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IA pode elevar a inflação sem gerar produtividade – 22/10/2026 – IA

Financial Times
Fico irritado quando tenho de pagar mais por recursos de software que considero incômodos. Não quero um resumo gerado por inteligência artificial de um documento longo, especialmente se esse documento for um livro que me deu muito trabalho para escrever. Descobrir como desativar assistentes de IA consome minutos da minha vida que jamais recuperarei. Tenhamos pena dos formuladores de políticas econômicas tomados pelo medo de um fenômeno semelhante em escala global: será que a IA pode provocar inflação sem proporcionar ganhos de produtividade?

Por enquanto, ao menos, a IA não parece ser o principal fator por trás da dinâmica geral da inflação. Dados da Capital Economics indicam que a taxa anual em agosto nos principais mercados desenvolvidos ficou em torno de 3%, um nível desconfortavelmente alto. Desse total, os preços da energia contribuíram com quase um ponto percentual. Isso pode ter alguma relação com a energia necessária para processar pedidos ao ChatGPT como “cupcakes fáceis banana iogurte sem ovos”, mas a guerra no Irã provavelmente tem um papel mais importante.

Ilustração de uma mão robótica cinza segurando delicadamente uma moeda dourada entre o polegar e o indicador. A mão apresenta articulações visíveis e detalhes mecânicos, com um fundo claro e neutro.

Efeito da IA sobre a inflação depende de a tecnologia cumprir as promessas de produtividade

–
Catarina Pignato

Embora existam alguns sinais de pressões mais pontuais sobre os preços relacionadas à IA, eles nem sempre são particularmente fortes. Apesar da elevada demanda mundial por chips, os preços de acessórios para equipamentos de processamento de dados e de telefones celulares no Reino Unido não subiram no último ano. Philip Lane, economista-chefe do BCE (Banco Central Europeu), observou recentemente que a inflação na zona do euro foi protegida pelo fato de que os celulares, laptops e carros afetados representavam uma parcela muito pequena dos gastos.

Os efeitos da IA são mais evidentes nos Estados Unidos, onde os preços ao produtor dos chips usados em data centers dispararam. Os preços americanos de softwares e acessórios de informática também vêm subindo, embora essa categoria represente, mais uma vez, uma pequena parcela dos gastos. Parte desse aumento pode ainda decorrer de erros de mensuração, caso reflita, de fato, uma melhora na qualidade dos softwares.

No início deste mês, economistas do Goldman Sachs adotaram uma abordagem mais sistemática, somando estimativas dos efeitos da IA sobre diferentes componentes dos gastos nos Estados Unidos, tanto diretos quanto indiretos. Eles identificaram quatro frentes: componentes e softwares diretamente relacionados à IA; produtos eletrônicos que disputam esses componentes; eletricidade; e materiais de construção usados na construção de data centers.

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No conjunto, os economistas estimaram que as pressões sobre os preços relacionadas à IA acrescentavam cerca de 0,5 ponto percentual à inflação geral anual. O impacto caía para aproximadamente 0,3 ponto percentual após a exclusão de parte dos erros de mensuração associados à forma como diferentes categorias de gastos são combinadas nas estatísticas oficiais. É um efeito relevante, mas não enorme. Os analistas também observaram que, como não conseguiram eliminar todos os efeitos das tarifas, o impacto real pode ser menor.

O efeito efetivo da IA sobre a inflação talvez seja ainda mais modesto se a revolução tecnológica estiver pressionando os preços para baixo indiretamente, por meio de seus efeitos sobre as taxas de juros e os gastos. Pense em uma onda de interesse por proteínas que eleve o preço de alguns petiscos em relação a outros. Se as famílias reduzirem o consumo de outros alimentos, os varejistas poderão baixar seus preços, mantendo inalterado o custo geral dos alimentos. Da mesma forma, a IA pode alterar os preços relativos sem elevar o nível geral de preços.

Não se tranquilize tanto. Em tese, choques específicos de determinados setores podem elevar o nível geral da inflação quando os setores que enfrentam um aumento da demanda não conseguem ampliar a produção rapidamente para acompanhá-la e, por isso, precisam aumentar bastante os preços. Um estudo sugere que esse fenômeno é relativamente comum. Elisa Rubbo, da Universidade de Chicago, estima que, entre 2000 e 2019, cerca de metade das oscilações da inflação foi explicada por mudanças nos preços relativos.

Há, portanto, precedentes para que a IA provoque inflação e complique a vida dos banqueiros centrais que tentam manter os preços sob controle. Eles não querem elevar demais os juros e acabar atrasando a disseminação de uma tecnologia capaz de gerar ganhos de produtividade —e reduzir preços. Outras pesquisas indicam que, dentro dos setores, a inflação tende a subir antes de períodos de forte avanço da produtividade, mas recua pouco depois. (Espero ansiosamente que os softwares fiquem mais baratos— ou que surja um assistente de IA competente.)

O grau de preocupação dos banqueiros centrais depende, portanto, da resposta a uma pergunta de trilhões de dólares: a IA realmente proporcionará os ganhos de produtividade esperados? Os executivos de empresas parecem cada vez mais otimistas, embora isso possa reforçar outro caminho pelo qual a IA elevaria os preços.

Em tese, famílias e executivos poderiam ficar tão entusiasmados com um salto de produtividade impulsionado pela IA que aumentariam seus gastos e investimentos antecipadamente, aquecendo a economia e pressionando a inflação. Esse efeito deveria ser temporário —a menos que os ganhos de produtividade esperados nunca se concretizem. Nesse caso, a economia poderia acabar estagnada e ainda assim sofrer as consequências inflacionárias. Tudo isso enquanto hordas de irritantes assistentes de IA nos distraem dos livros.

Autor: Folha

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