A seção Tendências/Debates desta Folha trouxe esta semana um ótimo artigo denunciando o atraso do Brasil na regulamentação da cannabis medicinal e de psicodélicos terapêuticos. Isso apesar das vantagens comparativas de nosso país, potência agrícola com tradição de pesquisa em substâncias psicoativas:
“A pergunta não é se devemos importar o modelo norte-americano. É por que um país comprometido com direitos, saúde e redução de danos aceita ficar atrás justamente onde deveria liderar”, questionavam. O mesmo se pode argumentar das energias alternativas fotovoltaica e eólica.
O Brasil tem muito sol, ventos abundantes e um vasto território para instalar painéis solares e torres eólicas. Pode implementá-los de modo ambiental e socialmente mais responsável do que no descaso habitual com populações e natureza, inversamente proporcional à diminuta fatia de alternativas limpas na matriz elétrica (energia nuclear e hidreletricidade não cabem na rubrica).
Mas e a questão da intermitência, retrucarão lobistas de combustíveis fósseis, termelétricas idem e hidrelétricas que expulsam comunidades tradicionais e florestas. A resposta vem na ponta da língua: baterias para armazenar energia quando não há luz do sol ou ventos.
São caras demais, resmungarão arautos da modicidade tarifária que nunca se incomodaram com gasodutos para irrigar bolsos da corrupção. Baterias de lítio, cobalto e níquel geram resíduos e empregam trabalho infantil no Congo, perorará quem jamais criticou a devastação humana e ecológica da Volta Grande do Xingu.
Tais alternativas só parecem caras demais porque nunca se põem na conta os subsídios diretos e ocultos aos fósseis que turbinam o aquecimento global. Seu ônus sobre o planeta vai de US$ 1 trilhão (OCDE) a US$ 7,4 trilhões (FMI) anuais. Isso dá uns três PIBs brasileiros.
Mesmo deixando de fora a imolação de trilhões no altar do petróleo, surgem evidências de que a geração fotovoltaica e eólica acoplada com parques de baterias já consegue competir com fósseis. É o que se depreende de dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) divulgados pelo boletim ClimaInfo.
A publicação informa que a análise da Irena foi corroborada pela Bloomberg NEF: custos médios dos sistemas de armazenamento de energia, segundo a consultoria, caíram 75%, entre 2018 e 2025, e devem cair mais 25% até 2035.
A agência destacou o caso do Brasil e exemplificou com o potencial da Bahia: em 2025, o custo da energia solar no estado foi de US$ 65 por megawatt-hora (MWh) e até o final da década cairá para US$ 44/MWh. Como comparação, a energia termelétrica gerada com gás fóssil no Brasil em 2023 foi de US$ 60/MWh.
Isso sem as baterias, verdade. Mas a Irena informa que o custo com elas ficou entre US$ 88 e US$ 94 por MWh no Brasil em 2025, similar ao verificado na Alemanha e na Austrália. E em cinco anos recuará para algo entre US$ 49 e US$ 75/MWh.
E o governo, o que tem feito nesse cenário? Quase nada. Em 22 de maio, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), anunciou que publicaria em dias a portaria do primeiro leilão de baterias do país. Até a última sexta-feira (29), sua promessa tardia ainda era dívida.
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Autor: Folha








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