Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) no celular de do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, mostram que os ex-servidores do Banco Central (BC) Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana atuaram como “consultores informais” do banqueiro em troca de vantagens indevidas.
De acordo com relatório de investigação tornado público pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nesta sexta-feira (11), ao longo de quase dois anos, eles prestaram orientações, revisaram minutas destinadas ao BC e ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e intercederam em temas de interesse do conglomerado, atuação que a PF descreve como “por óbvio incompatível com o Código de Conduta do BCB e com os princípios que regem a atuação de servidores públicos”.
Belline era chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup) do BC, enquanto Paulo Sérgio ocupava o cargo de chefe adjunto do mesmo departamento, na época em que trocavam mensagens com Vorcaro. Em março deste ano, eles foram afastados dos cargos.
Os três participavam de um grupo de mensagens, no qual alinhavam estratégias e revisão de documentos e agendavam reuniões privadas, inclusive na casa do banqueiro, segundo a investigação.
Os diálogos apontam ainda que ambos alertavam Vorcaro sobre movimentações financeiras do banco que caíam em filtros do sistema de monitoramento do BC e repassavam informações sigilosas referentes a reuniões reservadas mantidas entre a PF e integrantes do BC no âmbito das investigações da Operação Compliance Zero.
A contrapartida do controlador do Master aos favores dos servidores era feita, ainda de acordo com a PF, por meio de pagamentos que utilizavam contratos fictícios e empresas de terceiros, além de viagens para destinos como a França e os Estados Unidos.
“Tá sendo um anjo na vida”, disse Vorcaro sobre Paulo Sérgio
O primeiro contato de Vorcaro com Paulo Sérgio Souza obtido pela PF data de 20 de outubro de 2023, quando o servidor do BC envia para o banqueiro a portaria que o nomeou para o cargo de chefe adjunto do Desup. A partir deste momento, ele passa a atuar como consultor, chegando a classificar como “prioridade absoluta” o atendimento a interesses do Master.
Em 21 dezembro de 2023, ele manda espontaneamente uma lista de tópicos que Vorcaro deve tratar em uma reunião com o então presidente do BC, Roberto Campos Neto.
Na semana seguinte, no dia 29, menciona ter um comprador para o Letsbank, instituição que integrava o conglomerado do Master e que também viria a ser liquidada pelo BC em meio à deflagração da Operação Compliance Zero.
A venda do Letsbank não vai se confirma, e, em 25 de outubro de 2024, Paulo Sérgio diz haver outra empresa na compra da instituição, perguntando a Vorcaro sobre valores, agindo como uma espécie de interlocutor dos interesses do Master nesse assunto.
Os diálogos mostram que a mesma conduta foi adotada para auxiliar o banqueiro na aquisição do Banco Voiter e do controle acionário do Will Bank, em fevereiro de 2024.
As mensagens indicam ainda que o servidor do BC tentou atuar, a pedido de Vorcaro, para alterar normas de enquadramento das entidades que atuam na Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc).
Em mensagem do dia 25 de abril de 2025, Vorcaro preparou um ofício do Master ao Desup e solicitou a Paulo Sérgio que revisasse da minuta do documento. O setor alertava sobre a necessidade de garantir níveis adequados dos indicadores de liquidez até 7 de maio de 2025. Paulo Sérgio retornou o arquivo com as alterações sugeridas.
Em uma conversa com Fabiano Zettel, seu cunhado, em 25 de julho de 2024, Vorcaro faz a recomendação de “tratar bem” Paulo Sérgio. “Tá sendo um anjo na vida”, escreveu o banqueiro.
Belline criou grupo no WhatsApp com Paulo Sérgio e Vorcaro
As conversas de Vorcaro com Belline Santana, então chefe do Desup do BC, também tiveram início em 2023 e foram até o final de 2025, quando o banqueiro foi preso e o Master liquidado.
