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Solteiros acima dos 40 relatam cansaço com apps de namoro – 11/07/2026 – Equilíbrio

Após o fim de um casamento de mais de duas décadas, a empresária Andreia Pedrosa, 45, recorreu aos aplicativos de relacionamento. Não demorou muito para perceber que aquilo não era para ela. Frustrada com conversas vazias e mecânicas, ela logo passou a frequentar eventos de gastronomia para solteiros em busca de conversas reais.

“Aplicativos podem ser exaustivos. As interações costumam ser frias, baseadas na imagem que o outro deseja projetar e sem a percepção real que temos no contato presencial”, diz Andreia, que é sócia cofundadora da Linkmex Trade, uma consultoria de comércio exterior.

Solteiros com mais de 40 anos de idade têm trocado as plataformas digitais por experiências ao vivo, em encontros pensados para eles: festas, oficinas e jantares coletivos onde a conversa flui sem filtros e a química se revela (ou não) na hora.

Andreia conta que passou recentemente por uma experiência do tipo no evento culinário Pasta Date nas Alturas, realizado no Farol Santander, no centro de São Paulo. Ali, ela afirma, preparar um prato em grupo estimula a conversa e reduz o uso do celular. Tarefas compartilhadas criam intervenções naturais, e um erro na receita vira motivo de risada.

“Quando estamos frente a frente, captamos o tom de voz, os gestos e as nuances que o digital não permite. Prefiro estar aberta a oportunidades que surjam de forma espontânea”, diz ela, acrescentando que, embora ainda não tenha avançado na paquera, os eventos já renderam novas amizades.

Estudo publicado em 2023 pelo Pew Research Center mostrou que o uso de aplicativos de relacionamento diminui com a idade: enquanto 53% dos adultos com menos de 30 anos já tinham usado essas plataformas, o índice era de 37% na faixa de 30 a 49 anos; de 20% entre 50 e 64 anos; e de 13% entre aqueles com 65 anos ou mais.

Divorciado desde 2016, o farmacêutico Stéfano Rocha Vignol, 40, viu no pós‑pandemia um anúncio de festas temáticas dos anos 2000 e começou a frequentá‑las.

“Relacionamentos por app viravam um processo cansativo e automático. Nas festas encontrei conexão real e até comecei a namorar após uma de Halloween”, conta. “Raramente vejo alguém com celular na mão [nesses eventos], usam no máximo para tirar fotos. Eu deixo o aparelho em modo avião.”

Produtores de eventos identificaram aí uma oportunidade de negócio. Segundo a empresária Larissa Ruas, cofundadora do Aproxima, clube que promove encontros com dinâmicas e jogos pensados para facilitar conexões reais, o objetivo é reduzir a mediação digital nas interações. “Eu noto uma grande procura pelo flerte presencial”, diz.

Mesma impressão tem Pitter Guimarães, criador da Random Party, que organiza festas nostálgicas em São Paulo. “As pessoas se reconhecem e voltam. As festas viraram ponto de encontro.”

O apelo desse tipo de experiência, dizem, está na sensação de pertencimento e na qualidade da interação. Gostos em comum podem reunir pessoas com referências culturais semelhantes, criando um ambiente favorável para a continuidade dos encontros.

Especialistas atribuem o movimento ao que chamam de fadiga digital. Com rolagem infinita, conversas curtas e ênfase na imagem, os apps de namoro podem produzir satisfação imediata, mas momentânea, sem avanço para a vida real.

“Os aplicativos muitas vezes têm uma finalidade: as pessoas acumulam ‘matches’ e curtidas, mas não necessariamente vão ao encontro presencial”, diz o psicólogo Douglas Kawaguchi, professor de psicologia da Faculdade Sírio‑Libanês.

Kawaguchi ressalta que o encontro ao vivo envolve elementos que a tela não reproduz —olhar, ritmo da fala, tom de voz e atenção sustentada, que influenciam respostas emocionais e permitem avaliações mais completas sobre a sintonia entre as pessoas.

O uso excessivo do celular prejudica, ainda, a postura corporal, com cabeça projetada à frente, ombros arredondados e tensão no pescoço, na mandíbula e nos trapézios (músculos das costas).

“A fadiga emocional, com rejeições e excesso de estímulos, também se traduz no corpo. Afeta o sono, aumenta a tensão muscular e eleva a sensação de cansaço”, afirma o fisioterapeuta Eduardo Maltez. Em contrapartida, eventos presenciais exigem movimento, algo benéfico para o sistema musculoesquelético.

Apesar da sensação de esgotamento, há quem aposte nas plataformas digitais como uma ferramenta complementar, uma espécie de filtro. O gerente de projetos Bruno Daza, 41, conta que mantém perfis ativos nos aplicativos de namoro, mas prioriza sair para paquerar.

“Não deletei os apps, só parei de depender deles. Vou às festas porque ali eu vejo as pessoas de verdade.”

Autor: Folha

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