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PrEP injetável tem maior adesão e menor exposição ao HIV – 25/09/2026 – Equilíbrio e Saúde

O cabotegravir, PrEP (profilaxia pré-exposição) injetável que deve ser disponibilizada no SUS (Sistema Único de Saúde), oferece maior cobertura e menor incidência de HIV, segundo um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) publicado nesta quinta-feira (24) na revista Lancet.

O resultado indica que a PrEP injetável oferece maior tempo de proteção ao público-alvo por se tratar de uma medicação de maior duração, com aplicação a cada dois meses. A profilaxia oral, por sua vez, exige a ingestão diária de comprimidos, aumentando o risco de exposição por esquecimento.

O estudo acompanhou 1.447 usuários do SUS e constatou que os participantes adeptos à PrEP injetável ficaram protegidos em 91% do acompanhamento, enquanto os que aderiram à PrEP oral tiveram 47% de proteção –percentual que, apesar de menor, ainda é maior do que se observa na rotina do sistema público, de 35%.

A taxa de incidência de HIV entre os grupos também teve diferença significativa.

Imagine que mil pessoas foram acompanhadas durante um ano. Neste período, ocorreriam apenas duas novas infecções entre as que fizeram a profilaxia injetável. Na versão oral, ocorreriam cerca de nove. Já na rotina padrão do SUS, seriam 15 novos diagnósticos.

O estudo foi conduzido em seis serviços do SUS, em Campinas, Florianópolis, Manaus, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Os locais foram selecionados para garantir a representatividade geográfica de todas as regiões do país, com foco em centros urbanos com alta prevalência de HIV. Os participantes foram observados entre outubro de 2023 e o mesmo mês de 2025.

O resultado não diz que a PrEP injetável é, necessariamente, mais eficaz, conforme destaca a pesquisadora principal do estudo, Beatriz Grinsztejn, infectologista do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas, da Fiocruz. Ele sugere ao sistema público que incorporar a versão injetável é um ganho na prevenção, e não a forma unânime de fazê-la.

“O que sabemos é que empoderar o paciente é a forma mais eficaz de prevenir o HIV, porque ele vai saber qual é a melhor opção para sua dinâmica de vida, oral ou injetável”, explica.

Beatriz afirma que as duas prevenções são altamente eficazes, isto é, não existe comparação entre qual modelo é melhor. “O melhor vai ser o que a pessoa vai conseguir fazer, e não a que o profissional de saúde vai obrigá-la”.

A PrEP oral no SUS é feita com tenofovir disoproxil fumarato e emtricitabina, dois retrovirais combinados em um comprimido que deve ser tomado diariamente. Ocorre que algumas pessoas esquecem de tomar o remédio todos os dias, e ficam expostas.

Existe ainda quem não goste da versão oral pelo estigma acerca do uso de comprimidos. E, embora disponibilizada pelo SUS em 2017, a prevenção ainda não é acessível a todas as regiões do país.

A injetável é realizada com um intervalo de um mês entre a primeira e a segunda dose, e dois meses a partir da segunda. Ao tomá-la, o usuário fica protegido durante os dois meses, mas deve voltar à unidade de saúde para a nova aplicação.

Os participantes do estudo eram homens cisgêneros (nascidos com o sexo masculino que se identificam como homens), homens e mulheres transgênero, pessoas não binárias e queer, com idades entre 18 e 30 anos. O estudo tinha como requisito resultado negativo para o HIV e o não uso de PrEP até então.

Beatriz destaca que a maioria dos participantes optou pela versão injetável —83%, ou 1.201 pessoas. A versão oral foi a escolha de 17%, 246 pessoas.

“Muitas vezes o profissional de saúde vai olhar para a pessoa com viés, vai indicar algo que ele quer. Quando o tratamento é centrado no paciente, quando ele escolhe, tende a aderir melhor”, explica.

Mesmo quem optou pela PrEP oral aderiu melhor à prevenção do que se observou na rotina do SUS. Isso se deve ao fato de que eles puderam escolher, o que não ocorre atualmente nas unidades de saúde.

“Um serviço abrangente de PrEP deve integrar as melhores opções disponíveis, aprimoradas por intervenções acessíveis que promovam a escolha, para reduzir significativamente novas infecções por HIV e melhorar os resultados em saúde pública”, afirmam os pesquisadores no artigo.

Um outro estudo produzido pelo grupo mostra a discrepância de acesso à PrEP no Brasil.

“Em abril de 2026, 80% das 153.529 pessoas que utilizavam PrEP oral eram homens gays e outros homens cisgêneros que fazem sexo com homens, predominantemente brancos, com 30 anos ou mais e com alto nível de escolaridade. Esse perfil contrasta fortemente com o daqueles que adquirem HIV com maior frequência, visto que a incidência no país está aumentando entre jovens negros”, diz a publicação.

“Essa discrepância ressalta que muitas pessoas que poderiam se beneficiar da PrEP ainda estão sendo deixadas de lado, evidenciando lacunas críticas no acesso equitativo e nas ações de divulgação”, destacam os pesquisadores.

Entre os que optaram por tomar a versão injetável, 78% o fizeram porque relataram dificuldade para tomar o comprimido diariamente. Outros motivos também foram citados, como a crença de que as injeções são mais eficazes e preocupações com os efeitos colaterais dos comprimidos.

Já os principais motivos para a escolha da PrEP oral foram a aversão às injeções (46%) e a crença de que é mais fácil lembrar de tomar o comprimido diariamente (34%).

“A gente deve enfatizar que a maior parte das pessoas se dá muito bem com a PrEP oral, não se deve obrigá-las a aderir à injetável. Trata-se de uma alternativa para quem não consegue usar a oral de forma adequada; de ampliar a cobertura, não substituir”, diz Beatriz.

INCORPORAÇÃO AO SUS

O Ministério da Saúde anunciou em julho um acordo de compra do cabotegravir. O medicamento foi desenvolvido pela ViiV Healthcare, empresa majoritariamente controlada pela GSK.

A Anvisa aprovou o cabotegravir em 2023, que passou a ser comercializado no mercado privado em agosto de 2025.

Atualmente, a decisão sobre a incorporação está sob análise da Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias ao SUS). Ainda não existe uma previsão sobre quando deve ser disponibilizado.

Em janeiro, a Anvisa aprovou outra versão injetável de profilaxia, com intervalo de aplicação ainda maior, de seis meses. Trata-se do lenacapavir, cujos valores ainda são desconhecidos.

Autor: Folha

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