
Minha República ficava numa pracinha repleta de ipês. Quando acordei e abri a janela, naquela manhã de quinta-feira, notei que os ipês haviam florescido durante a madrugada. Havia mais do que beleza: havia algo de doloroso e quase assustador no contraste das flores amarelas com o céu luminoso de Londrina.
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Dias antes, Ana havia dito que nada de mau poderia acontecer onde houvesse flores amarelas. Mas aquela floração dos ipês me provocava um estranho medo, que vinha se somar à minha coleção de fantasmas. Isso porque estávamos em dezembro, e os ipês amarelos costumam florir entre julho e agosto. Qual seria a causa de um tal comportamento extravagante da natureza? Eu não podia dizer que era vontade de Deus, pois não acreditava em Deus.
No mesmo dia em que Ana falou sobre as flores amarelas, um muro havia sido derrubado no outro lado do mundo. Na televisão da sala — o imenso aparelho Telefunken que mais parecia um armário — vimos as pessoas pulando de alegria sobre os restos da Barreira de Proteção Antifascista (esse era o nome oficial do muro). Não entendi por quê. Eles não eram felizes? Não tinham o socialismo? Ou será que ele havia sido mal aplicado?
Depois da queda do Muro (ou foi antes?), Lula veio a Londrina e fez um comício no Calçadão. Eu e Ana estávamos lá. Naquele tempo, Lula empolgava as multidões. “Não existe socialismo sem democracia, nem democracia sem socialismo”, disse ele, no coreto que serviu de palanque. Hoje o coreto não existe mais; foi substituído por uma fonte de água torta — a única fonte-pensa do mundo. Sempre que passo por lá, eu me lembro do Lula falando sobre “socialismo democrático”.
Mas, naquela manhã de quinta-feira, 14 de dezembro de 1989, meus pensamentos se voltavam para o relógio. Ana ficara de vir às 10 horas, para juntos estudarmos um texto de Trotsky, “A Moral Deles e a Nossa”. Na verdade, eu não estava nem aí para o Trotsky. Só conseguia pensar em Ana.
Ao lado do rádio-relógio — que já indicava um atraso de 10 minutos da minha colega de lutas —, estavam os dois livros que eu vinha lendo simultaneamente, descansando de um no outro: “Guerra e Paz” e “Trópico de Câncer”. Por alguma razão, via Natasha, a heroína de Tolstói, com o rosto, o corpo e a voz de Ana. E também a encontrava nos becos e antros da Paris de Henry Miller.
Então levantei meus olhos e vi, pela janela aberta, Ana caminhando entre os ipês amarelos floridos. Levantei-me, peguei o livro do Trotsky e fui até a sala. Quando Ana abriu a porta — a porta da República ficava sempre aberta —, achou que eu estivesse estudando.
Mas eu fechei o livro e disse:
— Perdi a vontade de estudar. A história está acontecendo diante de nós.
Ana não disse nada. Apenas sorriu enquanto eu me levantava e ia ao seu encontro. No entanto, no exato segundo em que eu iria abraçá-la (ela usava uma camiseta vermelha), apareceu à porta uma senhora de cabelos brancos e olhos profundamente verdes. Dizia:
— Vocês viram o Paulo?
Demoramos algum tempo para entender que Paulo era o seu marido, que supostamente deveria estar escondido na República. Minutos depois, apareceu uma mulher jovem.
— Desculpem, ela de vez em quando sai de casa e fica procurando meu pai. Ele morreu há muitos anos. Vamos embora, mãe. O papai não está aqui.
Após a interrupção, eu e Ana decidimos ler o texto do Trotsky. Naquela noite, Lula perdeu o debate para Collor e, depois, perderia a eleição. Eu e Ana ficamos tristes com o resultado, e as flores amarelas começaram a cair sobre o chão da praça durante a madrugada.
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Autor: Gazeta do Povo








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