
Em 2026, o Brasil escolherá presidente da República, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Ainda assim, milhões de brasileiros talvez façam outra escolha: simplesmente não votar.
Embora o voto seja obrigatório, a abstenção eleitoral tornou-se um fenômeno estrutural no país. Nas eleições municipais recentes, ela ultrapassou 30% em diversas capitais brasileiras. Em Porto Alegre, chegou a 34,8%; em Belo Horizonte, 31,9%; e, em São Paulo, 31,5%. Em algumas cidades, a soma de abstenções, votos brancos e nulos já se aproxima da votação obtida pelos próprios candidatos vencedores. A explicação para esse fenômeno não é apenas política. É também econômica.
A tradição da Public Choice – associada a autores como James Buchanan, Anthony Downs e Gordon Tullock – parte de uma ideia simples: eleitores respondem a incentivos. Votar envolve custos – tempo, deslocamento, busca de informação e esforço cognitivo –, enquanto os benefícios percebidos frequentemente parecem limitados.
Quando o eleitor conclui que seu voto terá pouco impacto concreto sobre o resultado das eleições ou sobre a qualidade das políticas públicas, a abstenção passa a ser racional do ponto de vista individual.
Anthony Downs formulou essa hipótese clássica em An Economic Theory of Democracy (1957). Segundo ele, o eleitor realiza implicitamente um cálculo de custo-benefício. Em democracias de massa, a probabilidade de um único voto alterar o resultado é extremamente pequena. Assim, quando cresce a percepção de que “nada muda” ou de que “todos os candidatos são parecidos”, o incentivo para participar diminui.
Nas eleições de 2026, esse cálculo torna-se ainda mais complexo. O eleitor brasileiro precisará avaliar dezenas de candidatos, múltiplos partidos e diferentes disputas simultaneamente. Trata-se de um enorme custo informacional.
Quando parte do eleitorado conclui que segurança, educação, saúde e crescimento econômico continuarão insatisfatórios independentemente do resultado eleitoral, o voto perde relevância prática e política
É aqui que surge o conceito de “ignorância racional”. Informar-se adequadamente sobre política exige tempo, energia e atenção. Em um ambiente dominado por excesso de informação, redes sociais, campanhas emocionalmente polarizadas e fake news, muitos eleitores concluem que o custo de separar informação de propaganda tornou-se alto demais.
O problema se agrava em um dos sistemas partidários mais fragmentados do mundo democrático. Mesmo após reformas eleitorais recentes, o eleitor continua diante de alianças pouco coerentes, partidos sem identidade programática clara e candidatos que frequentemente mudam de posição conforme a conveniência política. Para muitos brasileiros, o sistema parece confuso, opaco e difícil de acompanhar.
Outra hipótese relevante vem da teoria do eleitor mediano. Em eleições altamente competitivas, candidatos tendem a moderar seus discursos para conquistar o centro político. O resultado pode ser um paradoxo: embora a política brasileira pareça cada vez mais polarizada no plano retórico e emocional, muitos eleitores percebem baixa diferença concreta entre os resultados produzidos pelos governos.
Esse sentimento ajuda a explicar parte do desencanto atual. Problemas como violência, baixo crescimento econômico, precariedade da saúde pública, mobilidade urbana e baixa qualidade educacional persistem há décadas, independentemente da alternância de poder. Quando o eleitor conclui que o Estado possui baixa capacidade de transformação efetiva, o voto perde parte de sua utilidade prática.
Há ainda o chamado comportamento de free rider. Como os benefícios da democracia são coletivos, alguns eleitores podem decidir não participar esperando que outros escolham os governantes por eles. O custo individual de votar parece elevado, enquanto os benefícios das decisões públicas serão compartilhados por toda a sociedade.
Já a teoria do voto expressivo, desenvolvida por Geoffrey Brennan e Loren Lomasky, sugere que muitas pessoas votam para expressar identidade, valores e pertencimento político. O problema surge quando o eleitor não se sente representado por nenhum candidato ou passa a perceber o sistema político como pouco responsivo, ineficiente ou excessivamente orientado a interesses organizados.
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É justamente nesse ponto que entram as teorias de rent-seeking e do agente-principal. Quando cresce a percepção de que parte da política funciona prioritariamente para preservar privilégios, proteger grupos específicos ou ampliar benefícios concentrados, os incentivos à participação diminuem.
Corrupção, baixa transparência e reduzida accountability elevam o custo moral do voto. O problema não é apenas ético. É também econômico. Quando parte do eleitorado conclui que segurança, educação, saúde e crescimento econômico continuarão insatisfatórios independentemente do resultado eleitoral, o voto perde relevância prática e política.
Isso não significa que a abstenção seja desejável. Democracias dependem de participação política e confiança institucional. Mas a teoria econômica oferece uma conclusão desconfortável: em determinados contextos, não votar pode ser uma decisão racional.
As eleições de 2026 talvez revelem um problema mais profundo do que a própria polarização política. Democracias não começam a se desgastar apenas quando os eleitores escolhem maus governantes. Elas também se fragilizam quando milhões de cidadãos passam a acreditar que participar já não altera o rumo das coisas. Os atuais candidatos, institutos de pesquisa e partidos políticos terão de levar o fenômeno da abstenção muito mais a sério em seus cálculos e projeções.
Giacomo Balbinotto Neto é professor do Programa de Pós-Graduação em Economia (PPGE/UFRGS) desde 2000 e pesquisador na área de crescimento econômico. Atualmente, é professor de Macroeconomia II da FCE/UFRGS e revisor técnico de livros de economia.
Autor: Gazeta do Povo








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