As oscilações nas pesquisas de intenção de voto para a Presidência têm se refletido no mercado financeiro e alimentado a discussão sobre o “eleito” da Faria Lima para ocupar o Palácio do Planalto.
Na prática, porém, a possibilidade de vitória de Lula e a continuidade de sua política econômica expansionista já vêm sendo precificadas pelo mercado nos preços dos ativos e nos juros futuros.
A partir de dezembro do ano passado, algumas projeções do mercado começaram a apontar maior probabilidade de vitória do petista.
O favoritismo de Lula, no entanto, tem cobrado seu preço. À medida que sua vantagem se consolidou nas pesquisas de intenção de voto, os juros futuros subiram, com o DI para janeiro de 2028 chegando a 14,155%, enquanto o dólar alcançou R$ 5,25 em agosto.
Em seu último relatório de agosto, o J.P. Morgan projetou que o dólar pode atingir R$ 5,50 devido à volatilidade eleitoral e às incertezas fiscais no Brasil. No mesmo mês, investidores estrangeiros haviam retirado R$ 16 bilhões da Bolsa brasileira até o dia 13 de agosto.
Embora o movimento também reflita fatores externos, o risco eleitoral e a incerteza sobre a política econômica após 2026 entraram na conta dos investidores, elevando o retorno exigido para investir no Brasil.
Mais recentemente, a redução da vantagem do petista sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL), contudo, também começou a mexer com essas expectativas.
A pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (21) mostrou Lula com 47% e Flávio com 43% em um eventual segundo turno. A diferença caiu de cinco para quatro pontos, e os dois permanecem em empate técnico.
A pesquisa foi contratada pela Folha de S. Paulo e pelo Grupo Globo; 2.058 entrevistados em 128 municípios, entre 18 e 20 de agosto; margem de erro de 2 pontos percentuais, nível de confiança de 95%; registro TSE BR-04496/2026.
O resultado reforça a percepção de que a eleição está em aberto. Essa incerteza aumenta a volatilidade dos ativos e reacende o debate sobre a necessidade de ajuste fiscal.
Como as duas “Faria Lima” lidam com um possível ajuste fiscal
Historicamente crítico à política econômica do governo Lula, o mercado convive com a Selic em 14% e com a deterioração das contas públicas: a dívida bruta subiu 10,2 pontos percentuais do PIB, de 71,7% no fim de 2022 para 81,9% em junho de 2026, segundo o Banco Central.
Nesse contexto, emerge um paradoxo: embora a Faria Lima seja crítica à política econômica de Lula e defenda juros menores, o mercado vem se adaptando à perspectiva de sua vitória e à continuidade da atual política econômica.
Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo rechaçam a ideia de apoio do mercado a Lula e veem o movimento apenas como uma tentativa dos investidores de operar diante da possibilidade de sua vitória. Também destacam que há diferentes interesses dentro do que se convencionou chamar de “Faria Lima”.
De um lado, está a maior parte do “ecossistema de investimentos”, que depende de juros previsíveis, menor risco fiscal e estabilidade para ampliar o crédito privado, financiar empresas, realizar novas emissões e valorizar ativos.
De outro, há agentes que conseguem encontrar oportunidades em um cenário de juros elevados e simplesmente se posicionam de acordo com o vencedor mais provável.
“Essa — que não vota e não se posiciona — já montou as duas carteiras de investimentos [para a vitória de um ou de outro candidato]”, diz Raul Sena, CEO da escola de investimentos AUVP. “Ganhou o governo, compra empresa exportadora e bancão; ganhou a oposição, estatal e privatizável. Assim, ganha dinheiro nos dois filmes.”
Para Sena, o mecanismo é saudável. “Gestor não é militante, ele é pago para entregar retorno em qualquer cenário”, lembra.
Para Hugo Queiroz, da L4 Capital, porém, a estratégia é limitada diante do atual cenário. “De fato, existem dois mundos distintos dentro do ambiente rotulado como ‘Faria Lima’”, afirma. “Mas apenas uma pequena minoria consegue encontrar oportunidades no cenário atual.”
Essa minoria, diz, inclui os grandes bancos comerciais, mais concentrados na intermediação tradicional de crédito e nos serviços bancários e que podem encontrar maior rentabilidade em um ambiente de juros elevados.
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Mercado se divide entre bancões e ecossistema de investimentos
Na mesma linha, Rodrigo Miotto, da Nippur Finance, afirma que os chamados “bancões” são beneficiados por taxas de juros elevadas porque sua receita está diretamente ligada ao spread (taxa de risco) das operações de crédito.
“Se você ganha 1% de spread bancário em todas as operações, é melhor você ganhar 1% sobre um spread de 15% ou sobre um spread de 1% ou de 5%?”, exemplifica.
No mundo dos investimentos, no entanto, diz ele, os clientes são os empresários — diretamente prejudicados pelos altos juros. “O empresariado está falecendo hoje, está morrendo, está quebrando, porque ninguém consegue sobreviver com juros desse tamanho.”
