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Mexilhões podem acumular microplásticos e transmiti-los a humanos

Os mexilhões podem ser uma porta de entrada de microplástico no corpo humano, sugere estudo científico da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) publicado nesta segunda-feira (15). Esses moluscos vivem em costões rochosos na beira do mar e são apreciados em diversas receitas na gastronomia brasileira.

A contaminação acontece porque esses seres, que fazem parte da dieta humana, se alimentam filtrando a água e não conseguem distinguir microalgas ─ seus alimentos naturais ─ de microplásticos, elementos poluidores de mares e rios.

O estudo da Unirio foi publicado pela revista científica Ocean and Coastal Research (Pesquisa Oceânica e Costeira em inglês).

Apesar de ser em língua estrangeira, a Ocean and Coastal Research é um periódico brasileiro editado pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP). A divulgação foi feita em parceria com a Agência Bori, voltada a estudos científicos.

Coleta na praia

Para chegar às conclusões, os pesquisadores coletaram na Praia Vermelha, na zona sul do Rio de Janeiro, a espécie mexilhão marrom (Perna perna), muito popular na culinária.

Os mariscos foram levados para um laboratório da universidade, onde foram simuladas condições ambientais.

Para avaliar como os mexilhões filtrariam a água e se alimentariam de microalgas e microplásticos, eles foram divididos em três grupos.

Foram oferecidas aos grupos três opções de solução na água: apenas de microalgas; apenas de microplásticos; e misturada de microalga e microplástico.

A equipe analisou a água dos aquários após uma hora e constatou que os mexilhões consumiram os materiais de forma indiscriminada, conforme explicou à Agência Brasil a bióloga marinha e professora Raquel de Almeida Ferrando Neves, uma das coautoras do estudo.

“A gente conseguiu identificar que eles não têm percepção, não conseguem diferenciar partículas naturais e partículas de plástico”.

No tanque que continha a mistura, os mexilhões deixaram sobrar cerca de 48% das microalgas e 52% das esferas de plástico. Para os pesquisadores, os índices semelhantes comprovam a ausência de seletividade da espécie.

 


Rio de Janeiro -  O biólogo Jonas Leite, doutor em oceanografia, presidente do Instituto Meros do Brasil, mostra microplástico vindo do mar coletado na areia da praia de Botafogo. (Fernando Frazão/Agência Brasil)
Rio de Janeiro -  O biólogo Jonas Leite, doutor em oceanografia, presidente do Instituto Meros do Brasil, mostra microplástico vindo do mar coletado na areia da praia de Botafogo. (Fernando Frazão/Agência Brasil)

Poluição por plástico na Praia de Botafogo, no Rio de Janeiro – Fernando Frazão/Agência Brasil

Microplástico

Os microplásticos são fragmentos do material maior, o plástico, que, sob efeito do tempo e do sol, se quebram em micropartículas e acabam ficando na água, no solo e no ar.

Essas partículas podem se desprender de lixo no mar, como embalagens, garrafas, pneus, tecidos e revestimentos com tinta. As tintas, aliás, são fontes de elementos químicos presentes nesses fragmentos.

No fim de maio, a Agência Brasil noticiou que microplásticos foram encontrados em 93% de uma amostra de peixes no litoral do Paraná.

Outra pesquisa brasileira chegou a encontrar microplásticos em placentas e cordões umbilicais.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que o mundo enfrenta problemas relacionados à poluição por microplástico e defende mais pesquisas sobre o efeito dos fragmentos na saúde humana.

 


Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Pesquisadores do Projeto Costão Rochoso monitoram espécies como cracas e ouriços na zona entre-marés, que fica exposta na maré baixa e submersa na maré alta, no costão da Prainha, em Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Arraial do Cabo (RJ), 13/04/2026 – Pesquisadores do Projeto Costão Rochoso monitoram espécies como cracas e ouriços na zona entre-marés, que fica exposta na maré baixa e submersa na maré alta, no costão da Prainha, em Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Ecossistema no costão da Prainha, em Arraial do Cabo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Contaminantes

A professora Raquel Neves, do Departamento de Ecologia e Recursos Marinhos da Unirio, faz o alerta de que o microplástico pode ter muitos contaminantes de superfície.

“Isso, para a saúde humana, é sempre muito arriscado e perigoso, porque esses mexilhões são filtradores, e organismos filtradores acumulam contaminantes químicos”, detalha.

Uma das vencedoras da edição 2023 do Prêmio Para Mulheres na Ciência, concedido pelo Grupo L’Oréal, em parceria com a Academia Brasileira de Ciências e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), a bióloga aponta que o grau de presença de microplástico no organismo humano depende do tipo de dieta.

“Se uma pessoa consome esporadicamente, ela vai ter menos risco, menos exposição. Isso a gente chama de análise de risco de consumo. Se consome com muita frequência, estará mais exposta a esse determinado contaminante”, afirma.

Neves lembra ainda que, diferentemente de microrganismos patogênicos e parasitas gastrointestinais, o fato de cozinhar alimentos não é suficiente para reduzir os riscos à saúde.

No caso de biotoxinas, microplásticos, metais e contaminantes químicos, o cozimento não reduz os níveis de contaminação dos mexilhões.

Comportamento padronizado

A pesquisadora considera que, apesar de a amostra do experimento ter sido de uma localização específica no Rio de Janeiro, a constatação de que os mexilhões confundem microplástico com alimento vale para outras regiões.

“Essa espécie ocorre em qualquer lugar do litoral. Então, normalmente, não tem diferença de comportamento. Padrão de alimentação, padrão de taxa de filtração, isso não costuma variar de acordo com a localidade”, diz. “Varia mais dependendo da disponibilidade de alimento e da disponibilidade, nesse caso, de partículas de plástico”.

Soluções

Os pesquisadores da Unirio sustentam que, para proteger comunidades costeiras e frear a contaminação em cascata, são necessárias ações práticas que cortem a poluição na origem, como políticas públicas para reduzir o despejo de resíduos no mar e restringir massivamente a circulação de plásticos descartáveis.

A equipe defende ainda o monitoramento científico constante das áreas de maricultura, onde são cultivados organismos marinhos, como um dos caminhos viáveis para garantir que a economia e o consumo de frutos do mar sobrevivam com segurança no futuro.

Autor: Agência Brasil

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