça da República e na região comercial de Les Halles, em Paris. Outras cidades francesas também adotaram restrições à circulação de menores de idade.
As medidas foram anunciadas quando comerciantes ainda contabilizavam os prejuízos e equipes de limpeza retiravam das ruas os destroços deixados pelos ataques.

Como a imigração entrou no debate sobre os protestos
A participação de jovens de bairros com grande presença de imigrantes nos atos levou a questão migratória para o centro das discussões sobre a violência nos atos vistos na França. Parte das primeiras manifestações estudantis ocorreram justamente em cidades da periferia de Paris, como Saint-Denis, Aubervilliers e Pantin, no departamento de Seine-Saint-Denis, uma das regiões francesas com maior concentração de moradores de origem estrangeira.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística da França (Insee), aproximadamente 32% dos habitantes de Seine-Saint-Denis eram imigrantes em 2020 e 2021. Outros 31,6% haviam nascido na França, mas tinham pelo menos um dos pais imigrante. Juntos, esses dois grupos representavam quase dois terços da população local. Foi nessa região que ocorreram alguns dos primeiros confrontos entre estudantes e policiais, antes de os protestos violentos se espalharem pelo país.
A eurodeputada francesa Marion Maréchal, presidente do partido Identidade-Liberdades, relacionou a violência dos protestos à imigração durante uma entrevista à emissora BFMTV, neste domingo (18). Segundo ela, os distúrbios vistos no país resultaram de uma aproximação entre grupos da extrema esquerda, como os black blocs, e jovens das periferias com elevada população de origem imigrante. Maréchal afirmou que o país estava enfrentando uma “convergência de ódios” contra a França, suas instituições e as forças de segurança.
Jordan Bardella também relacionou os saques à imigração. Em entrevista as emissoras CNews e Europe 1 nesta segunda-feira, o líder do Reunião Nacional afirmou que grande parte dos envolvidos na destruição de estabelecimentos comerciais era formada por pessoas de origem imigrante que, segundo ele, não se identificavam com a França. Bardella defendeu a interrupção da imigração e medidas mais duras contra os responsáveis pela violência, incluindo penas de prisão imediatas e a redução da maioridade penal para 16 anos no país.
Éric Zemmour, líder do partido de direita Reconquista, defendeu em entrevista à emissora CNews no domingo, a chamada “remigração”, proposta que prevê a saída de pessoas de origem estrangeira da França, inclusive com a retirada da nacionalidade francesa em determinados casos.
“Não haverá retorno à paz social sem a remigração”, afirmou.
No Reino Unido, Nigel Farage, líder do Reform UK, da direita nacionalista inglesa, alertou no domingo, em publicação no X, que seu país poderia enfrentar episódios semelhantes aos da França caso não endurecesse o controle migratório.
“Se não acordarmos, o massacre na França será o nosso futuro. Precisamos voltar à lei, à ordem e às fronteiras”, escreveu.
Na Alemanha, Alice Weidel, líder do partido da direita nacionalista Alternativa para a Alemanha (AfD), responsabilizou a abertura das fronteiras e a imigração em massa pelos distúrbios no país vizinho. Em declaração repercutida no domingo pelo jornal Rheinische Post, ela afirmou que os confrontos representavam um “ataque à civilização ocidental” promovido por grupos de imigrantes e militantes da extrema esquerda.
Na Itália, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini, líder do partido da direita nacionalista Liga, relacionou a violência na França à aproximação entre extremistas de esquerda e grupos islâmicos radicais.
Nesta segunda-feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também responsabilizou a imigração pelos distúrbios violentos na França e cobrou o fechamento das fronteiras do país.
“Os imigrantes tomaram conta da França. Eles precisam fechar as fronteiras, e rápido!”, escreveu Trump em sua rede Truth Social.
No dia 6, o republicano também associou os protestos no país europeu à imigração em massa e ao avanço do islamismo. “O que está acontecendo na França é nada menos que uma imigração em massa fora de controle. Isso não tem a ver com escolas, mas com o Islã querendo dominar um país que já foi grandioso”, afirmou na ocasião.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












