Em um estudo preliminar, um tratamento experimental de edição genética reduziu drasticamente os níveis de colesterol após apenas uma infusão, relataram cientistas na segunda-feira (25).
Os pesquisadores esperam que, se confirmados, os resultados possam levar a uma forma única e definitiva de prevenir doenças cardíacas em muitas pessoas. A maioria das terapias genéticas tem como alvo doenças raras, mas condições cardiovasculares matam quase 800 mil americanos por ano.
“Temos debates e novas diretrizes de que deveríamos tratar as pessoas mais cedo”, afirma John Alexander, cardiologista da Universidade Duke que não participou do estudo. “Uma terapia curativa mudaria o jogo.”
O estudo, publicado no The New England Journal of Medicine, é uma análise de 35 pacientes em um ensaio que envolverá até 85 participantes. Todos têm níveis geneticamente elevados de colesterol LDL —o tipo “ruim”— ou doença cardíaca.
Nos 35 pacientes, uma única infusão da dose mais alta do tratamento reduziu os níveis de colesterol LDL em até 62%. A mudança foi mantida em um subgrupo cujos membros foram tratados há 18 meses. Um novo estudo maior deve ser realizado com 200 pacientes.
É incomum que o The New England Journal of Medicine publique um resultado tão preliminar, mas “parece que funciona muito bem”, diz Eric Rubin, editor-chefe da revista científica. O ensaio é uma tentativa ambiciosa de aplicar terapia genética de ponta à principal causa de morte nos Estados Unidos, acrescenta.
Ainda assim, “precisamos de muito mais dados de segurança”, afirma Michael Gaziano, diretor de cardiologia preventiva do sistema de saúde Boston V.A. A FDA (Food and Drug Administration, agência reguladora dos EUA) exige que todos os pacientes em estudos de terapia genética sejam acompanhados por 15 anos.
Os pacientes no ensaio receberam uma infusão contendo uma “máquina” de edição genética, ou uma pequena fábrica molecular envolta em uma camada de gordura. As partículas revestidas de gordura viajam pelo sangue diretamente até o fígado, onde são absorvidas por células que removem o invólucro gorduroso.
A máquina de edição então percorre o DNA da célula hepática até encontrar seu alvo, um gene chamado PCSK9. Ela para ali e apaga uma letra do DNA no gene, substituindo-a por outra.
Essa simples mudança desativa o gene PCSK9 e impede que as células produzam a proteína PCSK9. Sem ela, o fígado remove mais colesterol LDL da corrente sanguínea, mantendo os níveis mais baixos.
O estudo foi liderado por Sekar Kathiresan, diretor-executivo da Verve Therapeutics, agora uma subsidiária da Eli Lilly. Kathiresan, cardiologista, disse que foi motivado por sua história pessoal.
Sua avó, pai, tio e irmão tiveram ataques cardíacos. Seu irmão morreu de parada cardíaca aos 42 anos, logo após voltar de uma corrida.
Terapias genéticas para doenças raras custam milhões de dólares. Mas Daniel Skovronsky, cientista-chefe da Eli Lilly, diz que esse não seria o caso se o tratamento fosse eventualmente aprovado.
“Não é isso que estamos buscando aqui. Estamos buscando um medicamento que um dia possa fazer parte da atenção primária”, afirma.
Níveis elevados de LDL são altamente tratáveis com uma variedade de medicamentos, incluindo os tradicionais comprimidos diários de estatinas. Avanços mais recentes incluem medicamentos injetáveis que bloqueiam a proteína produzida pelo gene PCSK9, criando o mesmo efeito da edição genética.
Mas muitas pessoas não conseguem ou não querem tomar os medicamentos. Entre um terço e metade dos pacientes param de tomar medicamentos para reduzir o colesterol em um ano após começarem, mesmo pessoas que tiveram ataques cardíacos.
Kristy Faulkner, 45, que mora em Guilford (CT), está entre aqueles que precisam de tratamento, mas relutam em tomar um medicamento potente. Doenças cardíacas são comuns em sua família, e ela teve um ataque cardíaco aos 42 anos.
“Existe uma espécie de negação interna, como se eu não pudesse tomar esses remédios todos os dias da minha vida”, diz ela. “Eu entendo a importância, e me sinto envergonhada.”
Sua cardiologista, Erica Spatz, da Universidade Yale, espera que o plano de saúde de Faulkner cubra um inibidor de PCSK9 que só precisa ser administrado a cada seis meses. Seu histórico médico significa que não há “margem para erro”, segundo Spatz.
“Esse tipo de avanço terapêutico pode ser revolucionário para pessoas como ela”, diz Spatz.
Alice Thomas, 64, de Lexington (NC), adoraria tomar medicamentos para reduzir o colesterol, mas não consegue obtê-los. Sua única fonte de renda é a Previdência Social, e embora as estatinas sejam baratas, ela não conseguiu tolerá-las.
Seu plano de saúde não aprovou os medicamentos injetáveis que poderiam ter ajudado. Ela teve dois derrames e, há alguns meses, seu nível de colesterol LDL estava perigosamente alto, em 190.
“Eu não tinha nada, então descobri sobre este estudo.” Ela recebeu a infusão no ensaio de Kathiresan em 30 de março. Duas semanas depois, seu nível de colesterol era 50. “Isso é ótimo. Uma vez e acabou”, diz.
Autor: Folha








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