Aleksander Ceferin, presidente da Uefa (União das Associações Europeias de Futebol), fala primeiro. É assim que as coisas funcionam em uma crise.
E então, vem a ordem natural: o tesoureiro e vice-presidente, Sandor Csanyi; o CEO da FA (Federação Inglesa), Mark Bullingham. Dirigentes homens do futebol europeu enfileirados na tela, aguardando a vez de salvar o futebol mundial.
Mas então, essa reunião de emergência da Uefa —a entidade que rege o futebol europeu, convocada em resposta ao plano do presidente da Fifa, Gianni Infantino, de vender participações em suas principais competições de futebol para um grupo de investidores— toma um rumo inesperado.
Laura McAllister, também vice-presidente e uma das duas mulheres no comitê executivo de 21 integrantes da entidade, pega o microfone. Ela exige uma medida concreta: um boicote total às competições da Fifa.
Talvez isso signifique pouco para você — o fato de que, em uma chamada de emergência com 150 pessoas debatendo ativamente o que consideram uma ameaça ao futuro do futebol, seja uma mulher quem faça o chamado à luta.
Talvez isso pareça perfeitamente normal. Talvez a exigência de McAllister por um boicote amplo e irrestrito à entidade máxima do futebol mundial, fundada há 122 anos, já tivesse grandes chances de conquistar apoio em um momento como esse.
E talvez alguns também considerem coincidência —uma peculiaridade— o fato de ser a presidente da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, a única outra mulher no comitê executivo da Uefa, quem delineia o caminho para padrões mais elevados de governança, caso seja necessária uma mudança na liderança da Fifa.
Mas, sejamos francos: esse tipo de raciocínio é ridículo.
Há algo de significativo no fato de duas mulheres liderarem a resistência à grande venda de direitos da Copa do Mundo, considerando como o futebol, histórica e sistemicamente, manteve as mulheres à margem.
No entanto, segundo várias fontes a par da reunião de emergência de quinta-feira (30) —que pediram anonimato para preservar relacionamentos—, ninguém além de Ceferin defendeu com tanta firmeza a necessidade de uma ação drástica quanto McAllister e Klaveness.
Isso é importante. Entre as lições que podem ser extraídas das propostas da Fifa e do subsequente impasse com as federações de futebol, uma que não ganhará as manchetes é a importância cada vez maior de ter mulheres em cargos de decisão — especificamente mulheres com experiência no futebol.
McAllister e Klaveness não são apenas executivas poderosas por mérito próprio; elas são ex-jogadoras respeitadas que defenderam suas seleções nacionais (País de Gales e Noruega, respectivamente). Esse histórico como atletas ajudou-as a conquistar respeito e autoridade nas áreas de governança e liderança durante suas passagens pela Uefa, especialmente no que diz respeito aos princípios e à ética que deveriam servir de alicerce ao esporte.
McAllister e Klaveness representaram seus países numa época em que suas nações mal as representavam. McAllister foi uma das três mulheres que pressionaram a Federação Galesa de Futebol a reconhecer a seleção feminina em 1992. A carreira de Klaveness como jogadora durou 14 anos, rendendo-lhe 73 convocações para a seleção e a participação na final da Eurocopa de 2005. Após encerrarem suas carreiras em campo, McAllister dedicou-se à vida acadêmica e à governança, enquanto Klaveness estudou Direito —trajetórias impulsionadas tanto pela paixão quanto pela necessidade, visto que seguir carreira no futebol além de jogar não era uma opção disponível na época.
Com o tempo, no entanto, ambas retornaram ao esporte. Em março de 2022, Klaveness foi eleita presidente da Federação Norueguesa de Futebol, tornando-se a primeira mulher a liderar a entidade em seus 120 anos de história. McAllister foi a primeira pessoa do País de Gales a conquistar uma vaga no Comitê Executivo da Uefa, em 2023, ocupando a única cadeira reservada a mulheres naquele órgão de 21 membros. Dois anos depois, McAllister conseguiu ampliar para duas o número de vagas reservadas a mulheres no Comitê Executivo da Uefa. Klaveness assumiu essa vaga.
Segundo várias fontes, muitos na UEFA e na FIFA inicialmente consideraram desafiador o estilo confrontador de Klaveness; isso pode ajudar a explicar por que ela foi derrotada ao concorrer a uma vaga não reservada especificamente a mulheres no Comitê Executivo da Uefa, em 2023.
Klaveness questionou publicamente questões morais relacionadas aos países-sede da Copa do Mundo: Qatar (2022), Estados Unidos (2026, em conjunto com México e Canadá) e Arábia Saudita (2034). Ela pediu uma investigação sobre Israel —adversário da Noruega nas eliminatórias da Copa do Mundo—, afirmando que sua federação não poderia permanecer indiferente às mortes de civis na Faixa de Gaza durante o recente conflito na região. Em abril de 2026, ela também defendeu a extinção do Prêmio da Paz da Fifa, que Infantino havia concedido ao presidente Donald Trump.
McAllister também não hesitou em expressar opiniões incômodas, seja defendendo os direitos LGBTQ+ no Qatar, lutando por uma maior representatividade feminina na Uefa ou denunciando práticas antiéticas no futebol.
Esses posicionamentos inevitavelmente geraram inimizades. No entanto, nos últimos dois anos, à medida que o futebol enfrentava intermináveis dilemas morais, McAllister e Klaveness passaram a ser reconhecidas como referências éticas. Após o anúncio do boicote por parte da Uefa, chamou a atenção o fato de terem sido elas as principais figuras a falar com a imprensa, criticando abertamente a Fifa por “chantagem econômica”.
Em certo sentido, McAllister e Klaveness tinham tudo e, ao mesmo tempo, absolutamente nada a perder. A vantagem de nunca ter sido convidada para o clube do bolinha é não se sentir obrigada a agir de acordo com seus estatutos não escritos, acordos tácitos ou jogos de poder silenciosos.
Assim, num momento em que o futebol estava sob o domínio da ganância de um único homem, e quando muitos na Uefa e na Fifa não sabiam quem estava a par do plano mestre, em quem mais confiar senão naquelas que sempre trilharam um caminho claro e coerente?
O que isso significa para o futuro das mulheres na gestão do futebol ainda é uma incógnita. Quando o The Athletic levantou a hipótese de que Klaveness ou McAllister poderiam ser indicadas para um cargo de liderança mais elevado, a resposta de uma fonte próxima a ambas foi franca: “O futebol não está pronto para isso”.
No entanto, muitos na Uefa e na Fifa esperam que este episódio recente demonstre, mais uma vez, a importância fundamental de ter mulheres competentes em cargos de decisão nos mais altos escalões do futebol.
Apenas 10 das 211 associações-membro da Fifa são presididas por mulheres. No comitê executivo da Uefa, composto por 21 membros, apenas duas vagas são reservadas a mulheres.
McAllister e Klaveness seriam as primeiras a dizer que uma mudança significativa é um processo lento, que exige paciência e determinação. Mas, às vezes, trata-se também de ter a coragem de se expor e assumir riscos.
McAllister e Klaveness estarão entre as primeiras a dizer que uma mudança significativa é um processo lento, que exige paciência e garra. Mas, às vezes, também é uma questão de ter a coragem de se expor.
Por necessidade. Por dever. Pela convicção ——compartilhada com muitas mulheres que as antecederam no futebol de que essa é a atitude correta, ainda que não seja a mais fácil.
Autor: Folha








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