“Os interlocutores, cientes da gravidade e caráter criminoso de suas condutas, evidenciam no diálogo, desde seu início, o propósito de ocultar o teor das comunicações. Por muitas vezes, BELLINE apenas anuncia o tema que será tratado, e solicita que conversem mediante ligações de Whatsapp”, diz trecho do relatório da PF.
Em 11 de abril de 2024, o chefe da Desup agenda uma reunião com Vorcaro e Souza para tratar de “visão prospectiva e estratégica” e diz para o banqueiro escolher se quer que o encontro seja no BC ou na sede do Master.
“Por óbvio, não parece regular que fiscalizado e fiscalizadores alinhem e compartilhem da mesma visão prospectiva e estratégica para o banco”, diz outro trecho do relatório da PF.
Assim como Souza, Belline também atuou na revisão de documentos elaborados pelo Master, até mesmo por iniciativa própria. Há ainda pelo menos um registro de que o servidor esteve na casa de Vorcaro, em março de 2024.
Em outubro de 2025, Belline criou um grupo no WhatsApp, com o nome de “Master”, em que incluiu Souza e Vorcaro. “O contexto geral das tratativas é o mesmo: a prestação de uma espécie de consultoria, tanto por meio de mensagens de texto e ligações quanto pela revisão de documentos, em benefício dos interesses de Daniel Vorcaro”, aponta a PF.
Vorcaro foi preso no dia 17 de novembro no Aeroporto de Guarulhos (SP), quando tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Segundo a PF, ele teve conhecimento prévio sobre detalhes da operação que o investigava, incluindo o nome do juiz e da equipe responsável.
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Vorcaro pagou propinas e viagens a Paris e à Disney a servidores do BC, diz relatório
Os favores oferecidos pelos servidores do BC eram recompensados com o pagamento de propinas por Vorcaro, segundo a PF. O repasse dos valores contava com a atuação de operadores financeiros como Fabiano Zettel, Ana Claudia Queiroz de Paiva e Leonardo Palhares
A remuneração de Belline, de acordo com o relatório, foi estruturada por meio de contratos fictícios e empresas de passagem para ocultar a origem dos valores do Master e de Vorcaro. Sob a justificativa de elaboração de um “estudo técnico, econômico e social focado na inserção de jovens no mercado financeiro”, Belline teria recebido R$ 2 milhões da Varajo Consultoria Empresarial, de Leonardo Palhares.
Uma planilha compartilhada entre Zettel e Vorcaro em setembro de 2025 mostra, entre um grupo de “despesas fixas mensais” o nome “Bellini” e o valor de R$ 500 mil.
Na mesma época, Vorcaro articulou e custeou uma viagem de Belline e sua esposa para Paris, alinhou diretamente a contratação de receptivo, guia e reservas em restaurantes de luxo da capital francesa, como Laperouse e Loulou.
O vínculo financeiro de Paulo Sérgio com Vorcaro e Zettel começa anos antes, em janeiro de 2020. Na época, foi criada a minuta de um contrato de compra e venda de uma propriedade rural pertencente ao servidor e seu irmão, no valor de R$ 4,8 milhões.
No ano seguinte, o imóvel foi transferido formalmente para a empresa Pipe Participações Ltda., de propriedade de Zettel. A investigação aponta que a operação teria sido de fachada, para lavagem de dinheiro, uma vez que a empresa compradora nunca usufruiu da propriedade, permanecendo o irmão do servidor usufruindo do local com produção de lavoura cafeeira.
Já em 30 de janeiro de 2024, Paulo Sérgio enviou a Vorcaro o roteiro detalhado de uma viagem em família para os parques da Disney e Universal em Orlando (EUA), prevista para o mês seguinte.
No mesmo dia, o banqueiro acionou o prestador Leo Serrano Giunchetti para providenciar o agendamento e contratação de guia para acompanhar o servidor e sua família no destino. No dia 5 de fevereiro, na data do embarque, Paulo Sérgio enviou mensagem a Vorcaro agradecendo o suporte prestado.
