A interrupção da fluoretação da água pode retirar uma camada de proteção contra a cárie e, se a suspensão se prolongar, aumentar o risco de problemas de saúde bucal, principalmente entre crianças, idosos e pessoas em situação de vulnerabilidade socioeconômica.
O alerta ocorre após a Aesbe (Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento) pedir à Justiça a suspensão temporária, pelo prazo inicial de 90 dias, da obrigatoriedade de adicionar flúor à água distribuída pelos sistemas de abastecimento.
O acesso à água fluoretada é uma determinação da lei federal 6.050, de 1974. A Aesbe vê risco de desabastecimento de ácido fluossilícico (usado na adição de flúor) nos próximos meses, após a fabricante de fertilizantes Mosaic interromper o fornecimento do insumo.
O ácido fluossilícico é um subproduto da produção de fertilizantes à base de fosfato. A Mosaic sofreu um baque após a escalada do preço do enxofre, que serve como matéria-prima nessa produção, em meio aos conflitos no Oriente Médio e ao fechamento do estreito de Hormuz.
A Aesbe tem como associadas companhias como Sabesp, Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará), Cagepa (Companhia de Água e Esgotos da Paraíba), Cesan (Companhia Espírito Santense de Saneamento), Sanepar (Companhia de Saneamento do Paraná) e BRK.
O impacto mais direto de uma eventual suspensão é odontológico. Segundo Thiago Lucena, dentista e mestre em Odontologia pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o flúor presente na água ajuda a proteger os dentes contra os ácidos produzidos por bactérias e favorece a remineralização do esmalte.
“A suspensão temporária da fluoretação não significa que as pessoas vão desenvolver cárie imediatamente, mas retira uma importante camada de proteção coletiva”, afirma.
A fluoretação da água não depende da iniciativa individual. A proteção é oferecida de maneira coletiva, inclusive a pessoas que não utilizam regularmente creme dental fluoretado ou que têm menor acesso a consultas e tratamentos odontológicos.
Segundo Lucena, uma interrupção prolongada pode ser mais preocupante porque elimina progressivamente a exposição preventiva oferecida pela água. Um período curto, por outro lado, tende a ter consequência menor.
Helvécio Carvalho de Sena, consultor ambiental e doutor em saneamento básico pela USP (Universidade de São Paulo) faz avaliação semelhante. Para ele, uma interrupção de três meses, isoladamente, provavelmente teria impacto pequeno na saúde bucal. O problema está na possibilidade de o desabastecimento se estender.
“Se realmente fossem apenas 90 dias, a consequência seria pequena. A questão é se isso se prolongar, porque não sabemos quanto tempo durará o desabastecimento”, afirma.
Segundo o Ministério da Saúde, estudos apontam uma redução de cerca de 50% na prevalência da doença com a fluoretação, com maior impacto entre grupos vulneráveis.
Procurado pela Folha, o Ministério da Saúde afirmou que recebeu representantes da Aesbe e da Abcon (Associação Brasileira das Empresas de Saneamento) em 23 de julho para avaliar o cenário, orientar sobre medidas de contingência e apoiar a busca por fornecedores nacionais e internacionais. A pasta disse ainda que monitora os estoques de ácido fluossilícico no país.
“A suspensão do uso do ácido fluossilícico requer análises técnicas consistentes e a adoção de medidas de contingência, atualmente em análise pela pasta”, afirmou o ministério, acrescentando que a água fluoretada é recomendada pela OMS (Organização Mundial da Saúde).
Durante uma eventual interrupção, a principal recomendação para a população é manter medidas individuais de prevenção. Lucena orienta escovar os dentes pelo menos duas vezes ao dia com creme dental fluoretado.
Segundo o dentista, estudos internacionais indicam redução de aproximadamente 24% na progressão de cáries com o uso de creme dental fluoretado.
Também é recomendável reduzir a frequência do consumo de açúcar e manter consultas odontológicas, sobretudo para pessoas que já apresentam maior risco de cárie.
Embora o flúor também seja incorporado aos tecidos mineralizados, a suspensão da fluoretação da água não é considerada uma questão central para a saúde óssea.
Segundo Maurício Leite, ortopedista e cirurgião de mão e punho, não há evidência de que a falta de flúor provoque osteoporose, perda de massa óssea ou aumento de fraturas da mesma forma que ocorre com deficiência de cálcio ou vitamina D.
“Não devemos pensar no flúor como um ‘fortalecedor dos ossos. Para preservar a resistência óssea ao longo da vida, fatores como cálcio, vitamina D, exercício com impacto e fortalecimento muscular, além da prevenção de quedas, têm papel muito mais bem estabelecido”, diz.
Autor: Folha








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