
A repercussão das declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre a Guerra do Paraguai, criticadas por autoridades do país vizinho e historiadores, e a troca de farpas com o presidente argentino, Javier Milei, voltaram a expor o impacto diplomático provocado por falas presidenciais.
Embora a diplomacia brasileira tenha tradição de privilegiar linguagem cautelosa e negociações conduzidas pelo Itamaraty, Lula protagonizou, desde 2023, uma série de episódios em que declarações públicas abriram crises ou desgastes com governos estrangeiros.
Desde o início do terceiro mandato, falas sobre a guerra entre Israel e Hamas, a invasão da Ucrânia pela Rússia, a Venezuela do então ditador Nicolás Maduro, as negociações entre Mercosul e União Europeia e, recentemente, a Guerra do Paraguai provocaram reações oficiais de governos estrangeiros, críticas públicas de chefes de Estado e, em alguns casos, crises diplomáticas.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que os episódios não podem ser atribuídos apenas ao estilo do petista dado a improvisos. Embora Lula mantenha o hábito histórico de falar de forma espontânea, eles veem um alinhamento entre essas declarações e a orientação adotada pela política externa brasileira desde o retorno do petista ao Planalto.
Segundo a analista política Yolanda Tolentino, especialista em política e gestão estratégica internacional pela Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o improviso seria o veículo pelo qual uma estratégia política mais ampla acaba sendo expressa sem os filtros tradicionais da diplomacia.
“Improviso e intenção não se excluem. Lula pensa falando e frequentemente abandona o texto preparado pelo Itamaraty. Mas, quando se observa o conjunto dos episódios, percebe-se que eles caminham sempre na mesma direção: aproximação com o Sul Global, desconfiança em relação às potências ocidentais e crítica à liderança dos Estados Unidos”, avalia Yolanda.
Na avaliação do cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí (UFPI), a polarização política recente alterou a diplomacia brasileira ao introduzir uma retórica mais incisiva e polêmica, que rompe com a tradição histórica de pragmatismo e neutralidade do país.
Confira abaixo uma lista com declarações de Lula durante o terceiro mandato que causaram críticas e mal-estar com outros países.
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Guerra do Paraguai reabre debate histórico e irrita Assunção
Em visita à empresa Avibras Aeroco, em Jacareí (SP), na sexta-feira (24), Lula afirmou que “o Paraguai decidiu invadir o Brasil”, dando origem à Guerra do Paraguai. O episódio reacendeu uma controvérsia histórica sensível para os dois países.
As declarações foram criticadas por parlamentares paraguaios, historiadores e até por integrantes da esquerda local, que acusaram o presidente brasileiro de apresentar uma interpretação simplificada do conflito.
Entre os críticos está o vice-presidente do Paraguai, Pedro Alliana, que rebateu a fala de Lula e pediu que o “Canhão El Cristiano”, considerado um troféu da Guerra, seja devolvido.
Diante disso, o governo do país vizinho convocou o embaixador do Brasil em Assunção, José Antonio Marcondes de Carvalho, nesta quinta-feira (30), para entregar uma nota formal de protesto em resposta às declarações de Lula sobre a Guerra do Paraguai. O anúncio foi feito pelo chanceler paraguaio, Rubén Ramírez, durante coletiva de imprensa no Ministério das Relações Exteriores, segundo a agência EFE.
Comparação entre Gaza e o Holocausto gerou a maior crise com Israel
Em fevereiro de 2024, durante a cúpula da União Africana, em Adis Abeba, Lula afirmou que a ofensiva israelense na Faixa de Gaza era algo que “só existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”.
A comparação provocou a maior crise diplomática entre Brasil e Israel desde o estabelecimento das relações entre os dois países.
O governo israelense declarou Lula persona non grata, convocou o embaixador brasileiro para uma reprimenda oficial e exigiu retratação. Em resposta, o Brasil chamou seu embaixador em Tel Aviv para consultas.
Foi a primeira vez que um presidente brasileiro recebeu esse tipo de classificação por parte de Israel.
Ucrânia: críticas desagradaram Kiev e aliados ocidentais
Ainda durante a campanha presidencial de 2022 e nos primeiros meses do terceiro mandato, Lula afirmou que Volodymyr Zelensky seria “tão responsável quanto” Vladimir Putin pela guerra.
Em outra ocasião, declarou que Estados Unidos e Europa estariam “incentivando” o conflito ao fornecer armamentos para Kiev.
No mesmo sentido, em 2024, o petista sugeriu que Zelensky e Putin estariam “gostando da guerra”, já que não tinham sentado para conversar e tentar encontrar uma solução pacífica.
As declarações foram contestadas pelo governo ucraniano e provocaram críticas públicas da Casa Branca, que acusou o Brasil de reproduzir narrativas russas e chinesas sobre o conflito.
O presidente ucraniano também afirmou que o Brasil havia perdido a oportunidade de exercer um papel relevante como mediador.
