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Transtorno bipolar tipo 2 eleva risco de morte precoce – 03/09/2026 – Equilíbrio

O transtorno afetivo bipolar tipo 2, considerado uma forma mais branda da doença, pode estar associado a consequências graves para a saúde. Um estudo com mais de 11 mil participantes, publicado no JAMA Network Open, mostra que pessoas com o transtorno têm risco 60% maior de morrer precocemente em comparação a indivíduos da mesma idade sem a condição.

Entre os achados que mais chamam atenção está o risco de morte por suicídio, mais de seis vezes superior entre indivíduos com essa condição. “Esse é o pior desfecho possível para qualquer transtorno mental. Quanto menos tratamento, suporte e medidas comportamentais, maior o risco”, alerta o psiquiatra Ricardo Feldman, do Einstein Hospital Israelita. O aumento da mortalidade também foi observado por doenças cardiovasculares e metabólicas, além de causas não naturais, como acidentes.

O transtorno afetivo bipolar é uma condição psiquiátrica marcada por alterações intensas de humor. Pessoas com a condição alternam episódios depressivos com fases de hipomania ou mania, em que há elevação do humor e mudanças importantes no comportamento. “Nos episódios de mania, o paciente fica mais exaltado, com mais euforia, irritabilidade, aceleração do pensamento, fala mais rápida, muitas ideias ao mesmo tempo. Pode se colocar em risco por conta desses comportamentos, com aumento de compras, impulsividade e aumento da vontade sexual”, explica Feldman.

A diferença entre os dois principais tipos está na intensidade. No transtorno bipolar tipo 1, os episódios de mania são mais graves e podem incluir sintomas psicóticos, como delírios e alucinações. Já no tipo 2, há momentos de hipomania, considerada uma versão mais branda da mania, associados a quadros depressivos, muitas vezes prolongados. “Na hipomania, não há sintomas psicóticos. Por isso, durante muito tempo, o bipolar tipo 2 foi considerado menos grave. Mas hoje entendemos que ele pode trazer enorme sofrimento e impacto funcional”, afirma o psiquiatra.

A prevalência estimada do transtorno bipolar varia entre 1% e 3% da população. Mas, diante da possibilidade de um subdiagnóstico, pode ser que a condição atinja até 8% das pessoas. O diagnóstico é clínico e depende da identificação dos episódios de mania ou hipomania. O problema é que o transtorno bipolar tipo 2 frequentemente se confunde com depressão, ansiedade ou outras condições psiquiátricas, o que pode atrasar o tratamento.

“O tipo 2 ainda é muito subdiagnosticado. Muitas vezes, o paciente passa anos sendo tratado apenas como depressão unipolar, até apresentar um episódio de hipomania. É importante diferenciar porque alguns tratamentos utilizados para depressão podem trazer riscos para pacientes com depressão bipolar”, adverte o médico do Einstein.

O atraso no diagnóstico aumenta o risco de cronificação da doença e de complicações clínicas e psiquiátricas. “Quanto mais longe do tratamento psiquiátrico, piores os desfechos.”

Para Feldman, o aumento do risco de morte entre pacientes com transtorno bipolar tipo 2 não surpreende. “A gente observa maior risco de mortalidade em praticamente todos os transtornos mentais. Existem vários fatores envolvidos, desde o impacto da doença mental não tratada até as comorbidades clínicas”, ressalta.

Em geral, também são mais frequentes entre essas pessoas quadros de obesidade, doenças metabólicas, uso de substâncias como álcool e drogas, e outras condições que comprometem a saúde física.

Além disso, o comportamento impulsivo associado às fases de hipomania pode aumentar o risco de acidentes, por exemplo. “As questões não naturais acontecem por causa desse comportamento de risco, dessa alteração de humor que causa impulsividade, agitação e aceleração”, explica o especialista.

Para reduzir os desfechos negativos da doença, é importante uma abordagem ampla e integrada, que vá além do tratamento medicamentoso. O cuidado inclui terapia, atividade física, sono adequado, alimentação equilibrada, fortalecimento da rede de apoio e acompanhamento contínuo da saúde mental e física.

“O que precisamos fazer é aumentar o acesso ao tratamento e capacitar profissionais para identificar esses quadros mais cedo. Também devemos fortalecer políticas de promoção de saúde mental, ampliar serviços comunitários e conscientizar a população de que transtornos mentais são doenças que precisam de cuidado contínuo”, conclui Ricardo Feldman.

Autor: Folha

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