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Jovens sul-coreanos usam sites falsos para simular compras – 30/07/2026 – Tec

Para jovens sul-coreanos preocupados com os gastos, a empolgação das compras online não exige mais que abram suas carteiras. “Sites de dopamina” —plataformas falsas de compras e delivery de comida— agora recriam o ritual de comprar algo sem nenhum pagamento ou entrega de verdade.

Antes de experimentar o aplicativo de delivery falso FoodNeverArrives (ComidaNuncaChega, em português), eu achava que essa última febre da internet era só uma jogada de marketing. Mas a experiência pareceu inesperadamente convincente.

Como um aplicativo de delivery de verdade, ele permite que os usuários naveguem por cardápios, leiam avaliações, encham um carrinho, digitem um endereço, façam um pedido e até rastreiem um entregador virtual. O detalhe é que nada nunca chega e nenhum dinheiro troca de mãos. Em vez disso, o aplicativo informa aos usuários quantas calorias eles “economizaram” por não fazerem um pedido real.

A desenvolvedora Park Seo-hyun, estudante universitária de 21 anos, conta que a ideia surgiu depois que ela se pegou abrindo e fechando aplicativos de delivery de comida tarde da noite. Seu vício em pedir comida, ela diz, fez sua conta de delivery ultrapassar 1 milhão de wons (cerca de R$ 3.400) em um único mês.

“Em muitos casos, tudo o que eu realmente queria era a sensação de fazer um pedido”, ela diz. “Uma vez que eu satisfazia essa vontade, não importava se a comida nunca chegasse de verdade.”

Desde que você não esteja com muita fome, ela está certa. Há algo estranhamente satisfatório em navegar por fotos de frango frito, pizza e sushi e fazer um pedido sem se preocupar com a conta.

Jeon Dahyen, coautora da série best-seller “Trend Korea”, compara os aplicativos de dopamina ao mukbang, em que os espectadores experimentam a comida de forma vicária assistindo outras pessoas comerem refeições elaboradas online em vez de consumirem qualquer coisa eles mesmos. Eles são, segundo ela, parte de uma “economia de atalhos” mais ampla, na qual as pessoas buscam recompensas emocionais online breves sem consequências de longo prazo.

Não são apenas sites falsos de delivery de comida que oferecem consumo virtual. Saja-lion é um site de compras fictício que lista itens curiosos e imaginários, incluindo um dispositivo de viagem no espaço-tempo, cupom de desejos e “pêssego da longevidade”.

Outro site oferece criar uma “pausa para fumar” virtual. Os usuários podem escolher um entre vários locais virtuais, ligar sons ambiente e passar cinco minutos assistindo um cigarro queimar lentamente enquanto outros usuários anônimos deixam mensagens curtas sobre seu trabalho, escola ou simplesmente sobre estarem cansados. Como não há nada para fazer além de esperar o cigarro se consumir, a experiência parece uma mini meditação.

O FoodNeverArrives tem uma versão em inglês. Mas, por enquanto, essa é principalmente uma tendência doméstica. Os sites refletem tanto a cultura altamente digital da Coreia do Sul quanto a crescente pressão financeira sobre os consumidores mais jovens.

O desemprego juvenil teve média de 7,1% no segundo trimestre, o maior para o período em quatro anos, enquanto a inflação ao consumidor acelerou para 3,2% em junho, a mais alta em dois anos e meio. Diante do aumento do custo de vida, moradia cara e um mercado de trabalho incerto, muitas pessoas estão procurando formas baratas de aliviar o estresse.

“Os indicadores econômicos mostram crescimento forte, especialmente no setor de semicondutores, mas muitos consumidores não sentem que a economia está melhorando”, diz Jeon. “Os jovens coreanos estão desestimulados a fazer grandes compras e estão procurando formas alternativas de satisfazer a vontade de comprar.”

A Coreia, ela acredita, é uma sociedade particularmente consumidora de tempo e energia. “Muitos jovens se esgotam facilmente porque a sociedade não permite nenhuma pausa. Eles estão buscando consolo através de sua imaginação digital de formas que não exigem muito dinheiro ou interação social.”

Comentaristas estão alertando os usuários para considerarem sua privacidade. Os aplicativos e sites frequentemente fornecem pouca informação sobre quem os opera ou como lidam com informações pessoais, embora Park diga que elas não são armazenadas em seu servidor.

O psicólogo Whang Sang-min também adverte contra exageros, mas reconhece que os sites refletem as frustrações dos coreanos mais jovens que cada vez mais sentem que a mobilidade social está escapando de seu alcance.

“Muitos jovens têm pouca esperança ou expectativa para o futuro”, ele diz. “Eles estão tentando encontrar alegria ou obter alguma dopamina à sua própria maneira.”

Autor: Folha

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