Guerras em andamento, disputas comerciais entre potências, pressão sobre fronteiras, endurecimento migratório, polarização política e protestos internos compõem o cenário em que Estados Unidos, Canadá e México receberão a Copa do Mundo de 2026.
Em vez de funcionar apenas como pano de fundo do torneio, parte dessas tensões atravessa diretamente os países que vão sediar a competição em conjunto, com os americanos ocupando posição central em crises diplomáticas e militares que envolvem países classificados para o megaevento, ao mesmo tempo em que ampliam o controle sobre vistos, imigração e segurança nas fronteiras.
“A Copa deveria ser um ambiente seguro para a Fifa, oferecendo estabilidade e retorno comercial. Em vez disso, tornou-se a Copa mais complexa, sensível e fragmentada da história”, disse à Folha Simon Chadwick, professor de geopolítica e economia internacional do esporte e um dos principais especialistas mundiais na relação entre esporte, poder e mercados globais.
A relação entre Copa do Mundo e política acompanha praticamente toda a história da competição. Em 1938, o Mundial foi disputado sob a escalada do nazismo na Europa poucos meses antes da Segunda Guerra Mundial. Décadas depois, a Guerra Fria transformaria o torneio em palco simbólico da divisão entre blocos políticos, especialmente na Copa de 1974, na Alemanha Ocidental. Em 1990, na Itália, o futebol voltou a acompanhar uma mudança de ordem global, desta vez sob o colapso da União Soviética e a reunificação alemã.
“Todas as Copas estiveram ligadas à política. Algumas aconteceram em momentos de conflito, ruptura e grandes inflexões históricas”, afirma Kristina Spohr, historiadora especializada em relações internacionais e professora de história internacional na London School of Economics. “Futebol envolve política, patriotismo, paixão, personalidades e lucros”, acrescentou Kristina, referência em estudos sobre Guerra Fria, diplomacia e ordem global.
Em 2026, porém, especialistas apontam um diferencial. Pela primeira vez em décadas, o país-sede aparece também como protagonista direto das disputas que cercam o torneio.
“Vejo esta Copa como particularmente carregada politicamente porque ela acontece na era Trump”, disse Nicholas Cull, historiador britânico, professor da University of Southern California, referências em diplomacia pública, soft power e comunicação estratégica entre Estados. “É da natureza de Trump transformar grandes eventos nacionais em algo sobre ele próprio.”
Nos últimos meses, a própria presença de seleções classificadas para o Mundial virou tema político em Washington. Questionado sobre a participação do Irã no torneio, o presidente Donald Trump evidenciou novamente sua interferência, embora tenha terceirizado a decisão para a Fifa.
“Se o Gianni [Infantino, presidente da entidade] disse isso [que o Irã vai jogar], para mim está tudo bem. Deixem que joguem.”
A fala de Trump reforçou uma percepção crescente entre pesquisadores de geopolítica do esporte de que, em 2026, os Estados Unidos não serão apenas sede da Copa, eles serão parte central da narrativa política do torneio.
Enquanto a Fifa recorre ao velho apelo de uma celebração continental para vender a 23ª edição da Copa, o país que concentra a maior parte dos jogos chega ao megaevento em meio a uma combinação rara de endurecimento migratório, disputas tarifárias com aliados históricos, pressão sobre fronteiras e uma polarização política que atravessa eleições, tribunais e as ruas.
Nos últimos meses, decisões tomadas em Washington passaram a afetar diretamente desde turistas e estudantes até delegações esportivas, transformando aeroportos, consulados e postos migratórios em parte concreta da experiência de quem pretende disputar ou acompanhar o Mundial.
O tema já apareceu até em tom de humor. No mais recente encontro com Trump, na Casa Branca, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva brincou ao pedir ao seu homônimo que não “cancelasse o visto” de jogadores brasileiros durante a Copa. A piada, porém, refletiu uma preocupação real de delegações que acompanharão um torneio em que fronteiras e imigração passaram a fazer parte da própria narrativa.
O debate não envolve apenas o Irã. Países classificados como o Haiti, mergulhado em uma crise institucional sem precedentes, e o Iraque, cuja história recente permanece marcada por duas décadas de presença militar americana, também chegarão a um Mundial em que fronteiras, vistos e segurança deixaram de ser apenas detalhes logísticos.
Para pesquisadores que acompanham a relação entre esporte e relações internacionais, megaeventos raramente criam crises por conta própria, mas costumam oferecer uma vitrine global para conflitos que governos já carregam para dentro deles.
“Megaeventos funcionam como palcos simbólicos. Eles não criam conflitos, mas oferecem uma arena global para manifestações políticas”, afirma Rodrigo Amaral, pesquisador brasileiro especializado em relações internacionais, diplomacia esportiva e o uso político de grandes eventos globais.
Se em outras décadas a dimensão política de uma Copa dependia de gestos diplomáticos, entrevistas coletivas ou decisões de bastidores, em 2026 ela também será moldada em tempo real por plataformas digitais capazes de transformar qualquer símbolo em crise internacional em questão de minutos.
“Sem tensão política anterior, um jogo entre países é só futebol. Com ela, vira outra coisa”, analisa Vitória Baldin, pesquisadora brasileira dedicada aos estudos de mídia, política internacional e circulação de narrativas em grandes eventos esportivos.
“Os algoritmos tendem a amplificar conteúdos que acionam emoção, nacionalismo e conflito.”
No centro desse tabuleiro está uma Fifa que, além de organizar partidas, hoje administra contratos globais, direitos comerciais, relações governamentais e interesses econômicos distribuídos entre dezenas de mercados estratégicos.
“A Copa hoje é uma rede complexa de fatores geográficos, políticos e econômicos”, resume Chadwick.
Nos últimos meses, essa sobreposição entre futebol, negócios e política ganhou rosto próprio no presidente da Fifa, Gianni Infantino, cada vez mais presente em encontros de chefes de Estado, negociações institucionais e anúncios que tradicionalmente caberiam a autoridades nacionais, refletindo sua ambição de ser uma espécie de diplomata global.
Em uma das imagens mais simbólicas desse processo, Infantino chegou a entregar a Trump, durante o sorteio dos grupos da Copa, a primeira edição do Prêmio da Paz oferecido pela Fifa. O presidente da entidade máxima do futebol mundial também defende que o republicano merece o Nobel da Paz.
Para historiadores, a singularidade de 2026 não está apenas nos conflitos internacionais que cercam o torneio, mas no fato de que parte da instabilidade agora nasce dentro do próprio bloco anfitrião.
“O contexto de 2026 é de fragmentação, tensão e desilusão”, conclui Spohr.
Autor: Folha








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