Os pedidos de recuperação judicial do grupo Casas Bahia e da Marabraz, ambos protocolados no último final de semana, inauguram mais um capítulo no histórico de crises que de tempos em tempos assombram gigantes do setor do varejo brasileiro.
A Casas Bahia tenta renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas, depois de oito trimestres consecutivos de prejuízo, mesmo após ter recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2024. Na semana passada, a rede anunciou o fechamento de 298 lojas e a demissão de cerca de 3 mil funcionários.
No caso da Marabraz, são cerca de R$ 140 milhões em dívidas que a empresa precisa renegociar. Por meio da recuperação judicial, as empresas, duas grandes varejistas do país, esperam conseguir preservar as operações.
Com os pedidos, as empresas se juntam a um grupo em que estão também Americanas, Grupo Pão de Açúcar, Casa & Vídeo e Tok&Stok, que entraram em recuperação judicial ou extrajudicial para evitar o fechamento nos últimos anos.
Outras marcas que chegaram a dominar o setor, em diferentes épocas, não tiveram o mesmo destino e acabaram desaparecendo, por irem à falência, encerrarem as operações por conta própria ou serem compradas por concorrentes. Relembre alguns casos:
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Mappin
Um dos principais representantes do varejo brasileiro de outrora, o Mappin foi criado em São Paulo no início do século 20 e logo se transformou em uma das principais lojas de departamentos do país. Ao longo das décadas, tornou-se referência para consumidores paulistanos e passou a vender praticamente de tudo, de roupas e móveis a eletrodomésticos e artigos para casa.
Nos anos 1990, entretanto, a companhia começou a enfrentar dificuldades. A concorrência de lojas especializadas e o crescimento dos shopping centers mudaram o ambiente em que as grandes lojas de departamentos haviam prosperado. Em 1995, o Mappin registrou prejuízo de quase R$ 20 milhões. No ano seguinte, foi vendido ao empresário Ricardo Mansur, que também controlava a Mesbla.
Mas a tentativa de recuperação da empresa fracassou. O Mappin encerrou as atividades em 29 de julho de 1999, com uma dívida estimada em R$ 1,2 bilhão e mais de 300 pedidos de falência, que acabou decretada no mesmo ano.
Mesbla
A Mesbla começou suas atividades no Rio de Janeiro em 1912 e chegou a ser uma das maiores redes de lojas de departamentos do Brasil. No auge, chegou a 180 lojas e mais de 28 mil funcionários. O conceito era o de um verdadeiro “shopping” dentro de uma única empresa: roupas, móveis, eletrodomésticos, artigos para casa e uma enorme variedade de outros produtos.
O problema foi que o modelo começou a perder competitividade justamente quando o varejo brasileiro passava por uma transformação profunda.
A hiperinflação dos anos 1980 levou a empresa a aumentar estoques para se proteger da alta de preços. Com a estabilização proporcionada pelo Plano Real, essa estratégia se tornou um peso. Ao mesmo tempo, lojas especializadas, shopping centers e novos concorrentes pressionavam a antiga estrutura das grandes lojas de departamentos.
A Mesbla entrou em concordata preventiva em 1995. Ricardo Mansur assumiu o controle em 1997, mas não conseguiu reverter a crise. A falência foi decretada em 1999, mesmo ano em que o Mappin também desapareceu.
Arapuã

A Arapuã tem uma história particularmente próxima da Casas Bahia, que cresceu a partir do crediário. Fundada em Lins, no interior de São Paulo, em 1957, a empresa cresceu vendendo principalmente eletrodomésticos e eletrônicos.
Na década de 1990, tornou-se uma das principais varejistas do país e rival direta da Casas Bahia e do Ponto Frio. No auge, tinha mais de 220 lojas, 2 mil funcionários e faturamento de cerca de R$ 1,6 bilhão.
O modelo, entretanto, dependia fortemente das vendas a prazo. O aumento da inadimplência e dos juros deteriorou as finanças da companhia. Em 1998, a Arapuã pediu concordata com dívidas que chegavam a aproximadamente R$ 1 bilhão.
A empresa tentou sobreviver fechando lojas, demitindo funcionários e diversificando produtos, mas não conseguiu cumprir o acordo com os credores. A falência foi decretada inicialmente em 2003, após uma longa disputa judicial. O processo chegou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e prolongou a sobrevida da marca até que a falência fosse novamente confirmada em 2020.
Casas da Banha

