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Data centers: Investimentos de US$ 10 tri encaram atrasos – 18/10/2026 – IA


San Francisco (EUA), Londres e Nova York

|Financial Times
Começam a surgir problemas no boom de US$ 10 trilhões (R$ 50,73 trilhões) da infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos, gerado por dívidas, atrasos em projetos, reação negativa da população e a incerteza dos investidores sobre uma possível “bolha no setor” provocam uma reavaliação para a expansão dos data centers que sustenta a economia norte-americana.

A corrida por capacidade computacional nos últimos anos criou o que várias pessoas envolvidas descreveram como um mercado de “Velho Oeste”. Segundo elas, o dinheiro inundou empresas recém-criadas, e os processos de diligência prévia para novos projetos foram acelerados, com laboratórios de IA como Anthropic e OpenAI aceitando custos mais altos no curto prazo para avançar o mais rapidamente possível.

Mais de três anos após o início do boom da IA, esses ambiciosos projetos de data centers estão lidando com a realidade. Pelo menos 47 grandes empreendimentos foram adiados, retirados ou bloqueados em 2026, segundo dados compilados pela RegLayer, empresa de inteligência regulatória que classificou o número como uma “estimativa conservadora”, concentrada nos maiores investimentos.

Vista aérea de um centro de dados com várias unidades de resfriamento externas alinhadas ao longo da lateral do prédio. Caminhões estacionados e área cercada com portões metálicos. Vegetação e corpo d'água ao fundo sob céu azul com poucas nuvens.

Construção de data center de US$ 1 bilhão em Orange Township, nos EUA

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Michael M. Santiago/Getty Images via AFP

Analistas da Bernstein estimaram neste mês que apenas cerca de 35% dos projetos de data centers planejados nos EUA eram viáveis. Mais de 1.000 comunidades no país tentaram paralisar os empreendimentos ou impor restrições à infraestrutura de IA neste ano, segundo pesquisa do FT.

Laboratórios de IA e grupos de big tech se comprometeram a gastar trilhões de dólares nos próximos anos em capacidade computacional.

Mas esses enormes retornos só poderão se concretizar se um grupo de fornecedores de data centers do tipo “neocloud”, lançados recentemente, conseguir primeiro financiar uma série de construções sem precedentes.

Juros mais altos e a deterioração do mercado de títulos públicos dos EUA agora ameaçam suas ambições —e, com elas, a expansão da IA—, segundo várias pessoas envolvidas no mercado.

Nesta semana, os investidores começaram a recalcular os riscos do setor: dívidas ligadas a vários grupos de infraestrutura de IA, incluindo a novata provedora de nuvem CoreWeave, sofreram fortes quedas, e as ações de empresas de capital aberto despencaram. As ações da CoreWeave desvalorizaram quase 25% ao longo da semana.

O aumento dos custos de financiamento e da inflação ampliou as dúvidas sobre se as receitas dos principais laboratórios, como Anthropic e OpenAI, serão suficientes para cobrir os custos.

Os planos de uma série de novas incorporadoras e provedoras de nuvem, entre elas a SB Energy, do SoftBank, e a Firmus, apoiada pela Nvidia, de abrir o capital foram adiados ou engavetados. A decisão da OpenAI de postergar sua própria IPO (oferta pública inicial de ações) abalou ainda mais a confiança do mercado.

Os atrasos nas obras também levantam a possibilidade de que os locatários, geralmente empresas de big tech ou laboratórios de IA, acionem cláusulas que lhes permitam desistir caso os projetos não sejam entregues no prazo.

Projetos de grande visibilidade enfrentam cronogramas cada vez mais longos, com contratempos afetando diversas instalações da Oracle construídas para a iniciativa Stargate, da OpenAI.

Ex-mineradoras de criptomoedas, como TeraWulf e Cipher, também renegociaram contratos de locação e ampliaram ligeiramente os prazos de entrega de projetos para a Anthropic nos últimos meses, em parte devido a mudanças de projeto feitas pelo laboratório de IA e por sua parceira Fluidstack.

Os ajustes podem custar caro. Ao alterar, no mês passado, seu contrato de locação com a Fluidstack para uma instalação no Texas (EUA), a Cipher obteve mais tempo para a entrega e concordou em arcar com os primeiros US$ 359 milhões (R$ 1,82 bilhão) em estouros de custos. As mudanças exigiram cerca de US$ 750 milhões (R$ 3,8 bilhões) em capital adicional, financiado em parte nesta semana por meio de US$ 850 milhões (R$ 4,31 bilhões) em títulos conversíveis.

A Anthropic também pode desistir de seu acordo de US$ 45 bilhões (R$ 228,28 bilhões) com a Nscale, caso o grupo criado em 2024 não cumpra os prazos de financiamento ou entrega de um grande projeto na Virgínia Ocidental, nos EUA.

A neocloud apoiada pela Nvidia pretende realizar uma IPO em Nova York com avaliação de US$ 35 bilhões (R$ 175,55 bilhões), mas banqueiros afirmam que isso será difícil no curto prazo, dadas as condições voláteis do mercado. Uma pessoa a par do assunto comentou que a Nscale esperava abrir o capital neste ano. A Nscale não quis comentar.

