É a palavra da década. “Um grande significante da nossa era. A força invisível que molda nossas vidas.” Mas o que é trauma?
Embora ocupe os holofotes culturais, seu significado nunca esteve tão nebuloso. Trauma deriva do grego antigo e significa “ferida”. De acordo com o Oxford English Dictionary, o significado de “lesão corporal externa” remonta a 1684.
No final do século 19, trauma adquiriu um segundo significado, o de “lesão psicológica”. Em 1894, por exemplo, o filósofo e psicólogo americano William James escreveu sobre “traumas psíquicos permanentes”, comparando-os a “espinhos no espírito”.
Um terceiro significado, figurativo, surgiu na década de 1970. Trauma passou a se referir ao sofrimento ou eventos adversos em geral. Assim como esquizofrenia e histeria originaram-se como diagnósticos clínicos e depois adquiriram novos sentidos mais amplos, trauma se expandiu e tornou-se uma metáfora.
Trauma na psicologia e psiquiatria
Nas disciplinas de saúde mental, a definição de trauma seguiu um caminho sinuoso. Na primeira edição do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), de 1952, referia-se exclusivamente à lesão física.
Nenhum diagnóstico correspondente ao significado psicológico de trauma apareceu até 1980, quando o DSM-III introduziu o TEPT (transtorno de estresse pós-traumático).
O DSM-III listou uma série de sintomas de TEPT e uma definição do tipo de eventos traumáticos responsáveis por eles. Para que um diagnóstico fosse feito, o evento teria que evocar angústia significativa em quase todos e estar “fora do alcance da experiência humana usual”.
De forma controversa, edições posteriores do DSM flexibilizaram esse critério. Por exemplo, eventos testemunhados indiretamente —em vez de vivenciados diretamente— passaram a ser incluídos. A ênfase mudou da gravidade objetiva de um evento para a angústia subjetiva que ele causava. Consequentemente, uma gama mais ampla de experiências tornou-se traumática.
Essas mudanças nas regras para diagnosticar TEPT apontam para uma ambiguidade fundamental no significado psiquiátrico de trauma. Pode se referir a um evento prejudicial, como quando uma catástrofe é descrita como um trauma. Mas também pode nomear o impacto psicológico do evento, como quando se diz que uma pessoa sofre de trauma.
Expansão conceitual
A flexibilização da definição de evento traumático do DSM é um exemplo de expansão conceitual —o alargamento gradual de conceitos relacionados a danos. Estudos demonstraram essa tendência em grandes conjuntos de dados históricos.
Por exemplo, um estudo do meu grupo de pesquisa mostra que trauma passou a ser usado em contextos semânticos mais amplos de 1970 até o final da década de 2010. Esse alargamento é encontrado em textos gerais, como mídia jornalística e ficção, bem como em artigos acadêmicos.
Trauma também é cada vez mais usado em contextos menos carregados emocionalmente, o que implica que suas conotações se tornaram mais brandas e normalizadas. Livros agora o mencionam seis vezes mais do que há meio século, e em artigos de psicologia o fator é 25. Quanto mais falamos sobre trauma, mais ele significa.
Os usos cotidianos de ‘trauma’
O público abraçou trauma e seguiu em frente com ele. Como observou uma revisão recente, “a definição de trauma é mais restrita na psicologia clínica e na psiquiatria do que na linguagem comum”.
Estudos descobrem que as pessoas definem uma gama mais ampla de adversidades como traumas do que o DSM, estendendo o conceito dos chamados traumas com “T maiúsculo” para traumas relativamente com “t minúsculo”. Por exemplo, elas o estendem à experiências de más condições de moradia e assédio nas ruas.
As redes sociais estão implicadas nessas definições ampliadas. Vídeos do TikTok comumente descrevem pequenos constrangimentos como traumas (por exemplo, “sentei em chocolate e não percebi”) e experiências inócuas, como divagação mental, como sinais disso.
Alguns desses usos são irônicos e conscientes. Eles zombam de definições amplas (por exemplo, “trauma é quando você abre a lata de biscoitos e encontra materiais de costura”). No mesmo espírito, participantes de um estudo irlandês recente eram ambivalentes sobre tais definições, “acolhendo a desestigmatização do trauma, mas deplorando sua potencial trivialização”.
Benefícios e prejuízos de definições amplas
Essa ambivalência aponta para uma reação contra definições expansivas, mas essa reação traz riscos. Trivializar o trauma pode ser errado, mas as pessoas podem ser prejudicadas por eventos que não são traumáticos com “T maiúsculo”. Aqueles que vivenciaram adversidades merecem compaixão, independentemente de suas experiências atenderem ou não aos parâmetros diagnósticos.
Por isso, pessoas que questionam a expansão conceitual de trauma às vezes são acusadas de falta de compaixão, de minimizar adversidades e de policiar a linguagem. Se alguém quer descrever sua experiência como traumática, quem é você para invalidá-la?
No entanto, algumas objeções à inflação de “trauma” são legítimas e fundamentadas em preocupação compassiva. Manter uma definição ampla pode prejudicar as pessoas.
Um estudo descobriu que pessoas induzidas a manter a definição experimentaram mais angústia e pensamentos intrusivos após assistir a um videoclipe perturbador. Isso não ocorreu com aquelas induzidas a manter uma definição restrita. Outro mostrou que pessoas que mantinham conceitos mais amplos de trauma ficavam mais angustiadas com um clipe perturbador.
Perceber algo como traumático pode contribuir para torná-lo assim. Atribuir angústia ao trauma implica que a lesão que sofremos é duradoura, indelével, avassaladora e definidora de identidade.
Para o escritor Will Self, “a ideia de que certas espécies de experiência têm a capacidade de nos ferir de maneiras duradouras, de tal forma que carregamos a ferida —e, de fato, a própria experiência— para sempre conosco, muitas vezes sem sequer saber.”
Entender a causa do nosso sofrimento dessa forma —além do nosso controle, permanente e profundamente impactante— dificulta a recuperação. É um padrão associado à depressão e à desesperança.
Outra razão para resistir à expansão de trauma é a clareza conceitual. Se todas as adversidades se tornam trauma, e toda angústia é atribuída a ele, o conceito se torna um instrumento grosseiro. O trauma com “T maiúsculo” já é generalizado —três quartos dos adultos australianos vivenciaram o evento, como um acidente de carro com risco de vida ou a morte inesperada de um ente querido— sem o diluir com problemas com “t minúsculo”.
A visão expansiva do trauma promove a visão cada vez mais popular de que a angústia pode ser explicada apenas por experiências de vida adversas.
Experiências de vida importam, mas não são tudo o que importa. Apenas 4% das pessoas que vivenciam um evento traumático segundo o DSM desenvolvem TEPT, por exemplo. Muitos fatores biológicos, psicológicos e culturais desempenham um papel na doença mental, não apenas experiências traumáticas.
Questionar a expansão de “trauma” é essencial se quisermos evitar diluir e usar mal o conceito. Essa expansão é impulsionada por tendências sociais benevolentes, mas tem um lado negativo. Neste momento cultural, quando “trauma” está em toda parte, precisamos pensar sobre ele de forma clara e crítica.
Este texto foi publicado no The Conversation. Clique aqui para ler a versão original.
Autor: Folha








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