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É preciso estar amando para assumir um relacionamento? – 09/06/2026 – Equilíbrio

Há pessoas que terminam um relacionamento e rapidamente começam outro. E há aquelas que precisam de mais tempo até perceberam que conhecem bem o parceiro antes de assumir um compromisso.

O sentimento de dúvida, de “será que essa pessoa é certa para mim?”, é frequente, segundo psicólogas especializadas em relacionamentos ouvidas pela reportagem. No entanto, elas afirmam que o momento certo ou ponto de virada para a certeza não existe. E, não: não é preciso estar amando para começar a namorar, porque o amor se constrói com o tempo.

Para as especialistas, a questão é permitir se arriscar. Foi assim, dando uma chance para a incerteza, que o relacionamento de Andrea Lopes, 52, e Luiz Fernando Figueiredo, 62, deu certo.

A advogada e o economista, que já foi presidente do Banco Central, se conheceram pelo Facebook. Luiz viu o perfil dela, se interessou, mandou uma mensagem e os dois começaram a conversar. Marcaram um café.

“Resolvi falar logo quem eu sou, que eu tinha um monte de filhos, que eu já tinha sido casado três vezes. Abri o jogo para ela ver se me achava legal ou se me descartava”, conta Luiz. Andrea gostou da atitude. Os dois conversaram por horas e não se desgrudaram mais.

A história de Luiz e Andrea começou em janeiro de 2021, em São Paulo, quando havia restrição aos encontros presenciais por causa da pandemia da Covid. Luiz já tinha sido internado no ano anterior e não podia correr o risco de se contaminar pelo vírus novamente. Os dois se conheciam havia pouco tempo, mas, mesmo assim, foram passar a quarentena juntos em uma casa de campo.

“A gente teve essa possibilidade de fazer um belo ‘test drive’ logo no começo, acordando, dormindo, ficando o dia inteiro junto, principalmente por causa do contexto daquela época”, conta Andrea. Ela diz que os dois não tiveram medo de se jogar no relacionamento.

Embora o namoro deles tenha começado em circunstâncias específicas por causa da pandemia, a disposição em dar uma chance ao amor é o caminho certo para começar um relacionamento, diz Marta Carmo, psicóloga e mestre em psicologia do desenvolvimento com ênfase em casal e família.

“Eu considero que ninguém começa amando. Você acabou de conhecer a pessoa. O que existe, inicialmente, é paixão ou atração sexual. O amor é construído no decorrer da relação”, explica.

Para Marta, a ideia de “amor à primeira vista” pode criar relacionamentos falsos, pautados em algo que não existe na vida real. Relações verdadeiras e duradouras nascem nas adversidades, enquanto as afinidades e semelhanças não são suficientes para segurar um namoro nem um casamento, diz a psicóloga.

Fabiana Ratti, psicanalista e mestre em psicologia clínica pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), concorda. Ela diz que as pessoas crescem, amadurecem e assumem mais responsabilidades, parcerias e cobranças. Acompanhar essas mudanças faz parte do crescimento do casal.

“É normal existirem expectativas antes do início do namoro e que elas nem sempre se mantenham ao longo do tempo”, diz Carmo. Ela afirma que lidar com as diferenças é uma das grandes questões da psicologia e traz dificuldades para os seres humanos. O importante é dialogar, alinhar as expectativas e decidir se querem continuar juntos ou não.

No caso de não dar certo, o melhor é terminar e seguir a vida, sem medo de frustrações, segundo Ratti. “Ex-namorados fazem parte do crescimento de todo sujeito. Muitos reclamam do recomeçar: ficar sozinho, voltar a sair com pessoas desconhecidas, reiniciar a jornada. Muitos têm medo do desconhecido, de não encontrar alguém bacana, e ficam em relacionamentos terríveis por não estarem dispostos a esse recomeço. É aí que mora o perigo.”

Depois da quarentena na casa de campo, Andrea e Luiz continuaram namorando e juntaram as famílias. “Com a convivência, o sentimento foi se aprofundando. A gente começa a passar por mais coisas juntos, desafios também, que aprofundam e enraízam a relação”, diz a advogada. Ela tem duas filhas e ele, quatro.

Andrea diz que, quando começou a namorar Luiz, se sentia como uma adolescente, porque queria ficar com o amado a todo momento. Por outro lado, os dois dizem que se sentiram maduros o suficiente para entrar rápido em uma relação, por saberem identificar o que queriam.

Os sentimentos de dúvida ou certeza não dependem da idade, segundo as psicólogas. Carmo diz que adolescentes são mais impulsivos por ainda não terem o desenvolvimento cerebral completo.

Ao mesmo tempo, adultos também podem ter impulsividade ou esperar por uma relação idealizada.

Quando a carreira é priorizada antes da vida amorosa, algumas pessoas se dão conta de que o tempo está passando e que estão solteiras. Se este for um problema, elas podem ficar mais dispostas a começar um relacionamento.

Mas, independentemente de como foi o início, as relações amorosas são construídas aos poucos. “Assim como a vida profissional foi pensada, investida, cuidada, é importante fazer o mesmo na questão emocional”, diz Carmo. Da mesma forma, segundo ela, é preciso cuidar do amor e investir na relação.

“O que vejo no consultório é que, se existe um interesse, independentemente da idade, é interessante iniciar o relacionamento, ter coragem. Pagar para ver. Aqueles que não enfrentam ficam arrependidos. Sempre na sensação de ‘e se eu tivesse namorado… ‘. Aí a pessoa fica no imaginário, na fantasia, nos relacionamentos platônicos, e não cresce”, diz Carmo.

Quase seis anos depois do primeiro encontro, Andrea e Luiz se casaram e trabalham juntos. Os filhos moram junto com eles e formaram uma nova família.

Autor: Folha

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