O fenômeno de quebras de gigantes também atingiu o varejo de alimentos. Fundada no Rio de Janeiro em 1955, a Casas da Banha chegou a ser a segunda maior rede de supermercados do Brasil. Em 1985, seu auge, tinha 224 lojas, mais de 20 mil funcionários e faturamento anual de US$ 700 milhões.
A rede ficou conhecida nacionalmente, em parte por patrocinar o programa do Chacrinha, sucesso de audiência nos anos 1980. Também foi responsável por um dos primeiros grandes hipermercados brasileiros.
A queda começou com os planos econômicos dos anos 1980. O congelamento de preços do Plano Cruzado atingiu em cheio a empresa, que trabalhava com margens apertadas. Na sequência, o confisco de depósitos e poupanças do Plano Collor agravou a crise de liquidez. A rede passou a vender lojas e ativos para pagar dívidas e encolheu rapidamente.
Em 1992, pelo menos 149 lojas já haviam sido vendidas ou devolvidas aos proprietários para o pagamento de dívidas. A falência foi decretada em 1999, a pedido da própria empresa.
Saraiva

Fundada em 1914, a Saraiva chegou a se tornar a maior rede de livrarias do país, com mais de 100 lojas. Com a aquisição da Siciliano, em 2008, dominava 20% do mercado editorial brasileiro.
A retração do setor, a transformação do mercado editorial – principalmente a migração das vendas para o comércio eletrônico – e o consequente endividamento levaram a companhia a pedir recuperação judicial em 2018, com um passivo de cerca de R$ 675 milhões.
Em 2023, a Saraiva fechou suas cinco últimas lojas físicas e, no mesmo ano a Justiça decretou sua falência.
Ricardo Eletro

Fundada em 1989, em Divinópolis (MG), por Ricardo Nunes, a Ricardo Eletro foi uma das grandes histórias de expansão do varejo brasileiro nos anos 2000. A rede cresceu por meio da abertura de lojas e de aquisições e, em 2010, uniu-se à baiana Insinuante para formar o grupo Máquina de Vendas
No auge, o conglomerado chegou a ter cerca de 1,2 mil lojas e 28 mil funcionários, tornando-se uma das maiores varejistas do país.
O crescimento, porém, veio acompanhado de forte endividamento. A Máquina de Vendas já enfrentava dificuldades financeiras antes da pandemia e havia recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2019.
A crise sanitária agravou a situação: com o fechamento das lojas físicas, a empresa chegou a perder mais de 90% do faturamento. Em agosto de 2020, a holding pediu recuperação judicial com dívidas de aproximadamente R$ 4 bilhões. A companhia fechou todas as suas cerca de 300 lojas físicas para concentrar a operação no comércio eletrônico.
Cerca de 3,5 mil funcionários foram demitidos. A Máquina de Vendas chegou a ter sua falência decretada em 2022, decisão que posteriormente foi suspensa pelo Tribunal de Justiça de São Paulo. Embora a empresa ainda mantenha sua operação digital, não há mais pontos de venda físicos com suas bandeiras.
Hermes Macedo

Antes de redes nacionais como Casas Bahia, Ponto Frio e Magazine Luiza ocuparem o mercado de eletrodomésticos, grandes grupos dominavam mercados regionais.
No Paraná, uma das marcas que passaram pelo ciclo do auge à falência foi a Hermes Macedo, também conhecida pela sigla HM. Fundada em Curitiba em 1932 pelo empresário Hermes Farias de Macedo, a empresa começou vendendo peças usadas de caminhões. Aos poucos, diversificou suas atividades e transformou-se em uma enorme rede de lojas de departamentos.
Nos anos 1980, chegou a 285 lojas em seis estados, tornando-se uma das maiores empresas varejistas brasileiras. O slogan “Do Rio Grande ao Grande Rio” sintetizava sua presença no Sul e no Sudeste.
A crise veio nos anos 1990. O Plano Collor derrubou as vendas, enquanto problemas de sucessão e disputas familiares agravaram a situação. A concorrência de redes como Casas Bahia, C&A e Riachuelo também aumentou a pressão sobre o grupo.
A empresa entrou em concordata em 1992. Depois de tentativas de reestruturação, a falência foi decretada em 1997.
Disapel

Outra marca que dominou o varejo de eletrodomésticos na região Sul foi a Disapel. A empresa paranaense chegou a ter 110 lojas espalhadas por Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e alcançou também o estado de São Paulo.
No fim dos anos 1990, porém, a situação financeira se deteriorou. A empresa entrou em crise e acabou reduzindo sua rede. Quando a falência foi decretada, em junho de 2000, ainda havia 81 unidades em operação. Na época, Casas Bahia e Ponto Frio adquiriram os pontos comerciais remanescentes da Disapel.
Imcosul

