
A estreia de Brasil 70: A Saga do Tri, na Netflix, provoca um estranhamento interessante por optar pela ficção em vez do documentário. Em vez de se apoiar no porto seguro da não-ficção tradicional, a minissérie arrisca-se na reconstituição fabulosa da maior epopeia do nosso futebol.
Com isso, apesar das interpretações sofríveis – à exceção de Rodrigo Santoro como João Saldanha – e das “lacradas” aqui e acolá, ao mimetizar o passado através do drama épico a obra consegue dimensionar melhor a grandeza mítica da conquista para além do fato histórico.
O comum é o torcedor encontrar nas telas crônicas documentais confessionais, como Brasil 2002 – Os Bastidores do Penta, lançado pela Netflix na véspera da Copa de 2022. Ou, então, na imersão tensa da série Tudo ou Nada, que possui uma edição da Seleção Brasileira na Copa América de 2019, que está disponível na Prime Video.
Obras documentais sobre a biografia de grandes jogadores também são recorrentes. Há inúmeras, bastando procurar nos campos de busca dos serviços de streaming sobre “futebol” para se encontrar várias, como a de Ronaldo (Globoplay), Ronaldinho Gaúcho (Netflix) e Neymar (Netflix).
Os melhores resultados, porém, acontecem quando o futebol é tratado como mais do que documento histórico ou mero entretenimento, mas como arte visual. Há um documentário sobre Pelé, por exemplo, de 1974, disponível na Globoplay, de Eduardo Escorel e Luiz Carlos Barreto, que já na abertura se percebe ir além do registro. Vemos Pelé correndo na praia ao som de Pink Floyd(?!). E se o leitor lembrou da cena icônica de Rocky III, vale recordar também que o filme de Stallone só foi lançado em 1982.
Outro bom exemplo disso é o documentário hipnótico Zidane: Um Retrato do Século XXI, disponível apenas para locação, que foca 17 câmeras no craque francês para transformá-lo em uma espécie de herói trágico de Shakespeare. Vale citar também o devastador Diego Maradona, de Asif Kapadia, que voltou a ficar disponível no país pela Netflix. O documentário usa arquivos pessoais para examinar as ruínas da alma de um gênio devorado pelo próprio mito.
Mas é na ficção que se consegue melhor aproveitar o futebol para iluminar o que vai além do esporte. Quando Paolo Sorrentino conduz o espectador pelas ruas de Nápoles em A Mão de Deus, disponível na Netflix, o futebol não é o tema, mas a própria manifestação do destino e da providência na vida de um jovem. Da mesma forma, o oscarizado O Segredo dos Seus Olhos utiliza um plano-sequência impressionante em um estádio lotado para nos lembrar de que um homem pode mudar tudo – de religião, de Deus, de mulher -, menos de paixão.
No Brasil, Walter Salles, com seu neorrealista Linha de Passe, disponível em vários streamings, retrata a várzea como algo mais do que futebol, como a última e desesperada fronteira de dignidade para os remediados na vida. Essa mesma dignidade, temperada pela melancolia paulistana, aparece em Boleiros – Era uma Vez o Futebol…, de Ugo Giorgetti, disponível na Pluto TV. Sentados ao redor de uma mesa de bar, velhas glórias do passado desfilam causos que resgatam o futebol como patrimônio da tradição oral e da alma brasileira.
É um contraste gritante com a cultura anglo-saxã que moldou Ted Lasso. O badalado seriado da Apple TV, sob a máscara da comédia corporativa da Premier League, é, no fundo, um tratado humanista sobre liderança, saúde mental e a busca pela paternidade espiritual perdida, provando que o gramado pode ser mais do que um palco para os artistas da bola.
Retornando à ficcionalização de A Saga do Tri, independentemente de suas qualidades artísticas (mínimas, é verdade), o que se destaca é um espelho do passado projetando uma sombra desconfortável sobre a nossa atualidade às vésperas da Copa do Mundo de 2026. A minissérie evoca a figura de Pelé em 1970 sob o peso esmagador da desconfiança, usado pelo governo de plantão e contestado por críticos que o julgavam acabado. A semelhança com o calvário midiático de Neymar não é mera coincidência.
O Rei conseguiu canalizar essa pressão para atingir uma maturidade, inclusive espiritual, que o consagrou como “divindade” no México. Que Neymar aprenda e se inspire. E que assista ao seriado com seus companheiros. Pode servir para mais do que um gatilho de nostalgia barata ou motivacional momentâneo. Há ali também uma convocação. É hora de relembrar o mundo por que somente o Brasil pode ser chamado de A Seleção.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












