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Solidão materna atinge também mães vivendo em casais – 25/04/2026 – Equilíbrio

São muitas as mães que vivem sob o guarda-chuva “solo”. Há mães solteiras, mães que assumem sozinhas a responsabilidade pelos filhos, mães que os criam sem a presença do pai e mães que ficaram sozinhas porque os homens que estavam presentes na concepção já não existem mais. Mas é difícil hoje definir o que seria uma mãe “solo” senso estrito.

A definição é da psicanalista e colunista da Folha Vera Iaconelli. Ela participou de debate na tarde deste sábado (25) após o lançamento do livro “Solo” (ed. Bazar do Tempo) na Livraria da Tarde, em São Paulo, escrito pela jornalista Marcella Franco, que editou os cadernos Folhinha e Folhateen desta Folha.

O livro, mistura de realidade com ficção, traz a experiência de maternidade solo da escritora e também o olhar do seu filho, Teodoro, hoje com 17 anos. Ela criou ele sozinho dos quatro meses até os dez anos, quando conheceu seu atual marido.

“Não dá para esgotar o assunto, mas essa palavra ‘solo’, a ‘mãe solo’, é muita coisa. Porque antes tinha a mãe solteira, a qual é a mãe solta, um pouco envergonhada porque não se casou, ou se separou, e ela dá lugar a um termo muito mais digno, que é a mãe solo, a mãe sozinha. Afinal, o que é mãe solo?”, indaga a psicanalista.

“Tem uma diferença na experiência. As mães nessa situação de repente se veem em uma situação sem ajuda nenhuma, até para ouvir uma crítica, uma opinião, não existe ninguém ali. Você é o responsável, em primeiro lugar, por manter aquela criatura viva, não deixar morrer. Depois, manter feliz, que acho que é a mais difícil de todas. E não tem ninguém ali contigo nessa”, disse Marcella.

Essa solidão, muitas vezes, é compartilhada também por mães que estão em relacionamentos em que os dois pais vivem junto e partilham a criação dos filhos.

“Podemos pensar vários atravessamentos do que é a parentalidade solo, que vai se tornando essa solidão, tem ela material, da ausência, mas tem uma caixinha no mapa dessa história que é a solidão da responsabilidade”, afirma Vera.

Para a psicanalista, essa cobrança vem de um lugar na nossa cultura de dizer que a responsabilidade pela sobrevivência, felicidade, desenvolvimento ético e moral da criança passa pela mãe.

“É muito difícil para os homens ouvirem, e eu sei que tem homens que vão dizer aqui que dividem essa responsabilidade 50/50, mas mesmo aqueles que executam as tarefas, a administração passa pelas mulheres. E elas também ainda abraçam essa ideia”, avalia.

Como muitas das situações contadas no livro pela perspectiva da mãe são de um dia a dia como a única pessoa cuidando do filho, Marcella desabafa que muito daquela solidão e esgotamento são também situações que ela mesma viveu ou vive até hoje.

“Às vezes, nós conversamos muito em casa, eu, o Teodoro e o meu companheiro, que é padrasto dele, e eu falo ‘nossa, estou exausta’. Eu falo para meu filho que é a sobrecarga mental. E tudo é debatido entre nós. Eu espero que meu livro gere esse debate, que esse lugar solo deve ser conversado, sempre. A psicanálise pode até trazer muito conhecimento, eu só estou vivendo o dia a dia, mas eu sempre pensei no diálogo porque tem muitas dessas dúvidas que eu tinha e ainda tenho que são compartilhadas.”

Como não existe “felicidade à venda”, Vera reforça que muitas vezes o canal de sobrevivência dessas mães é formado pelas próprias redes de apoio e grupos femininos que tentam tomar essa posição de debate social.

“Freud já trazia que a responsabilidade de tomar para si a felicidade do outro sem apoio é impossível. Porque a felicidade é totalmente episódica. As mulheres estão sendo cobradas de uma coisa que é impossível de sustentar e ainda achando que cabe a elas darem aquilo.”

Se o livro, cujas ilustrações e leitura leve o classificam facilmente como literatura infantojuvenil, for capaz de suscitar debates sobre partilha de tarefas e divisão de responsabilidade em lares onde a monoparentalidade não é a regra, a sua missão será cumprida, reflete Marcella. “Eu espero que o livro consiga trazer esses debates dentro das famílias que não são monoparentais, e que as mães comecem a falar disso”, diz.

Autor: Folha

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