O que dizem os envolvidos
Em nota enviada à Gazeta do Povo, a defesa de Belline Santana afirma que ele sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BC “dentro dos estritos limites de suas atribuições” e que “confia que a análise integral de todos os elementos os quais se retirou o sigilo sejam apreciados com a necessária objetividade, sem conclusões baseadas em recortes ou interpretações descontextualizadas”.
O advogado Leonardo Palazzi, que representa Belline, ressalta na nota que “quanto as alegações de suposta vantagem ilícita obtida por meio da prestação de serviços de concierge em viagem internacional”, depoimento de Leonardo Giunchetti em agosto deste ano “esclareceu que tal fato jamais ocorreu, muito menos por indicação ou pagamento do Sr. Daniel Vorcaro”.
O texto acrescenta ainda que oitivas dos servidores do BC Marcio Contador e Paulo Sérgio Souza, em junho e julho, “demonstraram integralmente que não houve qualquer interferência do Sr. Belline Santana nos trabalhos de fiscalização do Banco Master”.
“Embora tenha sido afastado o sigilo dos procedimentos relacionados ao Banco Master, permanece evidente uma exposição midiática (seletiva e fragmentada) dos elementos constantes das investigações, especialmente no que diz respeito às Informações de Polícia Judiciária – as fatídicas IPJs produzidas pela Polícia Federal”, diz Palazzi.
Para ele, “a repercussão parcial desses elementos acaba por desviar o foco de relações e responsabilidades que, segundo os desdobramentos das investigações já conhecidos, alcançam outros níveis superiores, em diversas instâncias”.
O advogado Odel Antun, que representa Paulo Sérgio, diz lamentar que “apenas estejam sendo destacados à imprensa trechos descontextualizados de conversas” e acrescenta que “durante seu depoimento de mais de 4 horas à Polícia Federal, Paulo Sérgio esclareceu detalhadamente sua atuação rígida e rigorosa no caso, demonstrando que a interação do supervisionado com as equipes do Banco Central era cotidiana e natural, inserindo-se em contexto de supervisão”.
“Justamente a partir da atividade de supervisão, pautada no acompanhamento transparente da instituição bancária no dia a dia operacional, que foi possível a identificação, apuração e formalização de indícios de irregularidades na instituição supervisionada”, diz a defesa do ex-servidor em nota enviada à Gazeta do Povo. “Paulo Sérgio foi quem identificou, junto com sua equipe, problemas graves no Banco Master já em setembro de 2024”, afirma.
“Paulo Sérgio jamais protegeu interesses do Sr. Daniel Vorcaro, com quem manteve contatos estritamente no âmbito da relação institucional entre supervisor e supervisionado, desempenhando suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais no Banco Central do Brasil”, finaliza a nota.
Veja a nota da defesa de Belline Santana, na íntegra:
A defesa do Sr. Belline Santana, por seu advogado Leonardo Palazzi, destaca que, embora tenha sido afastado o sigilo dos procedimentos relacionados ao Banco Master, permanece evidente uma exposição midiática (seletiva e fragmentada) dos elementos constantes das investigações, especialmente no que diz respeito às Informações de Polícia Judiciária – as fatídicas IPJs produzidas pela Polícia Federal.
Infelizmente, a repercussão parcial desses elementos acaba por desviar o foco de relações e responsabilidades que, segundo os desdobramentos das investigações já conhecidos, alcançam outros níveis superiores, em diversas instâncias.
Nesse contexto, merece especial atenção a Petição 15.504, cujo sigilo também foi afastado por decisão do Ministro Edson Fachin, que trata do Inquérito Policial no qual já foram prestados diversos esclarecimentos, por fontes distintas, que afastam qualquer indicativo de prática irregular ou ilícita por parte do Sr. Belline Santana.
Por exemplo, quanto as alegações de suposta vantagem ilícita obtida por meio da prestação de serviços de concierge em viagem internacional, o Sr. Leonardo Serrano Giunchetti, cujo depoimento foi prestado no dia 24/08/2026, esclareceu que tal fato jamais ocorreu, muito menos por indicação ou pagamento do Sr. Daniel Vorcaro.
