Do cruzamento da tara pelo melhoramento humano com a tara pela tecnologia nasce o promissor mercado dos peptídeos. Tecnicamente, tratam-se de cadeias curtas de aminoácidos conectadas por ligações peptídicas, com supostas propriedades tão diversas quanto recuperação tecidual, estimulação hormonal, perda de gordura, melhora da cognição, aumento da libido e da longevidade. No embalo das “canetas emagrecedoras” —o primo rico dos peptídeos—, essa nova classe de substâncias é a aposta da vez do mundo fitness, hábil em criar (e frustrar) expectativas de bem-estar e rejuvenescimento.
Basta um breve giro pelas redes sociais para encontrar influencers —entre eles médicos e outros profissionais da saúde— vendendo peptídeos como atalhos injetáveis para resultados rápidos e duradouros. Mas esse mercado não é movido apenas por especulação e marketing agressivo. O atual secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., declarou-se publicamente um “grande fã” dos peptídeos, dos quais afirma ser usuário.
Para contornar o que chama de supressão agressiva da FDA contra produtos voltados à promoção da saúde humana, RFK vem se movendo para facilitar o acesso aos peptídeos, reclassificando-os como suplementos ou substâncias manipuláveis, livres dos controles rigorosos a que se sujeitam os medicamentos. A medida ignora a flagrante escassez de evidências que sustentem a eficácia e a segurança da vasta maioria dessas substâncias.
Em estudos conduzidos pelo nosso Centro de Medicina do Estilo de Vida (USP), temos verificado uma crescente busca pelos peptídeos, comercializados à margem da regulação sanitária.
Um dos mais populares é o “Wolverine Stack”, terapia que combina dois peptídeos (BPC-157 e TB-500) com a promessa de cura acelerada de tendões e músculos. A alusão seduz, mas ainda não há evidências de novos X-Men circulando entre nós.
Importa lembrar que esses compostos são frequentemente usados em combinação com outras substâncias potencialmente nocivas à saúde, como álcool, cocaína, esteroides anabolizantes, insulina e estimulantes sexuais. Não há “hormonólogo” capaz de prever os efeitos de uma mistura como essa, embora seja razoável supor que os riscos sejam inevitáveis.
Jorge Hallak, experiente urologista e andrologista da USP, relata um caso grave envolvendo o peptídeo PT-141 (bremelanotida), aprovado para o tratamento do desejo sexual hipoativo em mulheres. Após a administração subcutânea da substância, um homem adulto desenvolveu ereção prolongada por cerca de 24 horas, resultando em intensa fibrose peniana e disfunção erétil. A implantação de prótese peniana tornou-se a única alternativa terapêutica capaz de restabelecer a função sexual. Para Hallak, “os novos peptídeos representam uma ameaça à saúde pública, e a população precisa ser urgentemente esclarecida sobre os riscos”.
Monique Gonçalves, do nosso centro, que tem pesquisado usuários de drogas para melhoramento de desempenho, abre outra perspectiva: “além dos riscos clínicos, chama atenção como certas masculinidades atravessam esses relatos, objetificando o corpo feminino —em um deles, afirma-se que o marido ‘obrigatoriamente tem que aplicar (o peptídeo PT-141) na mulher’, o que revela uma tácita vinculação dessas drogas a violências de gênero“.
Campanhas informativas, regulação sanitária e acolhimento aos usuários são caminhos elementares para conter o uso indiscriminado desses novos peptídeos. Mas, enquanto persistir o fetiche pelo melhoramento humano, novas tecnologias continuarão a surgir. Em algum momento, então, devamos perguntar: elas estão nos tornando humanos melhores?
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Autor: Folha




















