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O ambientalismo cristão é o melhor ambientalismo

Domingo passado, além de dia de eleições no Brasil, foi a festa de São Francisco de Assis, que se tornou o, digamos, “santo padroeiro” das causas ambientais. Por isso, é em 4 de outubro que tradicionalmente termina o “Tempo da Criação”, um período especial adotado por várias igrejas e comunidades cristãs (independentemente do que elas pensem sobre a veneração aos santos) para a reflexão sobre nossa obrigação de cuidar do meio ambiente. Em sintonia com essa data, e porque no fim de semana passado não tivemos Tubo de Ensaio devido à periodicidade quinzenal, recordo o 4 de outubro recomendando Cultivando o jardim, do biólogo Tiago Pereira, coordenador nacional dos Grupos de Estudo da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência (ABC2) e líder do núcleo ABC2 Ecoteologia. O livro faz parte da nova coleção Fundamentos, lançada pela entidade (e meu exemplar foi cortesia da ABC2).

Já disse aqui, e repito: quem acha que preocupação ambiental é “coisa de esquerdista” foi enganado. Cristãos e conservadores em geral, infelizmente, se omitiram e deixaram que a esquerda praticamente monopolizasse essa pauta, e essa percepção se cristalizou graças a uma mentalidade identitária (no sentido mais amplo da palavra, não de wokismo) moderna muito louca que quase obriga as pessoas a comprarem “pacotes completos” para fazer parte do grupinho: se você é de direita/conservador, tem de ser pró-vida, a favor de armas, adepto do liberalismo econômico, “bandido bom é bandido morto” etc. etc. Se você é de esquerda/“progressista”, tem de defender aborto, ideologia de gênero, Estado ultraprovedor, censura, laxismo penal… e preservação ambiental. E esse monopólio acabou levando a uma outra ideia equivocada: a de que ambientalismo necessariamente tem de ser a versão que eu chamo de “ambientalismo bocó”, aquele que iguala ontologicamente todas as criaturas e considera o ser humano uma praga que faria muito bem ao planeta se apenas desaparecesse.

Obviamente, a realidade é muito mais multifacetada do que a turma do “pacote completo” quer fazer parecer, e o ambientalismo é muito maior que sua versão anti-humana promovida por um David Attenborough (fique com os documentários, descarte a ideologia). Tiago Pereira apresenta, no seu livro, as linhas gerais de um “ambientalismo cristão”, e eu vou além e digo que esse não é apenas um ambientalismo possível, mas o melhor ambientalismo que há, porque ele junta boa teologia, boa ecologia e boa antropologia. Trata-se de entender a criação e como ela é um trabalho cooperativo: Deus cria, Deus faz a criação criar (já repararam que em Gênesis 1,11 e 1,24 Deus não produz, mas manda a terra produzir?), e cria o homem para, entre outras coisas, ajudar a criação a criar. E trata-se também de entender o papel do ser humano nisso tudo: não uma criatura no mesmíssimo nível ontológico das outras, mas também não um déspota a quem Deus dá carta branca para fazer o que quiser com o mundo (a esse respeito, considero as reflexões de Bento XVI a melhor referência).

A esperança cristã de um novo céu e uma nova terra não é desculpa para não fazermos nada por esta terra