domingo, julho 26, 2026
11.2 C
Pinhais

Ondas de calor: a polêmica do ar-condicionado na Europa – 26/07/2026 – Marcelo Leite

Quem leu por aí que Elon Musk atribui centenas de milhares de mortes da onda de calor à suposta resistência ideológica europeia a aparelhos de ar-condicionado (AC) talvez não saiba da missa nem um terço. É ainda mais calhorda do que parece.

Para início de conversa, não foi o trilionário negacionista que a iniciou, mas um tal de Claude. Ou melhor, um tal de Patrick Collison na rede X, que perguntou à inteligência artificial (IA) sobre controvérsia acerca do AC na Europa e colheu do agente com nome pedante a seguinte pérola, retuitada por Musk:

“A conclusão: Os europeus deveriam simplesmente instalar AC. A preocupação com emissões é insignificante no contexto, a tecnologia funciona, o custo por vida salva é excelente e a resistência cultural é um vestígio de um clima que, como colocou o CCC [Comitê de Mudança Climática], não existe mais. O discurso elaborado em torno de ‘paradoxos do resfriamento’ e ‘direitos sociais ao conforto térmico’ é, em grande parte, uma forma de processar o desconforto psicológico de admitir que a abordagem americana para o verão estava correta o tempo todo”.

A IA compra pelo valor de face e revende com lucro a fabulação que culpa as vítimas: europeus estariam morrendo como moscas abatidas pela canícula porque se recusam a instalar AC. Como prova, repete-se que 90% dos domicílios nos EUA têm refrigeração, contra meros 20% no Velho Continente (supõe-se que povoado por luditas dispostos a morrer para sustentar a “farsa do aquecimento global”).

A parte válida da invencionice de Claude está no trecho “vestígio de um clima que não existe mais”. Europeus têm menos AC porque até as ondas de calor turbinadas pelo aquecimento global prescindiam dele. Não é verdade que governantes intervencionistas penalizem a refrigeração; a alegação partiu de Marine Le Pen, candidata direitista francesa que circula de tornozeleira eletrônica.

O contraste entre 90% e 20% comprova que estatísticas podem ser a maneira mais malévola de deturpar a verdade, acima das mentiras cabeludas. Em sua generalidade, o dado oculta detalhes que desmontariam a própria tese se houvesse mais senso crítico.

Na domínio mediterrâneo, onde sempre fez calor, a proporção de casas com AC é mais alta: 40% na Espanha, 60% na Itália, mais de 70% na Grécia. A França, rebaixada a 25%, exibe taxas comparáveis às gregas na região litorânea de Marselha. AC é raro nos países do norte, o que puxa a média europeia para baixo.

Mesmo nos EUA há diferenças regionais. No sul a refrigeração é universal, mas no estado de Washington, a noroeste, são dois terços de casas com AC.

A direita negacionista nunca menciona que governos europeus têm implementado medidas para refrescar a população nas ondas de calor, incluindo AC em locais prioritários, como hospitais e lares de idosos. Omite também que aparelhos de AC, se resfriam ambientes fechados, expelem ar quente no espaço público, contribuindo para agravar o efeito ilha de calor que inferniza grandes cidades.

Isso para não falar das emissões de carbono da demanda ampliada por eletricidade, que em alguns países forçará a queima de mais combustíveis fósseis. AC é recurso local de adaptação, mas nunca será solução para a crise global do clima.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas