quinta-feira, maio 28, 2026
13 C
Pinhais

Neurônios enferrujam com o tempo, literalmente – 28/05/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Meu marido vendeu a casa antiga dele em Nashville, juntamos nossos trapinhos e compramos uma na frente da praia numa cidadezinha no estado do Rio de Janeiro, a um quarteirão da casa dos meus pais. É o meu “lugar de escrita”, onde agora tenho a sorte de passar quase metade do ano, perto da minha família.

Logo no seu primeiro mês de proprietário de uma casa de frente para o mar, ele ficou assustado com a quantidade de manutenção constante que a casa exige e temeu ter comprado um limão azedo em vez de laranja. Apesar de ter crescido em San Diego, na Califórnia, ele nunca tinha vivenciado o estrago que maresia e vento diretos fazem. Mas eu cresci passando os verões de frente para esta praia e pude acalmá-lo: as casas aqui são feitas de tijolo e cimento, não de papel e cuspe como nos EUA –digo, de ripinhas e folhas de gesso– e aguentam o tranco.

O que não aguenta é tudo e qualquer coisa que contenha ferro, como grades e ferragens. Íons de ferro na sua forma Fe+2 são altamente reativos com oxigênio, trazido na água salgada e no ar que grudam nas grades. O resultado é, de um lado, ferro oxidado, na forma Fe+3, visível como ferrugem, perfeitamente inerte e inofensiva. O problema é que, de outro, a oxidação do ferro pode gerar aqueles radicais livres de oxigênio que saem destruindo tudo. Isso acontece dentro das células, inclusive neurônios, e contribui para o envelhecimento.

Uma pessoa saudável praticamente não tem íons de ferro livres no sangue, mas tem em suas células, onde eles são fundamentais. Íons de ferro chegam às células pelo sangue, trazidos de forma segura, “ensacados”, como moedas, em duas proteínas: transferrina e hemoglobina.

Esta última você deve reconhecer: é a que gruda oxigênio e o distribui pelo corpo, justamente por causa do íon de ferro que ela contém em seu interior. Sem ferro a gente não vive. Dentro das células, íons de ferro são contidos em outro tipo de saquinho: a molécula ferritina, que solta um pouquinho de ferro o tempo todo (o que mantém várias reações essenciais à vida), mas segura a maior parte dessas “moedas” protegida dos elementos.

Pois um estudo da Universidade da Califórnia em São Francisco publicado na revista Nature Aging ano passado mostrou que, assim como uma casa exposta aos elementos acumula ferrugem, o cérebro de camundongos idosos tem níveis aumentados de ferritina, e com ela, de íons de ferro –e também perda de sinapses no hipocampo, a parte do cérebro que forma associações novas o tempo todo. Quanto mais bolsinhas de ferritina carregando moedas enferrujáveis tinha o hipocampo, mais provável era que os animais mostrassem desempenho pior em testes cognitivos.

Até aqui eram só correlações, mas o estudo mostrou que tudo isso piora com uma manipulação genética que aumenta ainda mais o nível de ferritina no hipocampo, e melhora com outra manipulação que remove a ferritina na estrutura nos animais já idosos. A melhor parte, contudo, é que não precisa meter a mão nos genes para melhorar: suplementação com NADH, já disponível no Brasil na forma de NAD+ ribosídeo, tem o mesmo efeito antienvelhecimento nos camundongos.

As grades de casa ganham capa nova de tinta todo ano para evitar a ferrugem, e eu já tomo NAD+ há tempos para desenferrujar meus neurônios. Só não sabia que o efeito era tão literal!

Referência

Remesal L et al. (2025). Targeting iron-associated frotein Ftl1 in the4 brain of old mice improves age-related cognitive impairment. Nature Aging 5, 1957-1969.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas