sexta-feira, outubro 16, 2026
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Pinhais

Li o livro de um amigo e terminei querendo abraçá-lo

Demorei para ler as 157 páginas de “Antes do Silêncio”. Uns seis meses. Assustador, eu sei. É que conheço o autor, do qual já fui amigo. Hoje estamos um tanto quanto afastados, mas não há hostilidade nem nada disso. Pelo contrário, o que há é certa tensão nostálgica entre nós, como se fosse difícil reconhecer que ambos mudamos. E é. Por isso foi difícil acompanhar o sofrimento do amigo que narra os últimos dias de vida da mãe. A mãe que também conheci. Só quando conseguia criar outro Rogério Pereira na minha cabeça é que o livro avançava.

Não me leve a mal. “Antes do Silêncio” é um dos livros mais bem-escritos que já li na minha vida. Sem correr o risco de parecer mais hiperbólico do que já sou, ouso dizer que não há no romance absolutamente nenhuma palavra fora do lugar. Todas as frases são, digamos, sublinháveis. É prosa escrita com intenção de verso. E a história, entremeada pelas angústias de um sobrevivente do Holocausto, é redondinha… ainda que seja cheia de arestas – se é que você me entende. E é nessas arestas que está o maior incentivo para alguém ler o livro.

Holocausto próprio

Rogério Pereira faz da morte da mãe um Holocausto próprio. E aqui é tentador dizer que não precisava ser assim. Não precisava ser assim. Quem diz isso é mais o amigo do que o leitor. Não julgo, porém, o sofrimento alheio; não se trata disso. Apenas penso, não consigo deixar de pensar, que o amor de Deus muitas vezes é incompreensível. Ainda mais quando se manifesta assim, na forma de um sofrimento que não esgota ou não deveria esgotar o significado da experiência. Prova disso é a fé da mãe, uma fé que o narrador menospreza. Considera superstição. É incrível! Está tudo ali e, no entanto, ele não enxerga. Queria tanto que ele enxergasse.

O problema é que alguém inventou essa coisa de que a tristeza é admirável e escrever coisas tristes, bem tristes, a ponto de levar o leitor às lágrimas, é coisa de gênio. E até pode ser. Aqui e ali. Mas não o tempo todo. Ah, se ao menos eu pudesse encontrar entre as frases perfeitas de “Antes do Silêncio” uma nesga de esperança. De contemplação. Até de gratidão. Mas o fato é que cheguei ao fim do livro querendo ir até Campo Largo para dar um abraço silencioso no autor. Com a sensação de ter vislumbrado a alma exposta do amigo. E me perguntando: será que eu, despido da fantasia de palhaço que me serve de escudo, também sou triste assim? Não sou. É bom chegar a esta conclusão.