Já parou para pensar como a Meta, a dona do Facebook, Instagram e Whatsapp, é a maior nação digital do planeta, com 3,6 bilhões de usuários diários?
A Índia é o maior país do mundo em termos de população, com 1,47 bilhões de habitantes. Donald Trump lidera quase 350 milhões de pessoas.
Mas as decisões de Mark Zuckerberg influenciam diretamente a forma como 43% da população mundial comunica, se entretém, se informa e percebe o mundo. Um poder gigantesco, com enorme opacidade de métodos, já que os algoritmos que utiliza são ultrassecretos.
Em 2014, eu estive em reportagem na sede do Facebook, no Vale do Silício, e consegui entrevistar a pessoa que comandava a equipe de algoritmos, que me explicou como ele e os seus colegas determinavam quais os conteúdos que aparecem e são recomendados. Sim, o que eu e você vimos ou deixamos de ver nas plataformas.
Na verdade, não fiquei convencida de que o rapaz de boné na cabeça e lata de Coca-Cola na mão tivesse noção da dimensão daquele privilégio e o tamanho daquela responsabilidade, com impacto real na vida de cada um de nós, na sociedade e nas democracias.
Fiquei assombrada e isto foi ainda antes do escândalo de Cambridge Analytica, que viria a revelar que a nossa informação pessoal pode ser utilizada para manipulação política.
Desde então, as minhas preocupações não acalmaram. Pelo contrário, adensaram-se.
E o que se passou no Brasil na semana passada, no meio do segundo turno das eleições mais importantes da sua história democrática, é bem a prova disso.
A conta de Lula foi prejudicada por restrições inexplicáveis, que foram justificadas pela empresa como “problemas técnicos”. Era possível fazer um cartaz de Flávio Bolsonaro em IA, mas o mesmo não era possível para o petista.
Num tempo em que as campanhas políticas se fazem sobretudo no digital, o efeito que algo assim pode ter no desfecho de uma eleição é brutal. Pode ser decisivo.
Que os algoritmos não são neutros, já se sabia. A forma como estão desenhados assenta no objetivo de nos manter agarrados o máximo de tempo possível —é que o produto somos nós e a nossa atenção.
A técnica das plataformas passa a nos oferecer conteúdos que causam emoções fortes, jogando com os vieses que vêm com este cérebro ancestral. As coisas que chocam, indignam ou confirmam os nossos ressentimentos e preconceitos ressoam mais. As notícias falsas vão mais longe e espalham-se mais rápido. E isto vale ouro para os políticos oportunistas.
O Brasil tem sido determinado em impor limites às big techs. Só espero que dessa vez seja igualmente exemplar na resposta à Meta. Para o bem da democracia global.
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Autor: Folha








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