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Vacina do HPV reduz infecção mesmo entre não imunizadas – 22/07/2026 – Equilíbrio e Saúde

Uma única dose da vacina contra o HPV protege tanto quanto duas ou três doses, e a imunização de parte da população já basta para reduzir a circulação do vírus entre quem nunca foi vacinado. São essas as principais conclusões de uma pesquisa brasileira, a maior já feita sobre o impacto populacional do imunizante na América Latina.

O estudo do Hospital Moinhos de Vento, em parceria com o Ministério da Saúde, comparou dados de mais de 16 mil brasileiros com idade entre 16 e 25 anos coletados em duas pesquisas nacionais —uma realizada em 2016 e 2017, logo após a introdução da vacina no SUS, e outra feita entre 2020 e 2023. O trabalho, batizado POP-Brasil, será publicado na revista científica npj Vaccines, do grupo Nature.

Entre as mulheres vacinadas, a prevalência dos tipos de HPV cobertos pela vacina caiu 81% em relação ao período anterior à vacinação (de 15,6% para 3,1%). Mas o achado que mais chama atenção é que a vacinação teve um impacto populacional.

Mesmo entre as mulheres que nunca tomaram a vacina houve queda de 33% na circulação desses tipos de HPV, um efeito indireto, de proteção coletiva, que só se sustenta onde a cobertura vacinal é alta, afirma Eliana Wendland, pesquisadora do Hospital Moinhos de Vento e autora principal do estudo.

O mecanismo é simples, diz ela. “Isso se explica pela quantidade de vírus circulante. Quando eu tenho menos vírus circulante, eu tenho menos contatos e, portanto, eu começo a diminuir as taxas de prevalência na população em geral.”

Esse efeito coletivo, porém, só apareceu entre mulheres. Nos homens, que têm cobertura vacinal bem menor no país, o fenômeno não se repetiu. Também depende da idade: a proteção coletiva é visível até os 20-21 anos, faixa com as maiores coberturas, mas desaparece nas faixas seguintes.

Um dos achados com maior potencial prático é a confirmação de que uma dose protege tanto quanto o esquema de duas ou três. “A efetividade foi a mesma”, diz Wendland. O resultado reforça a decisão do Ministério da Saúde, que migrou o esquema vacinal brasileiro para dose única em 2024.

Segundo Ana Goretti Maranhão, do Departamento do Programa Nacional de Imunizações, a mudança já vinha respaldada por evidência internacional. “Quando a OMS [Organização Mundial da Saúde] tomou essa decisão, ela já vinha acompanhando três grandes estudos de mais de dez anos, onde mostrou que a dose única tinha o mesmo impacto das outras. Esse é o primeiro que a gente tem aqui no país.”

A dose única também não depende de coberturas tão altas quanto o esquema de duas doses. Historicamente, a adesão à primeira dose sempre foi maior do que o retorno para a segunda.

A ressalva fica para grupos específicos. Pessoas com HIV, imunossuprimidos e quem já teve lesão de alto grau ou câncer de colo do útero seguem no esquema de três doses. “Quanto mais precoce a vacina, maior a eficácia. Ela diminui depois dos 18 e principalmente depois dos 26 anos”, explica Wendland.

O estudo não mediu cobertura por região, mas dados do ministério mostram um país heterogêneo. A cobertura nacional está em 86%, mas no Acre —que tem pior desempenho— cai para 43% entre meninas e 36% entre meninos. Para Ana Goretti Maranhão, o cenário é herança de uma onda de desinformação entre 2018 e 2019 da qual o estado nunca se recuperou. “A cobertura nunca voltou ao que era antes”, diz.

A desigualdade não se resume a um ranking entre estados. “Não adianta a gente ter uma média nacional ótima se, por exemplo, o Rio de Janeiro têm ainda coberturas piores que o Acre.” O ministério investe em microplanejamento com estados e municípios para corrigir bolsões de baixa cobertura mesmo em estados com média boa.

Um estudo com o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) comparou Rio Branco, capital acreana com cobertura de cerca de 52%, a Ariquemes, em Rondônia, de perfil socioeconômico semelhante, mas cobertura acima de 90%. A diferença esteve na integração com as escolas —há três anos o ministério promove campanhas de vacinação nas escolas em abril e maio.

Se entre as mulheres participantes do estudo a cobertura chegou a 61,8%, entre os homens ficou em 31,1%, reflexo de uma desigualdade histórica. A vacinação de meninas começou em 2014, a de meninos só em 2017, e as faixas etárias só foram equalizadas em 2022.

Hoje, três estados já têm cobertura acima de 90% entre meninos, mas a média nacional segue distante.

“A menina, quando entra na adolescência, a mãe já leva no ginecologista. O pai, o menino, não”, diz Maranhão. O ministério trabalha com a Sociedade Brasileira de Urologia e ONGs para reverter isso, além de manter busca ativa entre 15 e 19 anos — meta de 640 mil jovens, da qual só metade foi alcançada.

Wendland vê nesse desequilíbrio um problema de percepção a corrigir com urgência. “Ficou muito no consciente coletivo que é uma vacina para proteger o câncer de colo uterino. A gente vacina os meninos para proteger as meninas. Mas precisamos desmistificar isso. A gente vacina os meninos para proteger os meninos”, afirma.

Hoje, o câncer mais associado ao HPV entre homens é o de cabeça e pescoço, sobretudo o de orofaringe, que vem crescendo e, segundo estimativas do grupo, já é quase tão prevalente no Brasil quanto o de colo do útero.

O estudo também identificou reduções em outros tipos de HPV não incluídos na vacina, indício de proteção cruzada que reforça o benefício da imunização além dos quatro tipos-alvo originais.

Uma ressalva importante: o estudo mede prevalência de infecção, não incidência de câncer, que leva décadas para aparecer ou desaparecer nas estatísticas. “Eu preciso prevenir essa infecção para que toda a geração já chegue lá sem câncer”, resume Wendland.

Para ela, duas frentes vão determinar se o Brasil se aproxima de países como Austrália e Dinamarca, que caminham para eliminar os cânceres ligados ao HPV: reforçar a vacinação até 80% de cobertura em todos os estados e introduzir o rastreamento por HPV-DNA, capaz de reduzir a mortalidade por câncer de colo do útero mais rápido que a própria vacina.

A meta da OMS é 90% de cobertura entre meninas de até 14 anos até 2030. O Brasil já tem 11 estados nesse patamar e mantém otimismo quanto ao prazo, mas com ambição maior do que a definida pela OMS, diz Maranhão. “Nós queremos alcançar nas meninas e nos meninos também.”

Um dado chamou atenção mesmo entre as pesquisadoras: a prevalência geral de HPV, somando todos os tipos, vacinais e não vacinais, aumentou de forma discreta entre as duas pesquisas, puxada por tipos fora da cobertura da vacina e por mudanças de comportamento sexual, como o aumento da proporção de pessoas com dois ou mais parceiros no último ano.

O achado não contradiz o impacto da vacina, dizem as autoras, mas reforça que a queda nos tipos vacinais —os mais associados ao câncer— não seria explicada por uma redução geral da circulação do vírus, e sim pelo efeito específico da imunização.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

Autor: Folha

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