Queiroz diz que a dificuldade de extrair valor do cenário atual é enorme. O mercado de crédito privado secou, inviabilizando a arbitragem de taxas de juros. Nos títulos públicos de longo prazo, a instabilidade impede saber se os papéis prefixados estão em um bom nível ou se é melhor permanecer nos pós-fixados.
O dólar está precificado de forma desalinhada com o risco real do país, sustentado temporariamente pelo fluxo de entrada de capital de curto prazo. Na Bolsa, os múltiplos, indicadores que servem para mostrar se uma ação está barata ou cara, estão baixos, com as ações depreciadas de forma geral.
Assim, a parcela do mercado que poderia se beneficiar da volatilidade — os multimercados — está, na verdade, encolhendo sob o peso dos saques e do encerramento de fundos.
“Nem mesmo as carteiras focadas em renda fixa têm obtido ganhos relevantes, diante da total falta de visibilidade sobre a trajetória fiscal do país”, diz. “Se houvesse sinalização clara de ajuste fiscal, o investimento em papéis prefixados seria altamente atrativo; mas, sem essa previsibilidade, o mercado opera no escuro.”
Quem fará o ajuste
A possibilidade de um ajuste fiscal está mais próxima do discurso de Flávio Bolsonaro (PL), que apresentou na semana passada seu time econômico, formado majoritariamente por nomes ligados à agenda liberal. Na coordenação, estão Daniella Marques, ex-presidente da Caixa no governo Jair Bolsonaro, e Adolfo Sachsida, ex-ministro de Minas e Energia.
O programa do senador prevê substituir o atual arcabouço por uma regra fiscal mais rígida, vinculada à trajetória da dívida, além de corte de ministérios, cargos comissionados e privilégios. “Eu vou fazer um tesouraço a partir de janeiro do ano que vem”, disse o candidato. “Vai ser corte nos impostos, corte na burocracia, corte na corrupção”.
Lula, por sua vez, tem evitado falar do tema, mas seu entorno reúne economistas desenvolvimentistas. Entre eles, está o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli, que defende o mesmo receituário do Estado como promotor de crescimento, apostando no aumento da arrecadação.
Ainda assim, parte do mercado trabalha com a perspectiva de que, se reeleito, Lula será forçado a promover um ajuste no início do quarto mandato devido à deterioração econômica. A tese guarda alguma semelhança com a inflexão ocorrida no início do segundo mandato, quando o governo adotou uma política fiscal mais austera e entregou superávits primários.
“Do meu ponto de vista, eu acho que, se Lula ganhar, alguma reforma fiscal para atacar o gasto obrigatório vem”, afirmou Christopher Garman, da Eurasia, em entrevista à Bloomberg. Para ele, o próprio governo já reconhece o problema e terá de enfrentá-lo em 2027.
Raul Sena diz que há “muita torcida nesta tese”. “O mercado está precificando um Lula sem gordura para queimar, apostando que a dívida vai apertar tanto que ele vai ser obrigado a repetir o Lula 2, aquele do superávit”, afirma. “Mas o governo não deu nenhum sinal nessa direção. Nenhum.”
Queiroz vai na mesma linha. “Com o Lula está muito claro que não vai ter um ajuste fiscal”, afirma. Na sua avaliação, o PT recebeu de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) o governo com uma dívida em torno de 40% do PIB, após um período de reformas estruturantes e modernização econômica.
Em vez de aproveitar esse cenário para promover um crescimento estrutural, optou por estimular o consumo por meio de crédito, alavancagem e endividamento de empresas, famílias e do próprio governo.
“Isso evidencia que não se trata de um governo austero ou fiscalmente responsável; nunca foi e nunca será.” Para ele, a continuidade de Lula não produzirá ajuste fiscal: “Praticamente vinte anos de administrações do PT comprovam esse padrão.”
Uma eventual vitória de Flávio representaria, para ele, uma mudança de direção, com foco na redução do Estado, desburocratização e ganho de produtividade. “Mais indivíduos e mais empresários, empreendedores, e menos Estado”, resume.
Resistências ao ajuste independem do eleito
Para Thaís Zara, economista-chefe da 4intelligence, seja quem for o eleito, terá de enfrentar um cenário de despesas engessadas e forte resistência política às medidas necessárias.
“Essa dificuldade independe de quem seja o próximo presidente. Qualquer agenda de ajuste fiscal exigirá ampla negociação com o Congresso e envolverá custos políticos relevantes”, afirma.
Entre os pontos que podem entrar nessa negociação, ela cita a regra de reajuste do salário mínimo, os pisos constitucionais de saúde e educação, os critérios de acesso ao BPC e a revisão de benefícios tributários.
“Evidentemente, um maior alinhamento entre Executivo e Congresso tende a facilitar esse processo, mas as dificuldades permanecerão independentemente do ocupante da Presidência.”
Sena admite a dificuldade do ajuste. “Entre falar e passar isso [o ajuste] no Congresso tem um oceano”, diz. “Mas o Flávio pelo menos fala a língua certa.”
Em qualquer cenário, no entanto, preconiza que ninguém escapa do ajuste. “Dívida a 81% cobra pedágio de qualquer presidente. O ajuste vem. A escolha é se vem planejado ou se vem na marra”, conclui.
Autor: Gazeta do Povo








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