Protagonista da histórica temporada que pôs fim ao incômodo jejum de 22 anos do Arsenal sem conquistar a Premier League, e que ainda pode terminar com o inédito título da Champions League, o zagueiro Gabriel Magalhães, 28, vive, com sobras, o ápice da carreira.
Convocado por Carlo Ancelotti para Copa do Mundo de 2026, o defensor chega para o seu primeiro Mundial com o status de titular absoluto, ao lado de Marquinhos, principalmente após a grave lesão de Éder Militão, ausência até mesmo na pré-lista de 55 nomes por conta de um novo problema no tendão do bíceps femoral da perna esquerda.
Canhoto e com 1,90 m, Magalhães disputou apenas 17 partidas pela seleção e marcou um gol. Ele ganhou os primeiros minutos em campo com a amarelinha sob o comando do técnico Fernando Diniz, em agosto de 2023, mas poderia ter escrito sua história bem antes disso.
Em 2022, durante o ciclo do técnico Tite, o jogador causou polêmica ao pedir dispensa da Data Fifa de março daquele ano para acompanhar o nascimento da primeira filha. Ele já havia sido chamado outras vezes pelo treinador.
“Quando se trata de família, é um momento delicado. Eu era pai de primeira viagem, estava sozinho com a minha esposa em Londres, era complicado deixá-la sozinha”, justificou na ocasião.
Preterido da Copa do Qatar, o caso ganhou maior repercussão em julho de 2023, por conta de uma fala do ex-coordenador da seleção, Juninho, ao site ge. Segundo Juninho, o prestígio de Magalhães teria caído com a opção.
“São escolhas. Eu passei por isso. Nasceu um filho meu, fiquei esperando na Inglaterra e no dia seguinte vim ao Brasil porque tinha machucado o meu joelho e precisava me recuperar o mais rápido possível. A minha esposa ficou lá 40 dias sozinha, com a ajuda de babá. Isso prejudicou? Na hora de pesar você vai colocar tudo na balança e é inevitável, você vai colocar tudo isso na balança. Vem o outro, joga e aí acontece de perder um pouco espaço”, disse o cartola na ocasião.
Magalhães cresceu em Pirituba, na zona norte de São Paulo, e treinou em Osasco, mas deu seus primeiros passos em um clube no Avaí. Chegou a Florianópolis com 13 anos e saiu com 19, disputando apenas 39 partidas como profissional no Brasil até ser negociado com o Lille (FRA), em 2016, por aproximadamente 3 milhões de euros (R$ 10 milhões à época).
A transação mudou para sempre a forma como o Avaí passou a olhar para o trabalho de formação de jogadores e para a sua categoria de base.
“Renovamos o contrato com ele antes de seguir para o Lille, o que nos permitiu uma ótima venda, mantendo percentual futuro. Com a saída dele, montamos uma academia exclusiva para a base, que só tinha bicicletas velhas. Conseguimos subir os muros, trazer privacidade. Antes, qualquer um chegava nos atletas e os assediava”, lembra o ex-presidente Francisco Battistotti à Folha.
“Montamos uma academia igual a do Corinthians, nos inspiramos na deles, para formarmos melhor e maior escala”, completa.
Na França, o jogador teve dificuldades para se adaptar. Sentia saudades de casa e não tinha oportunidades. Passou por empréstimos no Troyes e no Dinamo Zagreb, além do time B do Lille, até ganhar espaço e chamar atenção do Arsenal.
Contratado em 2020 por 30 milhões de euros (R$ 192 milhões à época), conquistou rapidamente espaço como titular no projeto de renovação liderado pelo técnico espanhol Mikel Arteta. Sua ascensão, curiosamente, se confunde com a do próprio Arsenal –ausente da Champions nas três primeiras temporadas do defensor.
Agora, ele lidera como protagonista o clube aquela que pode ser a melhor temporada em mais de 139 anos de história. Participou de 50 das 62 partidas dos Gunners, contribuindo com quatro gols e cinco assistências.
Magalhães ainda foi o pilar de uma jogada tão eficiente quanto mortal para o clube inglês: as bolas aéreas, aproveitando sua estatura e boa impulsão. Ao todo, 18 gols foram originados de escanteio – um recorde na história da competição.
De acordo com a plataforma WhoScored, o brasileiro foi o jogador do Arsenal que mais venceu duelos pelo alto nesta temporada: média de 3,1 por partida. Seu companheiro, o francês William Saliba, ficou com 2,4. Com a dupla em campo, a equipe venceu 17 de 26 jogos, sendo 15 deles sem tomar um gol sequer.
O site de estatísticas Sofascore ainda o coloca na seleção da Premier League, com uma nota média de 7.27.
Agora, falta pouco para Magalhães escrever de vez o seu nome antes de se apresentar à seleção. Se conseguir, só restará a ele tentar fazer história mais uma vez: desta vez com o hexacampeonato.
Autor: Folha








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