No Rio Grande do Sul, uma das marcas mais lembradas das décadas passadas é a Imcosul. Fundada em 1935, a empresa começou como uma loja de comércio diversificado e cresceu até se tornar uma das grandes redes varejistas do Sul.
Seu símbolo era um hipopótamo, e a marca chegou a manter forte presença em campanhas publicitárias e ações promocionais. No auge, a Imcosul tinha 62 lojas e cerca de 3 mil funcionários em território gaúcho e em Santa Catarina.
A empresa não conseguiu acompanhar a transformação do varejo dos anos 1990 e acabou falindo. Seu desaparecimento também é representativo da transição de uma época em que o consumidor do Sul tinha diversas redes regionais à disposição, antes da consolidação de gigante do varejo nacional.
J.H. Santos

Outra tradicional rede gaúcha foi a J.H. Santos, que tinha 21 pontos de venda quando sua falência foi decretada, em 1997. No mesmo ano, o Ponto Frio arrematou todas as unidades em leilão por R$ 460 mil.
As lojas empregavam 239 pessoas, e uma das condições do leilão era que o comprador desse preferência à contratação desses funcionários, além de pagar R$ 280 mil em salários atrasados.
Lojas Paraíso

De origem cearense, as Lojas Paraíso chegaram a ser uma das principais redes de móveis e eletrodomésticos do Nordeste. A empresa alcançou 57 lojas e 1.079 funcionários, com presença em quatro estados da região. Seu modelo de negócio tinha forte dependência do consumidor de renda mais baixa e das vendas a prazo.
Em 1998, a empresa pediu concordata após acumular uma dívida de R$ 67,3 milhões. Assim como ocorre com a Casas Bahia hoje, juros elevados, queda nas vendas e inadimplência estavam entre os fatores que pressionavam o caixa.
Em dezembro de 1999, quando restavam 19 lojas, a Justiça decretou sua falência, embora uma decisão posterior tenha suspendido temporariamente o fechamento de algumas unidades.
Outras gigantes regionais que ficaram pelo caminho
Nem todas as redes desapareceram com o mesmo grau de projeção nacional, mas algumas ajudam a dimensionar como a concentração do varejo atingiu diferentes mercados regionais.
Livraria Cultura
Fundada em São Paulo em 1947, a Livraria Cultura foi durante décadas uma das principais referências do mercado editorial brasileiro. A empresa cresceu para além da tradicional loja da Avenida Paulista e chegou a 18 unidades no país.
Em 2017, comprou a operação brasileira da francesa Fnac, justamente quando o mercado de livros passava enfrentava o avanço do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos dos leitores. Em 2018, entrou em recuperação judicial, com dívidas de cerca de R$ 285 milhões. A Justiça chegou a decretar a falência da empresa em 2023, mas a decisão foi posteriormente suspensa pelo STJ, onde o processo ainda não teve um desfecho.
Lojas Brasileiras
Concorrentes históricas das Lojas Americanas, as Lojas Brasileiras, ou Lobras, encerraram as atividades em 1999. Tinham 63 unidades em 20 estados e cerca de 6 mil funcionários, mas acumulavam aproximadamente R$ 100 milhões em dívidas. Neste caso, não houve falência decretada pela Justiça.
O controlador da marca, a família Goldfarb, decidiu encerrar a operação para preservar a saúde financeira da Marisa, que também pertencia ao grupo. Parte das lojas foi convertida para a bandeira que atua principalmente no comércio de vestuário feminino.
Jumbo Eletro
Braço de eletrodomésticos do Grupo Pão de Açúcar, também pertence a essa geração de redes que desapareceram. O grupo substituiu progressivamente a marca pela bandeira Extra, em uma mudança de estratégia que acompanhou a transformação do varejo brasileiro.
Ultralar
Criada em 1956 como braço varejista do Grupo Ultra, surgiu principalmente com a intenção da empresa de popularizar o fogão, até então raro no país, e impulsionar as vendas de botijões de gás. Em 1965 chegou a patrocinar, na TV Globo, o telejornal “Ultra Notícias”, que seria sucedido, anos depois, pelo Jornal Nacional.
Chegou a manter 44 lojas em São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Depois de ser vendida pelo grupo controlador, enfrentou dificuldades e encolheu para 17 unidades. A falência foi decretada em maio de 2000; a maior parte dos pontos acabou adquirida pela Casas Bahia.
Dudony
Do Paraná, a Dudony chegou a se tornar uma das principais redes regionais de móveis e eletrodomésticos, com 110 lojas no Paraná e em São Paulo. O crescimento, porém, veio acompanhado de forte endividamento, levando a companhia a entrar em recuperação judicial em 2008, com dívidas de aproximadamente R$ 105 milhões. O desaparecimento da empresa, no entanto, não se deu por falência: em 2009, os credores aprovaram a venda dos ativos da Dudony ao Grupo Silvio Santos, por cerca de R$ 33 milhões.
Autor: Gazeta do Povo








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