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Tratamento capilar invasivo pode expor paciente a infecção – 15/04/2026 – Equilíbrio

Vendo o pai perder cabelo, o advogado Guilherme de Carvalho Ribás, 30, decidiu se prevenir. Procurou um tricologista e, no início, fez um tratamento que considerou “tranquilo”. Dois anos depois, o médico sugeriu acrescentar injeções mensais no couro cabeludo para manter o volume dos fios.

“Essas injeções causavam um enorme desconforto, sangrava bastante e era algo muito doloroso e muito frustrante, porque, além de eu não ver nenhum avanço, sentia muita dor e saía da consulta com o couro cabeludo todo ensanguentado”, conta.

Com isso, além da dor física, Guilherme diz que sentia também um constrangimento, especialmente quando tinha compromissos após a consulta. Cerca de um ano depois, ele decidiu trocar não só de método, mas também de médico.

O médico que atualmente acompanha Guilherme, Luciano Barsanti, afirma que alertou o paciente sobre os problemas que esse tipo de procedimento (com injeções) pode causar. Barsanti, que é presidente da Sociedade Brasileira de Tricologia, diz receber muitas queixas, comentários e mensagens de pessoas que tiveram complicações com tratamentos capilares invasivos.

“A pessoa começa a perceber a queda dos cabelos e entra em desespero. Então ela vai procurar nas redes sociais e vê profissionais que nem sempre são qualificados, mas que se autointitulam doutor ou doutora”, diz.

Ele explica que tratamentos invasivos costumam envolver injeções no couro cabeludo ou microagulhamento com ingredientes e fórmulas que nem sempre têm evidências robustas para a recuperação capilar. Como exemplos desses procedimentos ela cita a mesoterapia e o PRP, sigla para plasma rico em plaquetas.

“O risco pode incluir contaminação cruzada com vírus como hepatite A, hepatite B, herpes, HPV e HIV, além de infecções bacterianas e fúngicas”, afirma. Segundo ele, a Sociedade Brasileira de Tricologia observou um aumento de 82% nas complicações por procedimentos invasivos capilares nos últimos cinco anos.

De acordo com a dermatologista Bárbara Miguel, do Einstein Hospital Israelita, alguns estudos sugerem que esses tratamentos invasivos podem trazer benefícios quando usados de forma adjuvante, mas ressalta que não existe padronização específica de dose, profundidade, frequência de aplicação ou substâncias utilizadas. Ela afirma ainda que as amostras das pesquisas são heterogêneas, pequenas e não randomizadas, o que compromete a qualidade da evidência.

Os riscos associados a esses procedimentos incluem dor, sangramento, edema, hematoma, infecção local e inflamação. “A infiltração intralesional com corticoide pode causar atrofia cutânea e alopecia cicatricial na área de aplicação, dependendo muito de como essa aplicação é feita, de como é feita a diluição do produto e de qual produto é utilizado”, diz.

A médica afirma que também podem ocorrer infecções mais graves, formação de abscesso, edema frontal, angioedema, reação alérgica e até alopecia paradoxal depois da aplicação.

M., que não quis se identificar, conta que procurou em uma rede social um profissional para tratar falhas no cabelo. Após quatro sessões que deixaram feridas e inflamações em seu couro cabeludo, ele parou no hospital por causa de uma reação alérgica. Depois disso, afirma que passou a conviver com uma alergia crônica, que o impede de usar tinta no cabelo e afeta sua autoestima.

De acordo com Bárbara Miguel, esse tipo de complicação pode ocorrer mesmo quando o procedimento é realizado por um médico habilitado. “O principal é saber se a pessoa está utilizando uma substância que é segura, sabe manejar uma complicação, usa produtos ou tecnologias que são regulamentadas”, afirma.

Em nota publicada em 2024 a respeito do plasma rico em plaquetas, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) afirmou que o PRP é considerado um produto terapêutico de origem sanguínea que pode ser usado em contextos de pesquisa ou em tratamentos clínicos com eficácia reconhecida e recomenda cuidado na escolha de profissionais qualificados.

“Essa prática pode ser extremamente perigosa, pois, além de não atingir os efeitos terapêuticos pretendidos, pode resultar na transmissão de agentes infecciosos graves, como o HIV e o vírus da hepatite“, disse a Anvisa, na ocasião.

Luciano Barsanti afirma que a autoestima do paciente costuma piorar quando há complicações que agravam a queda de cabelo ou alteram a aparência. Para ele, a dor psíquica também faz parte do tratamento capilar. “A autoestima da pessoa vai afundando, ela vai ficando triste e pode ter até depressão.”

Assim como M., Guilherme também diz que a preocupação com a própria imagem ganhou força em meio às complicações do tratamento injetável.

“Embora eu não seja uma pessoa muito vaidosa, acabei me preocupando porque a minha profissão exige que eu esteja sempre dando as caras. Então eu preciso ter esse cuidado. E também tem algo a ver com confiança, a perda de cabelo está muito vinculada à ideia de estar envelhecendo. Tem uma questão um pouco também de vaidade, sim”, diz.

Autor: Folha

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