Às vésperas da estreia do Canadá na Copa do Mundo, o orgulho de receber o maior torneio do planeta vinha acompanhado de um sentimento recorrente entre torcedores ouvidos pela reportagem: o desejo de que mais partidas fossem disputadas em território canadense, e não nos Estados Unidos.
Milhares de pessoas caminhavam em direção ao estádio em Toronto para acompanhar a tentativa canadense de conquistar sua primeira vitória em Copas do Mundo.
Muitos demonstravam entusiasmo com o evento, mas também preocupação com as notícias vindas do principal anfitrião do torneio e a tensa relação com a equipe do Irã, que tinha armado uma base em Tucson, no Arizona, e teve de mudar os planos e instalar-se em Tijuana, cidade do México na fronteira com os Estados Unidos.
“Eu queria que mais jogos fossem realizados no Canadá”, disse Christina Khidhir, 26. “O que está acontecendo nos Estados Unidos é horrível. A política é horrível.” A jovem faz referência ao início da Copa em território americano que foi marcada por hostilidades, com controvérsias com casos de árbitros e torcedores barrados, interrogatórios extensos de jogadores e restrições de acesso às vésperas da Copa.
A amiga Alanna Tees, 25, concorda. Para ela, o Canadá transmite uma imagem mais acolhedora aos visitantes que chegam para o torneio. “Achamos que é horrível. Nós não somos racistas”, afirmou. “Gostaria que tivéssemos mais estádios para receber mais seleções.”
As duas acompanham futebol há anos. Christina nasceu na Jordânia, filha de pais iraquianos e palestinos, enquanto Alanna nasceu no Canadá. Para elas, a Copa também reflete a diversidade do país.
Embora reconheçam que o futebol ainda está longe de ocupar no Canadá o espaço que tem em países como Brasil, Argentina ou Inglaterra, ambas afirmam que a modalidade cresceu nos últimos anos. “Desde que o Canadá voltou a se classificar para uma Copa, há quatro anos, ficou muito maior”, disse Christina. “Mas muita gente ainda está chegando agora. Talvez seja o primeiro jogo de futebol da vida de algumas pessoas.”
O sentimento predominante, porém, era de orgulho nacional. “Os canadenses adoram ser canadenses”, resumiu Alanna. “Estamos sediando a Copa e participando dela. As pessoas estão surtando de felicidade.”
A mesma mistura de entusiasmo e preocupação apareceu entre Hannah Pigozzo, 23, e Ashley Caissie, 26, que compraram ingressos de última hora para acompanhar a partida.
Para elas, as notícias envolvendo restrições migratórias, dificuldades de entrada de visitantes e outras controvérsias nos Estados Unidos contradizem o espírito do torneio.
“A ideia da Copa é reunir pessoas do mundo inteiro”, afirmou Hannah, que diz acreditar que o futebol no Canadá é mais popular em equipes femininas e vê o torneio uma oportunidade para se popularizar entre os homens. “Se você impede pessoas de entrar, especialmente jogadores ou torcedores que viajaram para estar aqui, isso derrota completamente o propósito da competição.”
Ashley disse que a situação acaba afetando a imagem do evento. “O futebol cria comunidade. Reúne pessoas de todos os lugares. É triste pensar que alguém comprou ingresso, passagem, fez planos e acabou barrado.” Nem todos os torcedores, porém, enxergam a situação da mesma forma.
Kimberly Hanson, 57, diz que os conflitos políticos não deveriam ofuscar o torneio. “Esses desafios existem o tempo todo”, afirmou. “Prefiro olhar para aquilo que une os países. E o esporte une.”
Para ela, o fato de o Canadá ser um dos anfitriões representa um reconhecimento internacional para um país que raramente é associado ao futebol masculino. “Quando se fala em futebol, as pessoas pensam na Europa ou na América do Sul. A Copa mostra que o Canadá também faz parte desse universo.”
Christina e Alanna calculam ter gasto centenas de dólares para garantir presença na Copa. “Foi uma quantia preocupante”, admitiu uma delas. “Mas continuamos repetindo para nós mesmas que é uma experiência única na vida.”
Entre críticas aos preços, orgulho nacional e questionamentos sobre o ambiente político nos Estados Unidos, os torcedores chegaram à estreia carregando uma expectativa comum: testemunhar um momento histórico.
Após seis derrotas em seis jogos de Copa do Mundo, o Canadá entra em campo tentando conquistar sua primeira vitória no torneio. “Estamos otimistas”, disse Alanna, que também acredita em supertições. Já que, nesta sexta-feira (12), marca o aniversário de Christine Sinclair, maior nome da história do futebol feminino canadense, poderia servir como “amuleto de sorte”.
Autor: Folha








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