O sertão vai virar mar nesta quinta-feira (23), às 17h30, na Flip 2026. O Polo Sociocultural Sesc Paraty (Unidade Santa Rita) recebe o espetáculo “Viola, Rosa e Sertão”, comandado pelo escritor, violeiro e compositor Paulo Freire. A apresentação é gratuita.
A linha que une a música de Freire à literatura de João Guimarães Rosa (1908-1967) foi traçada no fim dos anos 1970. Entre 1977 e 1978, o músico viveu na região do rio Urucuia, no norte de Minas Gerais —o mesmo cenário que inspirou o clássico romance “Grande Sertão: Veredas” (1956).
Lá, Freire aprendeu os segredos da viola caipira diretamente com os mestres locais. A vivência no interior mineiro moldou sua carreira: em 1985, o músico foi convidado para integrar a equipe de criação da trilha sonora da histórica minissérie “Grande Sertão: Veredas”, produzida pela TV Globo. Uma década depois, em 1995, seu disco “Rio Abaixo”, fruto da jornada pelo Urucuia, venceu o Prêmio Sharp na categoria revelação instrumental.
No espetáculo em Paraty, Freire propõe um mergulho afetivo e estético pelo Brasil profundo. A narrativa costura a lida na roça, textos de Guimarães Rosa e memórias pessoais, como o encontro com Miguel Fogoso, antigo capanga do cangaceiro Antônio Dó.
A apresentação também evoca figuras reais que habitaram as páginas rosianas. Freire morou com a família de Manoel de Oliveira, o Mestre Manelim, cuja arte é vista como uma das principais referências melódicas do universo de “Grande Sertão”. O violeiro produziu dois álbuns do mestre: “Urucuia” (2006), pelo selo Vai Ouvindo, e “Deixa a Viola me Levar” (2024), lançado pelo Selo Sesc.
Guiado por fragmentos da obra-prima de Rosa, o repertório do show explora o sincretismo e os mitos do interior profundo. O público ouvirá causos e canções sobre São Gonçalo —padroeiro dos violeiros e santo da fertilidade—, além de relatos sobre o lendário pacto com o diabo, tema central do livro. Freire recorda ainda seu encontro com Manuelzão, o vaqueiro que liderou a comitiva de gado que transportou Guimarães Rosa em sua histórica viagem de pesquisa pelo território mineiro, em 1952.
No palco, o cruzamento entre a prosa literária e o mundo musical da roça ganha corpo nos chamados “toques de viola”. São peças tradicionais que mimetizam os movimentos, os sons e os desafios da fauna sertaneja. Completam o programa os cocos de viola, canções humorísticas e rítmicas típicas dos vaqueiros da região.
Assista, a seguir, ao vídeo no qual Paulo Freire toca “Manuelzão”, música inspirada em seu encontro com Manuel Nardi (1904–1997) o vaqueiro mineiro e célebre personagem Manuelzão, que inspirou Guimarães Rosa a escrever “Manuelzão e Miguilin”, um dos livros mais aclamados da literatura brasileira.
Assista, a seguir, ao vídeo “Rio Abaixo”, um causo musicado no qual o Tinhoso (no vasto universo literário de João Guimarães Rosa, Tinhoso é um dos eufemismos populares mais célebres do sertão brasileiro para se referir ao Diabo) desce o rio e vai tocar em uma festa.
SHOW ‘VIOLA, ROSA E SERTÃO’
ARTISTA Paulo Freire
QUANDO Quinta-feira (23), às 17h30
ONDE Polo Sociocultural Sesc Paraty – Unidade Santa Rita (Paraty, RJ), r. Dona Geralda, 320, no Centro Histórico de Paraty, tel. (24) 33714516
QUANTO Gratuito
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Autor: Folha








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