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Filme sobre Gonzaguinha revê vida, censura, amor e canções – 27/08/2026 – Música em Letras

Há um pulso subterrâneo de inquietação na obra de Luiz Gonzaga Jr. (1945-1991) que resiste à passividade dos acervos históricos. Em “Gonzaguinha, Da Maior Liberdade”, a diretora Susanna Lira foge da armadilha do mero memorialismo e entrega uma obra de ritmo contagiante. Vencedor do Kikito de melhor longa-metragem documental no Festival de Gramado e do prêmio de melhor documentário narrativo no LABRFF (Los Angeles Brazilian Film Festival), o filme estreia nos cinemas em 3 de setembro.

A estrutura do documentário evita a cronologia convencional —a infância no morro de São Carlos, no Estácio, no Rio de Janeiro, os embates com a censura durante a ditadura militar e a morte precoce em um acidente de carro. Em seu lugar, o roteiro, assinado por Rodrigo Alzuguir, organiza a trajetória a partir de eixos temáticos: a crônica da miséria urbana, a esperança democrática e o lirismo amoroso.

A montagem de Ítalo Rocha extrai energia da justaposição dos registros. Gravações de estúdio e trechos de entrevistas de Gonzaguinha são tensionados por intervenções cênicas e de dança, com Iara Cassano e Jefferson Bilisco. A escolha afasta o projeto do didatismo televisivo e dá volume às lacunas deixadas pela escassez de imagens históricas.

A linguagem artística adotada por Lira não funciona apenas como ornamento. É uma solução narrativa para a falta de material de arquivo sobre determinados períodos da vida de Gonzaguinha e ajuda a impedir que o documentário se transforme numa sucessão convencional de entrevistas.

Henrique Xavier Pinheiro, padrinho e pai de criação de Gonzaguinha, é citado no filme, mas quase de passagem. Conhecido no meio artístico como Baiano do Violão, ele e a mulher, Leopoldina de Castro Xavier, a Dina, tiveram papel fundamental na formação pessoal e musical do menino no morro de São Carlos.

Gonzaguinha era filho de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e da cantora Odaléia Guedes dos Santos. Conhecida como Léia, ela foi cantora, compositora e dançarina ligada à vida noturna carioca dos anos 1940. Sua trajetória é pouco documentada e acabou ofuscada pela relação com Luiz Gonzaga e pela maternidade de Gonzaguinha. Foi crooner de orquestra, cantou na boate Dancing Brasil e foi amiga de Elizeth Cardoso (1920-1990).

Para a mãe, Gonzaguinha compôs “Odaléia, Noites Brasileira”, gravada no álbum “Recado”, de 1978. O filme mostra sua emoção ao tentar cantar a música por inteiro. Odaléia morreu de tuberculose aos 22 anos, quando o filho tinha apenas dois anos e meio. O próprio Gonzaguinha contraiu a doença duas vezes.

Como Luiz Gonzaga viajava constantemente em turnê e sua mulher, Helena Cavalcanti, não aceitou criar o menino, Gonzaguinha ficou sob os cuidados de Xavier e Dina, amigos próximos do músico. Gonzagão havia formado uma dupla com Baiano do Violão no início da carreira, quando os dois tocavam em prostíbulos da zona do Mangue, no Rio.

Embora Luiz Gonzaga fosse a estrela, foi com Xavier Pinheiro que Gonzaguinha aprendeu os primeiros acordes no violão. Xavier era violonista e compositor e esteve entre os primeiros parceiros musicais de Gonzaga.

Em entrevistas ao longo da vida, Gonzaguinha deixou claro que sua principal referência cotidiana de afeto, presença e cuidado era Xavier Pinheiro. Enquanto Luiz Gonzaga ajudava a garantir o sustento e os estudos do filho, era Xavier quem acompanhava o dia a dia e a criação do menino no morro.

O filme não explora relatos segundo os quais o pai biológico de Gonzaguinha seria o trombonista e maestro Nelsinho do Trombone (1927-1996), hipótese que nunca foi comprovada. Oficialmente, Gonzaguinha é filho de Luiz Gonzaga.

O longa examina, assim, a complexa relação afetiva e estética do compositor com Gonzagão (1912-1989) e também a pecha de “cantor rancoroso”, atribuída a Gonzaguinha durante os anos da ditadura. Lira mostra como aquilo que era rotulado como rancor correspondia, na verdade, a uma postura de inconformismo diante da injustiça social.

As composições de Gonzaguinha —mais de 20 aparecem no filme— funcionam como fio condutor da narrativa. Deixam de ser mera trilha sonora para atuar como documentos de sua época.

A seleção musical combina o lirismo visceral de “Explode Coração” com a força autobiográfica de “Com a Perna no Mundo” e a esperança de “Sementes do Amanhã”. Em vez de apresentar as canções como faixas isoladas, o filme evidencia o atrito entre a delicadeza poética e a denúncia social na obra do compositor e mostra como sua voz enfrentou a censura da ditadura e encontrou ressonância no público.

Gonzaguinha teve dezenas de composições censuradas. Entre os episódios lembrados no filme está o de “O Começo da Festa”, faixa do álbum “Plano de Voo”, de 1975. A canção chegou a ser vetada antes que os censores percebessem que se tratava de uma composição instrumental.

“Eles vetaram! Aí, foram ouvir e viram que era uma música instrumental e desvetaram a música”, conta Gonzaguinha em um dos registros utilizados pelo documentário.

A preocupação social não estava apenas nas letras. Gonzaguinha defendia no cotidiano melhores condições de vida e relações humanas capazes de diminuir os desequilíbrios sociais.

Ao prescindir de uma sucessão exaustiva de especialistas para validar seu biografado, a produção aposta na força das letras e da voz do protagonista. O resultado é um retrato denso que não apenas recupera o passado, mas ilumina fissuras ainda presentes no Brasil contemporâneo.

“Gonzaguinha, Da Maior Liberdade” é um filme que entretém, informa e emociona ao recuperar a vida e a obra de um artista cuja produção continua a dialogar com o presente.

GONZAGUINHA, DA MAIOR LIBERDADE

Avaliação: Ótimo

Onde: Nos cinemas a partir de 3/9

Classificação: 12 anos

Depoimentos: Luiz Gonzaga Jr., André Dale, Ernesto Leão e Gedivan Albuquerque

Produção: Brasil, 2026, 78 min.

Direção: Susanna Lira

Autor: Folha

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