“Pare de tirar os tijolinhos”, já pedem representantes de várias instituições do mercado ao Banco Central
Por Denise Abarca e Simone Cavalcanti
O muro de arrimo parece estar prestes a ruir. Não, não se trata de qualquer um, mas o da política monetária no Brasil, que foi construído tijolo a tijolo desde setembro de 2024, quando a taxa Selic subiu a 10,75%, de 10,50% onde estava estacionada. Chegou à altura de 15% em junho de 2025, a mais alta em 20 anos.
Era tão forte que cumpria seu papel de ancorar as expectativas futuras, com muitos economistas trabalhando, à época, com a possibilidade de inflação abaixo do centro da meta de 3% no meio do ano. Um céu de brigadeiro se avizinhava e o Banco Central começou então a retirar os tijolinhos. Devagar e cuidadosamente.
Só que a água voltou a subir e a ameaça real de que transponha a contenção vai exigindo que o Banco Central recomponha a barreira. As apostas para o que o Comitê de Política Monetária (Copom) chamou de ciclo de calibração da Selic vêm sendo fortemente revisadas para cima nas últimas semanas, diante do que parece ser uma tempestade perfeita: choques externos vindos do petróleo e das tarifas impostas pelos EUA, impulsos à economia adotados pelo governo, além do fenômeno El Niño que deve se colocar no caminho da boa safra e pressionar os preços dos alimentos.
A pressão é tamanha que as expectativas de inflação já se deterioraram para prazos mais longos, fora do alcance do horizonte relevante da política monetária, que atualmente é o quarto trimestre de 2027. Assim, o mercado vê cada vez menos espaço para que o Copom siga com o corte de juro.
“Pare de tirar os tijolinhos”, já pedem representantes de várias instituições do mercado financeiro ao BC. Nesse grupo estão, inclusive, aqueles que também já decidiram sobre a política monetária. Há quem não veja espaço sequer para nova queda da Selic na próxima semana.
A questão é que a Selic em 14,50% segue produzindo estragos no setor produtivo e no mercado de crédito, na medida em que os juros reais elevados vêm inviabilizando captações de recursos e decisões de investimentos. Caso o Copom opte por manter a Selic, a grita dos empresários, já indignados com o avanço do projeto do fim da escala 6×1, e do governo será grande. Por outro lado, se a barreira estiver baixa, corre o risco de a água invadir.


















