O uso de informações públicas para treinar modelos de inteligência artificial não infringe leis, afirmou Varun Shetty, vice-presidente de parcerias de mídia da OpenAI, nesta terça-feira (2), durante o congresso anual da Wan-Ifra (Associação Mundial de Editores de Notícias).
O discurso foi feito um dia após o publisher do New York Times, A.G. Sulzberger, dizer que os chatbots praticam “um roubo descarado de propriedade intelectual em escala sem precedentes”, na abertura do principal evento de editores de jornais do mundo, realizado em Marselha, no sul da França.
“Discordamos respeitosamente daqueles que argumentam que esse uso é ilegal”, disse Shetty. “Acreditamos que a natureza transformadora, a inovação e a utilidade pública desses sistemas são coerentes com a lei de direitos autorais, como os tribunais dos EUA têm repetidamente reconhecido.”
O executivo afirmou que quis abordar o tema no início de sua fala durante um congresso que reúne 99 empresas do setor porque essa discussão “pode ser pintada com pinceladas amplas e generalizantes”, em outra resposta indireta ao publisher do jornal americano.
“Para ser claro, a busca no ChatGPT é uma parte em evolução do nosso produto, e buscar notícias no ChatGPT é uma parte muito pequena de como as pessoas usam a experiência”, disse Shetty.
A OpenAI é a criadora do ChatGPT, um dos principais chatbots de inteligência artificial generativa, e o New York Times move uma ação contra a empresa e a sua parceira comercial Microsoft por roubo de propriedade intelectual. As companhias de tecnologia negam a denúncia.
No fim do mês passado, a Folha e o UOL anunciaram o primeiro acordo comercial entre empresas de mídia brasileiras e a OpenAI. A parceria, que viabiliza o fornecimento de conteúdo jornalístico de qualidade para o ecossistema de inteligência artificial da empresa de tecnologia, encerrou a ação judicial movida pela Folha contra a startup, em que requeria o fim da coleta e do uso, sem autorização e pagamento, do conteúdo do site.
Sulzberger pediu uma resposta conjunta da imprensa à mineração de dados sem compensação financeira feita pelas big techs.
“Como resultado, temo que estejamos caminhando para um futuro com cada vez menos jornalistas para fazer o trabalho caro e difícil da reportagem original: ir a lugares, conversar com pessoas, investigar informações, cobrir questões e eventos importantes, fornecer contexto e análise, investigar os poderosos”, disse o publisher no mesmo congresso.
Shetty declarou que a missão da OpenAI é garantir que a inteligência artificial beneficie a humanidade. “A missão de vocês [jornalistas] está conectada a informar as pessoas e apoiar sociedades democráticas saudáveis. Acreditamos fortemente que a missão importa, e queremos que nossas ferramentas também estejam a serviço dela.”
O executivo afirmou que passou a maior parte da carreira apoiando e trabalhando na indústria da mídia, inclusive em colaboração com o New York Times, e disse que a discussão sobre atribuição de conteúdo jornalístico em produtos de IA é importante, mas não deve dominar toda a conversa.
O vice-presidente argumentou que a OpenAI aprimorou o chatbot com base nas demandas dos jornais, incluindo o botão que direciona para a fonte original do conteúdo, e afirmou que os benefícios da tecnologia nem sempre são dimensionados corretamente.
“Dizemos coisas como ‘aumento de eficiência’, que é realmente um termo genérico que mascara o trabalho verdadeiramente transformador que está acontecendo, quando na verdade estamos vendo iniciativas significativas em tantas áreas.”
Tom Rubin, chefe de propriedade intelectual e conteúdo da OpenAI, também discursou no evento e afirmou que um dos objetivos da companhia é capacitar repórteres e veículos de notícias.
“Não ditamos, não impomos, e infelizmente não podemos resolver todos os problemas que a indústria jornalística vem enfrentando nos últimos 20 anos, muito antes da inteligência artificial. Mas apoiamos e empoderamos vocês para fazer isso”, disse. “Esse é o poder da tecnologia, e esse impacto positivo é inquestionável e já está sendo usado por tantos de vocês.”
Shetty citou exemplos de jornais que incorporaram a inteligência artificial nas tarefas diárias e relataram benefícios. Segundo o executivo, o Codex, agente de codificação feito com tecnologia do ChatGPT, impacta positivamente as redações ao melhorar a produtividade dos jornalistas, aprimorar ferramentas organizacionais e criar novas experiências para os leitores.
“Isso pode significar resumir documentos, preparar perguntas para entrevistas, traduzir material de fontes, analisar planilhas ou organizar pesquisas”, disse.
