
O Parlamento da Itália aprovou nesta quarta-feira (23), em Roma, o plano do governo da primeira-ministra Giorgia Meloni para permitir a retomada da produção de energia nuclear no país quase quatro décadas depois do fechamento das antigas usinas. O texto recebeu a aprovação definitiva do Senado por 81 votos a 51, com sete abstenções, e autoriza o governo a criar as regras necessárias para a construção e operação de novos reatores. A iniciativa é defendida pelo Executivo como uma forma de reduzir a dependência energética do exterior, ampliar a oferta de eletricidade e diminuir a exposição do país às oscilações dos mercados internacionais.
A proposta, apresentada pelo governo Meloni e pelo ministro do Meio Ambiente e da Segurança Energética, Gilberto Pichetto Fratin, já havia sido aprovada pela Câmara dos Deputados em 4 de junho. Com o aval do Senado, o projeto encerrou sua tramitação parlamentar.
A nova lei não significa que a Itália começará imediatamente a construir centrais nucleares. Ela estabelece o marco para a volta do setor e delega ao governo a elaboração das normas que vão definir como poderão funcionar as futuras instalações.
Entre os pontos que ainda precisarão ser regulamentados estão as autorizações para construção e funcionamento das usinas, a gestão dos resíduos radioativos e do combustível utilizado, as regras de segurança e a criação dos órgãos responsáveis pela fiscalização do setor. A legislação também prevê o uso da energia nuclear para a produção de hidrogênio.
Pichetto Fratin afirmou que o governo pretende concluir os decretos necessários para colocar a legislação em prática até o fim deste ano. Segundo o ministro, as primeiras novas centrais poderiam começar a funcionar entre 2033 e 2034, caso o cronograma avance conforme o planejado.
Governo aposta em reatores menores
A estratégia italiana não prevê simplesmente reconstruir o modelo das grandes usinas nucleares que funcionavam no país no século passado. O governo aposta principalmente nos chamados pequenos reatores modulares, conhecidos pela sigla SMR (Small Modular Reactors).
Esses equipamentos são projetados para ter potência e dimensões menores do que as centrais nucleares tradicionais e para permitir que parte de sua estrutura seja produzida em fábrica e posteriormente instalada no local de operação. A tecnologia ainda está em processo de expansão comercial em diferentes países, e o governo italiano espera utilizá-la a partir da próxima década.
Meloni classificou a aprovação como uma “escolha corajosa e de bom senso”. Segundo a primeira-ministra, a Itália atualmente importa eletricidade produzida em usinas nucleares de países vizinhos sem poder gerar essa energia dentro do próprio território.
Ela afirmou que a retomada poderá proporcionar maior segurança energética a famílias e empresas, reduzir a dependência externa e fornecer uma fonte estável de eletricidade com baixas emissões. Meloni também citou o aumento esperado no consumo provocado por data centers e pela expansão da inteligência artificial.
Itália abandonou energia nuclear após referendo de 1987
A Itália começou a abandonar a geração nuclear depois de um referendo realizado em novembro de 1987, pouco mais de um ano após o acidente de Chernobyl, na então União Soviética. O resultado abriu caminho para o fechamento gradual das centrais existentes.
A última usina nuclear italiana deixou de produzir eletricidade em 1990. Desde então, o país permaneceu sem geração nuclear própria, embora continue importando eletricidade de nações europeias que utilizam essa fonte.
Uma tentativa anterior de retomar o setor foi interrompida em 2011. Depois do acidente na central japonesa de Fukushima, os italianos rejeitaram em outro referendo os planos que poderiam permitir a construção de novas usinas.
O governo Meloni retomou o projeto nos últimos anos sob o argumento de que novas tecnologias permitem uma abordagem diferente daquela usada pelas antigas centrais.
Oposição critica prazo e tecnologia
A aprovação teve apoio dos partidos que compõem a coalizão de Meloni e também do partido de oposição Azione, de Carlo Calenda. O Partido Democrático, o Movimento 5 Estrelas e a Aliança Verdes e Esquerda votaram contra, enquanto o Italia Viva se absteve.
Parte da oposição questiona principalmente o prazo necessário para que as futuras centrais comecem a gerar eletricidade e argumenta que os pequenos reatores modulares ainda não estão disponíveis comercialmente em grande escala.
O deputado Angelo Bonelli, da Aliança Verdes e Esquerda, afirmou que a aposta nos SMRs não oferece resposta imediata aos elevados custos de energia enfrentados pelo país. Organizações como Greenpeace Itália, Legambiente e WWF Itália também criticaram a decisão e defenderam maior investimento em fontes renováveis.
O governo, por sua vez, sustenta que a energia nuclear deverá integrar o sistema italiano ao lado das fontes renováveis, e não substituí-las. Pichetto Fratin afirmou que a combinação das duas tecnologias é parte da estratégia para aumentar a autonomia energética e a competitividade do país.
Autor: Gazeta do Povo








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