Até agosto, a Nscale tinha apenas 25 mil chips avançados de IA em operação, ante os quase 500 mil que planeja operar.

Jensen Huang, CEO da Nvidia, mostrou-se mais otimista na quarta-feira (14), em Londres, ao dizer a uma plateia que sua empresa ajudara a desenvolver a Nscale no intervalo de um ano.

“No ano passado, vocês eram zero”, disse ele, apontando para um executivo da Nscale. “Vejam como estão agora: uma orgulhosa startup inglesa, que pode se tornar a empresa britânica mais valiosa criada nos últimos dez anos”, declarou.

A confiança no boom dos data centers tem sido sustentada pelo crescimento da OpenAI, Anthropic, Meta, Google e outros grupos de IA.

Sam Altman, CEO da OpenAI, apostou o futuro de sua empresa nesse otimismo, afirmando que “a capacidade computacional é o destino”.

Em resposta, surgiu uma nova leva de empresas oferecendo-se para obter terrenos, semicondutores, energia e data centers, aproveitando a demanda desenfreada e os mercados generosos de ações e dívida para crescer rapidamente.

Laboratórios de IA como Anthropic e OpenAI concluíram que é preferível correr o risco de perder uma parcela de seus investimentos ao avançar rapidamente —mesmo quando dependem de parceiros inexperientes— a sofrer com uma escassez de capacidade computacional que os impeça de entregar seus modelos, segundo pessoas a par do assunto.

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Eles também estruturaram contratos para se proteger caso os parceiros não consigam cumprir o prometido. Um porta-voz da OpenAI afirmou que a abordagem da empresa equilibra “velocidade, custo e confiabilidade”.

O volume de gastos resultante em infraestrutura de IA não tem precedentes: os desembolsos nos EUA devem ultrapassar US$ 10 trilhões entre 2025 e 2032, segundo estimativas de Stijn van Nieuwerburgh, economista da Columbia Business School, em um estudo para a Brookings Institution.

Isso equivale a cerca de 3,6% do PIB (Produto Interno Bruto) norte-americano por ano, uma proporção muito superior à observada em outros booms ocorridos em infraestrutura, incluindo ferrovias, rodovias e eletrificação.

Nesta semana, porém, os investidores intensificaram o questionamentos sobre as imensas necessidades de capital da expansão da IA nos Estados Unidos.

Oito manifestantes seguram cartazes com mensagens contra a construção de um centro de dados, em calçada próxima a carros estacionados e palmeiras. Dois estão sentados em cadeiras, os demais em pé, alguns usando chapéus e óculos escuros.

Pessoas exibem cartazes em protestos contra instalação de data centers na Califórnia, nos EUA

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Sandy Huffaker – 18.set.26/AFP

A CoreWeave, que há quatro anos era uma pequena mineradora de criptomoedas, esteve entre as primeiras a tirar proveito do boom da IA, mas agora está no centro de uma onda de vendas, enquanto investidores se preocupam com sua capacidade de continuar financiando os bilhões que gastará em equipamentos da Nvidia e na locação de data centers.

Um de seus títulos sem garantia entrou nesta semana em território de alto risco, enquanto os títulos que financiam data centers alugados à CoreWeave também recuaram. Um título de US$ 1,1 bilhão para uma instalação na Virgínia (EUA) perdeu cerca de 5% de seu valor nas três semanas desde a precificação.

A SB Energy, controlada majoritariamente pelo SoftBank, de Masayoshi Son, e apoiada pela OpenAI e pela Nvidia, ainda não concluiu um único data center e precisa de US$ 174 bilhões (R$ 882,7 bilhões) em capital para cumprir contratos que representam US$ 430 bilhões (R$ 2,18 trilhões) em receitas futuras, provenientes em grande parte da OpenAI. O grupo adiou os planos de abrir o capital com avaliação de US$ 50 bilhões.

Arkady Volozh, CEO de outra neocloud apoiada pela Nvidia —a Nebius—, afirmou em uma conferência do Citi em setembro que a implantação dos 5 gigawatts de capacidade planejados exigiria cerca de US$ 250 bilhões em financiamento. “Até agora, talvez tenhamos financiado 20% disso”, afirmou.

Esses desafios financeiros se somam aos obstáculos inevitáveis enfrentados por qualquer grande projeto de infraestrutura, além do crescente descontentamento público com a construção de data centers.

O projeto de infraestrutura Stargate, de US$ 500 bilhões, da OpenAI —que buscava vincular as ambições de Altman no setor às do presidente dos EUA, Donald Trump—, deparou-se com uma longa lista de problemas, entre eles licenças de planejamento frustradas, atrasos em projetos e a saída de altos executivos, como Sachin Katti, responsável pela área de computação do grupo, que deixou a empresa na semana passada.

Obter licenças de construção tornou-se cada vez mais difícil em todo o setor, enquanto órgãos reguladores de serviços públicos vêm recusando conexões à rede elétrica, a menos que os projetos consigam fornecer a própria energia, segundo executivos do setor de data centers.

George Hammond, Ryan McMorrow, Kieran Smith e Eva Xiao

Autor: Folha

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