Nos poucos lugares em que terapias psicodélicas são legais, poucos têm conseguido beneficiar-se, por restrições burocráticas ou de custo. No Brasil, mesmo sem qualquer iniciativa oficial para regulamentação, o problema do acesso ao tratamento –ainda experimental, vale ressaltar– já está no radar de pesquisadores e ativistas.
A preocupação com a elitização aparece em artigo de Anna Luiza Guimarães e outros autores no periódico Clinical Therapeutics, sob o título “Barreiras e Facilidades para Pesquisa e Regulamentação de Psicodélicos no Brasil: Percepções de Diversas Partes Interessadas”. O texto reúne entrevistas com 26 líderes de pesquisas, profissionais de saúde, empresários, ativistas, pacientes e líderes indígenas.
A principal barreira citada foi o estigma de psicodélicos, e a maior oportunidade, avanços científicos. Os entrevistados enfatizam a necessidade de promover pluralismo epistemológico (integrar uma perspectiva de povos tradicionais a estudos), acessibilidade e protocolos lastreados em ciência para uso clínico.
O Brasil reúne condições ímpares para criar um modelo de uso terapêutico que transcenda limitações inerentes às experiências de países como Austrália, Canadá, Suíça e EUA. A experiência acumulada no uso ritual indígena e religioso da ayahuasca, a relevante pesquisa científica e um serviço universal de saúde como que preparam o caminho para evitar a gentrificação psicodélica que vem por aí.
Falta uma mobilização coletiva robusta para tanto, como a que aprovou referendos no Oregon e no Colorado (EUA), onde serviços de psilocibina foram regulamentados –a preços exorbitantes. Uma experiência a observar é uma parceria público-privada noutro estado, Maryland, que poderá baratear a psicoterapia com MDMA (ecstasy) para transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).
A clínica Sunstone Therapies está recrutando veteranos de guerra com TEPT para um teste clínico que vai comparar a eficácia de duas modalidades de psicoterapia antes e depois das sessões com MDMA, em grupo ou individualmente. Serão três encontros para preparação e três para integração.
Os fundos para realizar o estudo vêm do governo estadual (US$ 1 milhão) e de uma ONG de prevenção de suicídios, Reason for Hope (US$ 525 mil). Participarão do ensaio 52 ex-combatentes, acompanhados por um ano para comparar os grupos. Ocorrem ao menos 18 suicídios por dia de veteranos nos EUA.
“Essa colaboração entre a Reason for Hope, o estado de Maryland e a Sunstone Therapies demonstra o que é possível quando parceiros públicos e privados se unem para acelerar soluções para aqueles que vivem com traumas”, afirmou em comunicado Brett Waters, diretor-executivo da ONG.
A terapia em grupo pode diminuir os custos do tratamento. Mas a clínica também aposta que a modalidade supere a individual: “Quando combinada com a normalização, a validação e o aprendizado vicário que ocorrem naturalmente em ambientes de grupo, a terapia assistida por MDMA tem o potencial de melhorar a recuperação, fortalecer as ligações sociais e expandir o acesso aos cuidados de uma forma rentável e escalonável”.
Nos EUA, o impulso social pela regulamentação de psicodélicos começou com ex-hippies pacifistas e pesquisadores, uma ou duas décadas atrás, mas nos últimos anos a bandeira lhes foi tomada por conservadores atentos ao sofrimento dos jovens que mandam para a guerra. Mais uma ironia da história.
No Brasil, a direita também está em pé de guerra, mas contra quimeras que viraliza pelas redes sociais. De que setor poderia partir um movimento para dar cabo do proibicionismo tacanho? Uma aliança entre indígenas, profissionais de saúde, pesquisadores e grupos religiosos seria um ponto de partida.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.
Autor: Folha








.gif)