“O ponto importante é que a IA não está tomando decisões editoriais, não está decidindo o que é verdade, o que importa ou o que deve ser publicado. O que ela pode fazer é reduzir o trabalho em torno dessas decisões. E, em muitas redações, tempo é o recurso mais escasso. Se uma ferramenta transforma uma hora de trabalho repetitivo em 10 minutos, esse é o tempo que pode voltar para o jornalismo e reportagens originais.”
Leia a seguir os destaques dos pronunciamentos.
Varun Shetty, vice-presidente de parcerias de mídia da OpenAI
Esta é uma conversa cheia de nuances, uma que com muita facilidade e frequência, inclusive nesse palco nesse congresso, pode ser pintada com pinceladas amplas e generalizantes que não conseguem capturar tanto do progresso que fizemos juntos e das possibilidades em torno do trabalho que poderíamos fazer juntos.
Passei a maior parte da minha carreira apoiando e trabalhando com a indústria de notícias e mídia em oportunidades tecnológicas, incluindo ter trabalhado com o New York Times.
A missão da OpenAI é garantir que a inteligência artificial beneficie toda a humanidade. A missão de vocês está conectada a informar as pessoas e apoiar sociedades democráticas saudáveis. Acreditamos fortemente que a missão importa. E queremos que nossas ferramentas também estejam a serviço dela.
Nosso princípio fundamental ao trabalhar com a indústria de notícias é apoiar um ecossistema de notícias saudável, ser um bom parceiro e criar oportunidades mutuamente benéficas. Essa é nossa estrela-guia e o motivo pelo qual continuamos aparecendo em conversas como esta. Mas além do diálogo, fizemos investimentos reais e trabalhos reais com editores.
Estamos animados para fazer mais desse trabalho em parceria com a indústria de notícias. Acreditamos fundamentalmente que é importante conectar os usuários do ChatGPT com informações confiáveis de editores de notícias quando eles buscam informações sobre eventos recentes. Para ser claro, a busca no ChatGPT é uma parte em evolução do nosso produto, e buscar notícias no ChatGPT é uma parte muito pequena de como as pessoas usam a experiência.
Construímos nosso produto de busca com feedback da indústria, incluindo citações e atribuições claras e oportunidades para as pessoas clicarem e irem à fonte original. Estamos, é claro, evoluindo essa experiência ao longo do tempo, melhorando-a e tornando-a melhor, e acreditamos que haverá oportunidades para aumentarmos o valor para os editores enquanto também atendemos às necessidades dos nossos usuários.
Fomos transparentes sobre quais rastreadores usamos e quais são seus propósitos para que os editores possam tomar decisões informadas.
Se você quiser participar do nosso produto, você pode. Se você não deseja participar, respeitamos essa decisão também. Se você está encontrando casos em que isso não está acontecendo, levamos isso extremamente a sério.
Também sabemos que há uma área onde alguns publishers discordam fortemente de nós: o uso de informações publicamente disponíveis no treinamento de modelos de IA. Quero ser muito direto sobre isso.
Discordamos respeitosamente daqueles que argumentam que esse uso é ilegal. Acreditamos que a natureza transformadora, a inovação e a utilidade pública desses sistemas são consistentes com a lei de direitos autorais, como os tribunais dos EUA têm repetidamente reconhecido.
Claro, as questões de plataforma e distribuição importam, porque os editores precisam entender como seu trabalho aparece em produtos de IA, como a atribuição funciona e qual valor retorna. Mas não acho que isso possa ser toda a conversa.
Tom Rubin, chefe de propriedade intelectual e conteúdo da OpenAI
Nosso objetivo é empoderar repórteres e veículos de notícias. Empoderamos vocês ao permitir que pesquisem matérias com ainda mais profundidade, compreendam seus negócios com ainda mais profundidade e se conectem com seus leitores com ainda mais profundidade. Esse é o poder da tecnologia, e esse impacto positivo é inquestionável e já está sendo utilizado por tantos de vocês.
Não ditamos, não impomos, e infelizmente não podemos resolver todos os problemas que a indústria de notícias vem enfrentando nos últimos 20 anos, muito antes da inteligência artificial. Mas apoiamos e empoderamos vocês para fazer isso.
A plataforma de inovação vem de nós, mas muitas das oportunidades de inovação são construídas e realizadas por todos vocês, como deve ser. Vocês conhecem seus negócios, vocês conhecem seus públicos e vocês conhecem suas necessidades.
Autor: Folha








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