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Por que os jogadores de futebol se machucam tanto? – 24/06/2026 – Equilíbrio

Era noite de sábado, 6 de junho, e a seleção brasileira enfrentava o Egito em um amistoso preparatório para a Copa do Mundo. Aos 15 minutos do primeiro tempo, Wesley sentou no gramado e pediu atendimento médico. Ele havia lesionado o músculo adutor da coxa esquerda e estaria fora da Copa. Éderson foi convocado para substituí-lo.

Wesley está longe de ser uma exceção. Dois nomes importantes da seleção também enfrentam problemas físicos nesta Copa. Raphinha sofreu uma lesão na parte posterior da coxa direita durante a partida contra o Haiti e ficará fora do confronto contra a Escócia nesta quarta-feira (24).

Neymar se recupera de uma lesão muscular grau 2 na panturrilha direita, sofrida em 17 de maio, quando defendia o Santos contra o Coritiba. O camisa 10 ficou fora dos jogos contra Marrocos e Haiti, e sua presença contra os escoceses é incerta.

Os três casos têm algo em comum: são lesões musculares, o problema de saúde mais frequente atualmente entre jogadores profissionais de futebol, segundo especialistas ouvidos pela Folha.

As lesões musculares ocorrem quando as fibras responsáveis pela contração e pelo relaxamento dos músculos são submetidas a uma carga superior à que conseguem suportar. Isso pode provocar desde um estiramento leve até um rompimento parcial ou completo das fibras.

Os médicos costumam classificar essas lesões em três graus. No grau 1, há apenas um estiramento leve, com poucas limitações funcionais. No grau 2 ocorre uma ruptura parcial das fibras musculares, provocando dor mais intensa e dificuldade para realizar movimentos.

Já o grau 3 corresponde a uma ruptura extensa ou completa do músculo, situação que demanda um período muito maior de recuperação. Em algumas classificações há ainda o grau 4, para descrever lesões ainda mais graves do que as de grau 3.

Para Moisés Cohen, presidente do Comitê Médico Esportivo da FPF (Federação Paulista de Futebol) e professor titular de ortopedia e traumatologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), as lesões musculares lideram as estatísticas dos times.

“O futebol mudou muito. O que antes era chamado de ‘futebol arte’ hoje é ‘futebol força’. Existe uma intensidade muito maior, aquela vontade de ganhar, e o jogo acaba ficando muito mais agressivo porque o atleta está jogando no seu limite fisiológico”, diz.

Além disso, fatores como excesso de partidas, pouco tempo para recuperação, viagens frequentes, calor intenso e pressão por resultados contribuem para aumentar o risco de lesões.

“A Copa do Mundo é um torneio curto, mas extremamente exigente. Os atletas precisam atuar em alta performance em um intervalo muito pequeno entre as partidas, muitas vezes com apenas três ou quatro dias para recuperação”, acrescenta.

Nesta edição há ainda um fator adicional: o deslocamento. Como os jogos estão distribuídos entre Estados Unidos, México e Canadá, algumas seleções precisam percorrer longas distâncias entre uma partida e outra, enfrentando mudanças de clima, altitude, fuso horário e rotina de treinamento. Essa combinação aumenta significativamente o desgaste físico dos jogadores.

O médico do esporte Páblius Braga, do Hospital Nove de Julho, afirma que as próprias características do esporte tornam praticamente impossível eliminar o risco de lesões entre os jogadores.

“O futebol é um esporte bastante complexo porque você não tem movimentos lineares. Há muitas variáveis. O jogador precisa de mobilidade ao extremo, e naquele momento ele não vai poupar um movimento para ir atrás da bola ou de um adversário”, afirma.

“Mesmo atletas muito bem preparados continuam sujeitos a lesões ao longo da carreira. O treinamento, a preparação física e o trabalho preventivo reduzem o risco, mas não conseguem eliminá-lo totalmente.”

Um estudo conduzido por pesquisadores da Unifesp identificou 577 lesões musculares em jogadores das séries A e B do Campeonato Brasileiro entre 2016 e 2018. Essas lesões corresponderam a cerca de 35% de todos os problemas físicos registrados nos campeonatos.

Os músculos posteriores da coxa (isquiotibiais) foram os mais afetados. Os laterais apareceram como a posição mais vulnerável a esse tipo de problema.

A maioria das ocorrências foi classificada como de gravidade moderada, exigindo afastamento dos gramados por um período de oito a 28 dias. O estudo também mostrou que o trecho da partida com maior concentração de lesões foi entre os 61 e os 75 minutos de jogo.

Depois das lesões musculares, os problemas nos ligamentos aparecem entre os mais frequentes entre os jogadores. O principal deles envolve o LCA (ligamento cruzado anterior), uma estrutura localizada no joelho que é responsável por controlar os movimentos de rotação e garantir a estabilidade da articulação.

Esse tipo de lesão costuma ocorrer quando há mudanças bruscas de direção, giros repentinos ou aterrissagem após saltos, movimento frequente dos laterais. Os sintomas incluem dor intensa, inchaço, sensação de instabilidade e dificuldade para realizar movimentos de rotação.

Quando ocorre um rompimento completo, o tratamento geralmente exige cirurgia para reconstrução do ligamento, seguida de um longo período de reabilitação, que pode levar de seis meses a um ano, dependendo da gravidade do caso e da resposta do atleta ao tratamento.

“Mesmo que seja parcial, o tempo de recuperação pode passar de seis meses a um ano. Por isso, não é raro ouvir que um jogador lesionado só deverá retornar na temporada seguinte. O atleta precisa recuperar força, estabilidade, coordenação e readquirir os gestos esportivos específicos do futebol”, diz Braga.

O atacante Rodrygo sofreu uma ruptura do LCA associada a uma lesão no menisco em março, durante uma partida do Real Madrid. A contusão exigiu cirurgia e o tirou não apenas da Copa do Mundo, mas também de grande parte dos jogos de 2026.

Embora possam atingir qualquer atleta, algumas lesões estão relacionadas às características de cada posição. Jogadores que dependem de velocidade, explosão e arrancadas frequentes, como atacantes e pontas, tendem a sofrer mais com problemas na musculatura posterior da coxa e na panturrilha.

O atacante Estêvão sofreu uma lesão justamente no bíceps da coxa numa partida pelo Chelsea contra o Manchester United.

Já atletas que disputam muitas bolas aéreas, como zagueiros, costumam sobrecarregar mais a musculatura anterior da coxa e os tendões ligados ao joelho.

Segundo Braga, as lesões ocorrem frequentemente durante treinamentos e jogos. Nesses casos, o atendimento imediato é fundamental para proteger a área lesionada. “Quanto mais rápido for feito esse controle, melhores tendem a ser as condições para a recuperação.”

Autor: Folha

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