Defesa de Maduro gerou críticas de presidentes latino-americanos
Durante visita do então ditador Nicolás Maduro ao Brasil, em maio de 2023, Lula afirmou que a percepção de que a Venezuela vive uma ditadura seria uma “narrativa”. A declaração foi imediatamente contestada por dois ex-presidentes da região.
O ex-presidente uruguaio Luis Lacalle Pou afirmou que a situação venezuelana não era uma construção narrativa, mas uma realidade conhecida.
O ex-presidente chileno Gabriel Boric também rebateu Lula e disse que violações de direitos humanos não podem ser relativizadas.
O episódio enfraqueceu a tentativa brasileira de reposicionar o país como liderança regional.
União Europeia reagiu a críticas de Lula sobre “colonialismo”
Durante as negociações do acordo Mercosul-União Europeia, Lula acusou países europeus de adotarem postura “colonialista” ao exigir compromissos ambientais adicionais.
Embora a disputa fizesse parte das negociações comerciais, o tom das declarações gerou desconforto em Bruxelas e entre líderes europeus, incluindo a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
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Polarização política recente alterou a diplomacia tradicional brasileira
Historicamente, a diplomacia do Brasil era caracterizada por ser universalista, não alinhada e baseada em princípios pragmáticos de comércio exterior, evitando que presidentes tomassem partido em grandes questões geopolíticas para não prejudicar os interesses econômicos de um “Estado intermediário”.
Na avaliação do cientista político Elton Gomes, o Brasil abandonou a isenção regional e passou a intervir com mais frequência em assuntos domésticos de vizinhos, com governantes tecendo considerações valorativas e apoiando abertamente candidatos em eleições estrangeiras, como ocorreu no apoio de Lula a candidatos na Argentina. Gomes afirma ainda que o Brasil vive um fenômeno relativamente recente de maior “presidencialização da política externa”.
O estrategista internacional Cezar Roedel observa que no ambiente global, que exige seriedade, cada declaração presidencial circula instantaneamente entre governos, mercados e meios de comunicação. “Quando o cálculo político privilegia o efeito interno em detrimento da repercussão internacional, o Brasil corre o risco de reduzir sua tradicional imagem de interlocutor equilibrado e de negociador confiável”.
Para a analista política Yolanda Tolentino, os episódios revelam uma combinação entre improvisação presidencial e uma estratégia deliberada de política externa. Ela observa que Lula frequentemente abandona o discurso preparado pelo Itamaraty e recorre a analogias ou metáforas espontâneas. Ainda assim, essas manifestações não ocorreriam ao acaso.
Segundo a pesquisadora, quando analisadas em conjunto, elas apontam para uma linha consistente de valorização do chamado Sul Global, críticas às potências ocidentais e tentativa de afirmar maior autonomia brasileira em relação aos Estados Unidos.
Na avaliação de Tolentino, o problema não é apenas o conteúdo das posições brasileiras, mas a forma como elas são expressas. “A experiência recente mostra que um país pode defender posições próprias e ainda assim exercer papel de mediador. O problema surge quando a linguagem utilizada fecha canais de diálogo com uma das partes.”
Ela lembra que episódios semelhantes ocorreram em 2010, quando Lula negociou, ao lado da Turquia, um acordo nuclear com o Irã que acabou rejeitado pelos Estados Unidos.
Declarações de Lula também podem dificultar negociações comerciais
Além dos impactos diplomáticos, declarações presidenciais podem reduzir a margem de negociação do Brasil em temas econômicos, avalia o estrategista internacional Cezar Roedel.
Segundo ele, a crise com Israel após a comparação da ofensiva em Gaza ao Holocausto demonstrou que falas presidenciais podem produzir consequências concretas nas relações bilaterais.
Roedel avalia que o mesmo ocorre nas relações com os Estados Unidos, ainda que em contexto diferente. “No caso dos Estados Unidos, uma disputa comercial, as manifestações de Lula também atrapalham, e muito. O governo não conseguiu negociar com os EUA, como todos os outros países do mundo fizeram, para reduzir as tarifas. Lula prefere repetir mantras ideológicos que nada servem aos reais interesses nacionais brasileiros”, afirma.
Na avaliação do estrategista internacional, parte da retórica adotada pelo presidente busca dialogar prioritariamente com sua base política no Brasil, sobretudo em temas relacionados à ordem internacional e às críticas ao Ocidente.
Na visão do cientista político Elton Gomes, entretanto, esses episódios raramente alteram as relações estruturais entre os países. Como exemplo, cita a relação com a Argentina. Apesar das trocas de críticas entre Lula e Javier Milei, o comércio bilateral permaneceu em níveis recordes, sustentado pela forte integração econômica entre os dois países.
Já em relação aos Estados Unidos, Gomes corrobora a visão de Roedel e afirma que uma retórica excessivamente hostil pode ser contraproducente.
“O Brasil depende dos Estados Unidos como importante mercado para produtos industrializados, fonte de investimentos e principal fornecedor de tecnologia. Por isso, uma política externa pragmática tende a produzir mais resultados do que discursos de confronto.”
Autor: Gazeta do Povo








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