O próprio Sr. Daniel Vorcaro, no depoimento prestado no dia 28/08/2026, já afirmou que não houve qualquer fato consistente no pagamento ou concessão de vantagem ilícita ao Sr. Belline Santana em razão de sua atuação no BCB.
Ainda, de se destacar os depoimentos dos servidores do BCB, Marcio Contador Camargo e Paulo Sergio Neves de Souza, prestado no dia 11/06/2026 e 10/07/2026, que demonstraram integralmente que não houve qualquer interferência do Sr. Belline Santana nos trabalhos de fiscalização do Banco Master.
Esses esclarecimentos, dentre outros, inclusive o depoimento do próprio Sr. Belline Santana (23/08/2026), realizados na Petição 15.504, agora submetidos ao conhecimento público, precisam ser considerados em sua integralidade, sob pena de que a divulgação isolada de determinados elementos produza uma percepção evidentemente distorcida dos fatos.
A defesa reitera, portanto, que o Sr. Belline Santana sempre exerceu suas funções como servidor de carreira do BCB dentro dos estritos limites de suas atribuições, e confia que a análise integral de todos os elementos os quais se retirou o sigilo sejam apreciados com a necessária objetividade, sem conclusões baseadas em recortes ou interpretações descontextualizadas e, em especial, contrariando os próprios desdobramentos da Pet 15504, o que aparentemente é orientado por finalidades escusas.
Veja a nota da defesa de Paulo Sérgio Souza, na íntegra:
Desde que prestou depoimento à Polícia Federal no dia 10 de julho, Paulo Sérgio já havia peticionado nos autos, por duas vezes, ao Ministro André Mendonça, criticando o vazamento parcial de trechos de conversas e relatórios e requerendo em ambas as vezes o levantamento do sigilo dos autos e, em especial, da integralidade de seu depoimento.
Com o levantamento do sigilo ora determinado, a defesa lamenta que apenas estejam sendo destacados à imprensa trechos descontextualizados de conversas, sendo que, durante seu depoimento de mais de 4 horas à Polícia Federal, Paulo Sérgio esclareceu detalhadamente sua atuação rígida e rigorosa no caso, demonstrando que a interação do supervisionado com as equipes do Banco Central era cotidiana e natural, inserindo-se em contexto de supervisão.
Justamente a partir da atividade de supervisão, pautada no acompanhamento transparente da instituição bancária no dia a dia operacional, que foi possível a identificação, apuração e formalização de indícios de irregularidades na instituição supervisionada. Paulo Sérgio foi quem identificou, junto com sua equipe, problemas graves no Banco Master já em setembro de 2024.
Mesmo tendo sido orientado a “jogar parado” pelo Diretor Ailton – o qual dizia que Galipolo, ao tomar posse como Presidente do BC, iria resolver a situação do Master – Paulo Sérgio oficializou os achados da supervisão, apontando rombo da ordem de R$ 12 bilhões. O valor inclusive superava o apontado pelo Banco BTG em sua diligência. Até início de 2025, Paulo Sérgio ainda defendia uma solução de mercado, pois na pior das hipóteses o prejuízo a ser causado pelo Master em janeiro de 2025 seria de 15 bilhões.
Importante frisar que as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero decorreram de prontas ações de Paulo Sérgio e de sua equipe, tendo o próprio Paulo Sérgio, ao final da fase de comprovação de indícios de fraude e quando da anuência dos seus superiores hierárquicos, preparado a representação encaminhada ao Ministério Público Federal, bem como que era ele quem defendia internamente a liquidação do Banco Master desde março de 2025, muito antes da diretoria do BACEN (seus superiores hierárquicos) ter seguido este caminho.
Portanto, Paulo Sérgio jamais protegeu interesses do Sr. Daniel Vorcaro, com quem manteve contatos estritamente no âmbito da relação institucional entre supervisor e supervisionado, desempenhando suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais no Banco Central do Brasil.
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Autor: Gazeta do Povo








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